terça-feira, 15 de agosto de 2017

Cicatrizes


Elas estão aqui,
expostas,
onde todos podem ver.
Marcadas à ferro,
queimaduras de todos os graus,
de gelo,
fogo,
paixão.
Algumas são mais profundas
marcaram mais forte;
são as provas de que eu posso me reerguer.
Elas também me dão base para alguns conselhos,
já que também foram minha escola.
São minhas companheiras,
minha história,
descrevem meus tombos e tropeços
e me ensinaram mais do que as risadas.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

#EU


Eu tenho essas coisas velhas que insisto em guardar. Coisas que já passaram da validade, da época, da idade. Roupas velhas, maquiagens vencidas, livros que eu nunca mais lerei, discos que eu nem sei se funcionam mais. Todos eles servem para alguma coisa, mas passou da hora, sabe? Não me vejo mais de meia arrastão, mas ela ainda está guardada na gaveta. Não tenho mais um vídeo cassete, mas esses VHS’s enfeitam a parte de dentro do baú. Também não tenho mais contato com várias pessoas, mas a lembrança boa que elas deixaram vive comigo. E tem aquele delineador caro que continua na nécessaire, inutilizado depois que eu descobri que:
(a) não fica bom no meu olho; e
(b) minhas habilidades manuais (ou falta delas) não permitem que eu utilize.
E aí tem você: que não me serve mais e mesmo assim eu insisto em guardar. 

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Nota Mental



Viva sua vida intensamente, mas nem tanto. Seja você mesmo, mas não passe dos limites impostos. Não ligue para opinião dos outros, mas preste atenção em tudo ao seu redor. Ligue o “foda-se” para o mundo, mas sempre pareça politicamente correto, ético e moralista. Não julgue, mas tenha opinião sobre tudo. Não seja mais um alienado, esteja antenado, você precisa ver os jornais para poder opinar. E Liberte-se. Mas não esqueça que a sua liberdade termina onde a minha começa.
Você brinca demais, abra um sorriso, deixe de ser tão sério, não vale à pena enfartar no trânsito. Mas você não pode chegar atrasado. Não grite, fale alto, se imponha, não seja arrogante. Obedeça, siga as regras, não seja um bitolado, inove, transforme, renove, use o modelo que salvamos no word.
Como nota mental para alguma próxima vida no mundo moderno, eu sugiro apenas que não leve tudo tão a sério.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Ele vai bem, obrigada


Meu coração? Vai bem, obrigada. Desde a última vez que nos encontramos, ele fez coisas diriam impossíveis. Cresceu tanto que nem coube no peito, encolheu ao ponto de duvidar da própria existência, ardeu, andou sobre brasas, congelou e afundou repetidas vezes. Passeou pelos jardins do éden e até visitou o inferno algumas vezes. Verdade é que ganhou uns arranhões no caminho. Alguns sem importância, superficiais, outros doloridos, torturantes. Chorou de noite e se alegrou com o raiar do dia. Apesar de tudo, ele ainda faz o que sempre fez de melhor: se reconstrói. A cada queda, toda vez que apanha.
Meu coração? Ele anda todo remendado, mas vive por inteiro mesmo lhe faltando alguns pedaços.
Ele vai bem, obrigada.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Depois dele


Depois dele,
algo em mim se quebrou.
Não sei se algo bom,
nem sei se foi ruim;
algo se foi
e eu ainda não encontrei o que ele levou.
Depois dele,
falta alguma coisa aqui:
um parafuso,
uma porca,
parece que ele fechou uma porta,
não sei...
Só sei que agora fica frouxo,
meio torto.
Às vezes range
e às vezes bate,
mas na maior parte do tempo...
Arde.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Tudo o que a gente faz pra esquecer


A gente finge que não vê. Faz qualquer coisa para esconder, para evitar que alguém pergunte e jogue na nossa cara o que fica preso na garganta e não sai.
Abaixa a cabeça, vira a cara, usa até chapéu e óculos escuros pra não transparecer o que nos corrói por dentro ao ponto de doer.
A gente se cala, tenta matar as palavras que insistem em aparecer e controla as lágrimas que não deveriam cair. Chorar no travesseiro noite passada já foi o suficiente para uma vida inteira.
Então a gente foge, se isola, ignora a verdade estampada no espelho do elevador, nas vitrines e nos outdoors.
A gente finge que não vê e torce para esquecer.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Capital



A beleza da cidade não está nas árvores do parque
ou no sorriso das crianças no zoológico
nem nas mansões do bairro nobre.
Está no mar de prédios que vemos ao norte
e no monte,
ao longe,
no sul.
Ela está nos hippies na feira,
nas estátuas vivas da praça
e nos ônibus lotados de coletividade.
A beleza da cidade mora na carroça dentro do posto de gasolina
e no homem sorridente ao seu lado;
mora no abraço apertado
de duas pessoas
no meio da estrada.
Essa beleza a gente encontra nos cabelos encaracolados
ou nos curtos;
nos olhos cansados
e nos alertas.
No homem oferecendo seus chinelos ao mendigo,
na humildade da senhora explicando sua pobreza,
na quentinha dada ao morador de rua.
No idoso contemplando pela janela do ônibus.
Na música dos passos que soa no centro,
nas vozes abafadas que escutamos de dentro dos prédios.
Está em todo mundo
que apesar de tudo
faz questão de sorrir.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Roteiros que nunca dão certo


Eu tenho uma crônica inacabada. Ela fala sobre os heróis que criamos e eu pretendia postar no dia 25 de dezembro do ano passado. Também tenho um texto incompleto, sobre criatividade. A ideia era falar que todos aqueles esquemas sobre como escrever um livro em “n” passos nunca funcionou para mim. Sem falar nos milhares de músicas que ficaram na minha cabeça por um dia e depois sumiram assim: do nada.

Eu também tinha intenção de terminar meu TCC ainda nas férias. É janeiro e eu nem comecei. Estudar para OAB, visitar minha irmã no exterior, escrever um livro.... Admito: o primeiro objetivo de todos era o livro e eu acabei colocando-o no fim da lista. De novo.

Decorar meu quarto, dar banho no gato, pintar a raiz do cabelo que já cresceu novamente, passar o natal com meu pai, o carnaval com meu outro pai, ligar para meus avós, ler 20 livros até o fim do ano, tocar violão até meus dedos sangrarem, arrumar meu quarto, colocar as séries em dia. É só o que eu consigo me lembrar até agora. Todos planos que não deram certo.

Lembra do texto sobre criatividade? Então, checklist sobre coisas que eu quero – e preciso - fazer não dão certo para mim.

Ah, acabei de lembrar: eu também ia fazer uma reforma do blog.

Droga. Se eu não consegui nem terminar a lista de um dia, imagina pensar em planejamento ao longo dos anos. Trabalhar, ficar rica, namorar, noivar, casar, ter filhos, cuidar dos filhos, trabalhar, viajar, ser feliz...


Chega. Complicado demais. Eu não funciono assim.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Quem é?



O povo vota nela de novo.
O povo coloca os corruptos lá de novo.
O povo não muda,
o povo esquece.
O povo é burro.
Não adianta nada,
porque o povo faz tudo errado de novo.

Entretanto,
o povo é quem vota,
é quem não vota,
é quem anula,
é que sai da cidade porque não quer votar.
O povo é quem apoia,
é quem reprime,
é quem odeia,
é quem ama.
É quem morre
e é quem mata.

O povo é quem luta,
é quem não quer lutar.
É quem vê novela,
é quem dorme quando o jogo acaba,
é quem espera o jornal acabar.
O povo é quem troca de canal,
quem fala só por falar,
é quem senta a bunda no sofá;
O povo é quem vai pra rua gritar.

O povo é quem reclama do povo,
quem fala que não concorda com o povo.
O povo é quem esperneia,
quem paga impostos,
quem se esconde do leão.
quem reclama da inflação.
É quem passa o dia implorando por um sim;
o povo é quem vive dizendo não.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Recém nascido

Era uma daquelas noites em que até os ratos desistem de procurar comida e se encolhem uns contra os outros dentro das caixas de esgoto. O frio cortante se materializava no hálito de quem se aventurava pelas ruas e nem os melhores casacos ofereciam abrigo. Era uma daquelas noites em que os bons pais se sentam na beirada da cama dos filhos para contar histórias e os maus progenitores se perdem – ou se encontram – numa garrafa de bebida. A mulher sem nome, que gemia em um dos muitos becos da cidade, tinha certeza que o pai do seu filho era um dos piores do mundo. Ele não fazia ideia de que ela estava grávida e, muito menos, que daria a luz em alguns minutos.
A moça se lembrava apenas do cheiro pútrido que ele exalava e mais nada. Esquecera seu rosto, nunca soube seu nome e nem haviam se encontrado depois daquilo.
Só se lembrou do ocorrido alguns meses depois, quando uma coisa começou a chutar sua barriga que ficava maior a cada dia que passava. Procurou uma daquelas mulheres que tiravam o incômodo de dentro das grávidas, mas ela falhou e disse que, se tentasse novamente, morreriam mãe e filho. Por menor que fosse sua vontade de parir o fruto de um ser desconhecido, não queria morrer. Não gostava de morar na rua e, por isso, uma calçada qualquer não parecia ser um bom leito de morte.
E agora estava ali, sentada num beco escuro e úmido, gemendo e sentindo mais dor do que um ser humano seria capaz de suportar. Pelo menos era o que parecia. As contrações vinham sem intervalo algum agora e a força que fazia para expulsar o bebê era automática. Alguns chamariam de instinto maternal, ela chamava de autopreservação.
Seu corpo tremia e ela não sabia se por medo, dor ou frio. Talvez uma mistura dos três, todas as coisas que acompanhavam seus dias. Além da fome, é claro. Como ela iria cuidar de uma criança era um problema a ser resolvido, mas, primeiro, o bebê deveria sair. Depois ele comeria – ou passaria fome, como a mãe.
É possível que algumas pessoas tivessem passado pela rua, olhado para a figura deitada no chão e sentido algum resquício de pena e uma boa dose de nojo. Mas nenhuma delas se dignou a se abaixar um pouco e examinar o que acontecia ali. Ninguém se interessou pelo choro de criança que invadia os ouvidos de uma mulher semi acordada. Nem mesmo se atentou para o fato de que a moça deitada no chão suava, apesar da neve que caía do céu.
Em algum lugar da sua mente, ela sabia que o bebê chorava e que seria melhor cortar o cordão umbilical. Ela entendia que ele estava congelando e que o certo seria enrolá-lo em cobertores para que a criança não morresse de frio. Mas ela não tinha cobertores, tampouco forças para se erguer e pegá-lo nos braços. O cansaço era demais e a dor... A dor era insuportável. Fechou os olhos. Talvez, com o tempo, tudo acabasse.
Acordou algum tempo depois sem saber se haviam se passado minutos, horas ou vidas. Seus ossos doíam, seu corpo inteiro tremia e as lágrimas e o suor haviam congelado e formado uma fina camada de gelo em sua pele. Alguma coisa a impedia de fechar as pernas. Ela firmou as mãos no chão e impulsionou o corpo dormente para uma tentativa desajeitada de se sentar. Olhou para baixo e viu o corpo do ser que havia nascido há algum tempo. Quanto tempo havia se passado? Minutos, horas? Uma vida, certamente. Mas o tempo? Depende. Quanto tempo demora para um recém-nascido congelar?
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