domingo, 10 de dezembro de 2017

Alguns fatos sobre o TCC



Como eu disse num texto desses, orientador não serve para nada. E você vai arrancar os cabelos porque não consegue escolher um. Depois, terá uma gastrite nervosa por não conseguir nenhum. E olha que você chega na etapa de desistir de escolher e aceita o primeiro que encontrar nos corredores.
A apresentação não dura nem vinte minutos, mas você vai suar o suficiente para dez anos antes de entrar na sala. O desespero que vai durar uns dois meses e as lágrimas que rolarão à vontade. Por sua conta mesmo.
Você, provavelmente, não vai ler nem metade dos livros que estarão na bibliografia do seu trabalho e a pior parte vai ser formatar nas normas da ABNT. Mas isso você só descobrirá depois.
Porque escrever é complicado, ler é cansativo, conversar com o orientador é constrangedor quando você não sabe nem onde está e fazer isso tudo enquanto estuda para as outras matérias é impossível.
Quanto mais perto está o grande dia de apresentar o trabalho e ficar livre disso para sempre, mais nervoso você fica. E a cada dia que passa parece um dia mais perto da sua crucificação. Milhares de resumos, centenas de páginas rabiscadas, dezenas de gravações para tentar explicar o maior número de tópicos no menor intervalo de tempo. Você só tem dez minutos. Mas dez minutos não é suficiente nem para o histórico.
Mas não se preocupe. Depois de um ano inteiro estudando, nada pode dar errado na hora “H”. Mesmo que sua voz saia esganiçada, que todos os ossos do seu corpo comecem a tremer, que sua apresentação fique igual àqueles teatro do jardim de infância, que os examinadores te olhem como se você fosse o cocô da pulga do cavalo do bandido e que você tenha esquecido a parte mais importante do trabalho...
Tudo vai dar certo.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

#EU


Eu tenho alguns textos secretos. Só meus. São os textos que eu não posso usar a desculpa do “não é sobre mim”, porque são. Porque nenhum deles tem um mínimo elemento de ficção. São meus, meu espelho, meu coração, sou eu.
Guardo-os como se fossem tesouros, como se fossem objetos de cobiça dos outros. Acredito que ninguém se interesse o suficiente para ler, mas, por via das dúvidas, prefiro esconder. Porque o caminho que eles mostram é perigoso, difícil de percorrer.

E não os destruo. Seria mais fácil, é verdade, mas ainda não criei coragem. Deixo-os inteiro, como se assim eu mesma pudesse ser inteira também.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Sobre o Mar


Eu poderia apreciar a vista azul dos seus olhos, poderia nadar na sua saliva e me encharcar no seu suor. Eu poderia aproveitar o sol do seu sorriso e poderia surfar nas suas ondas de prazer. Nossos corpos nem perceberiam a areia arranhando nossa pele e nossa língua também não sentiria o gosto salgado do mar ao nosso redor.

Eu iria me afogar nas marolas dos seus suspiros e a sensação da maresia nos arrepiaria enquanto a maré estivesse alta. E quando ela finalmente abaixasse, nossos braços se encontrariam e dormiríamos de conchinha. Nós seríamos o mar. Só por amar.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Quando a gente fica velho



A gente descobre que ficou velho quando entende as piadas nos desenhos animados.
A gente descobre que ficou velho quando o sol é escaldante e mesmo assim tem moletom e guarda-chuva guardados na bolsa. A gente descobre que ficou velho quando leva uma bolsa. E dentro dela tem dinheiro, cheque, cartão, carregador de celular, absorvente e oitenta canetas. A gente descobre que ficou velho quando avisa os outros para levar blusa de frio e guarda chuva.
E quando enrola papel toalha numa maçã e diz que é “para garantir”. A gente se preocupa mais com dinheiro e menos com diversão. Compara o preço da coxinha com a passagem de ônibus e escolhe comer a maçã que guardou na bolsa, mais cedo.
A gente descobre que ficou velho quando as festas de 15 anos se transformam em formaturas, depois em casamentos e então em batizados. E então arrumamos emprego e não conseguimos mais ver as séries que queríamos ver porque não temos mais tempo. E o tempo que temos, usamos para visitar os afilhados. Sim, aqueles dos batizados.

E os afilhados crescem também. E aí a gente descobre que ficou velho toda vez que percebe os mais novos ficaram velhos também.

domingo, 29 de outubro de 2017

A busca pelo orientador


Tese de conclusão de curso. Ou, para os graduandos, inferno. Eu procurei uma sigla igualmente desesperadora com a iniciais TCC, mas não encontrei nada ainda, então, fiquemos com inferno.
Primeiro passo: um tema.
Você precisa se decidir por um tema. Não, seus professores não podem te ajudar porque, segundo eles, “é uma decisão pessoal”. E a faculdade não indica ninguém para te ajudar a escolher um tema. O tal do “acompanhamento psicológico” no Núcleo de Apoio Psicopedagógico é só para o desespero mesmo.
Aliás, por falar em desespero, você acha que já sentiu de tudo até então. Já sentiu dor, angústia, medo, pavor, ódio (de professores, principalmente), já sentiu até mesmo o êxtase de passar numa disciplina quase impossível.
Mas não. Você não sentiu de tudo. Nada do que você já viveu na vida te preparou para o TCC.
Primeiro problema: você fez quase cinco anos de faculdade, teve aulas com aproximadamente 40 professores sobre, no mínimo, 15 áreas do direito diferentes e precisa escolher um tema dentre todos eles que seja um “problema” a ser resolvido e que você goste.
Quem diabos gosta de problema? Ninguém! Depois do TCC, então, muito menos.
Porém, você, meu querido amigo, é uma pessoa que quer acabar logo com a faculdade e o TCC é um dos últimos passos. Você escolhe um tema. Se for imbecil o suficiente, como eu, escolhe um tema que não tenha ligação nenhuma com a grade curricular da faculdade: direito cibernético.
Definido o tema, que, por sinal, foi quase um parto, você precisa de um professor orientador. Sim, é obrigatório e sim, ele precisa assinar um monte de papéis que vão ser jogados no lixo na primeira oportunidade que surgir.
Eis que surge o passo 2: orientador.
Você pergunta primeiro aos seus professores favoritos. E olha que são muitos até, para quem achou que sairia da faculdade odiando o mundo inteiro, vemos aqui um avanço.
Mas você, caro ser iludido, não pode fazer o TCC ao lado do seu amado professor favorito do mundo. Ou porque ele não tem mais vagas para orientandos, ou porque não quer, ou porque não pode te ajudar em nada.
Lembra do tema? Pois é. Não tem nem na grade e nem na cabeça dos professores, por sinal. E olha que você foi até o professor que jurou nunca mais olhar na cara.
Mudança de planos. Vamos para direito constitucional, afinal, metade dos professores da faculdade gostam de direito constitucional.
Você sabe qual será o foco do seu trabalho?
CLARO QUE NÃO!
Mas dane-se! Você só precisa achar um orientador mesmo.
E a escolhida é a professora que todos acham nojenta! Por que? No início, o motivo era “eu-adoro-a-professora-e-ela-sabe-muito-do-assunto”.
É claro que o motivo real acabou sendo: porque-eu-sou-burra.
Primeiro encontro: Maravilhoso. Você saiu confiante e animada depois que ela te passou uma lista de cinco livros de oitocentas páginas cada um. Ela sugeriu vários temas legais e a única coisa que você tem que escolher é o seu preferido. Simples.
(Por enquanto, deixemos a parte de ter que ler cinco livros de 800 páginas em uma semana de lado.)
Pois bem. Você escolheu o orientador, escolheu o tema e já tem a bibliografia básica. Só falta enviar um e-mail para a orientadora e esperar uma lista de sugestões que vão deixar seu trabalho impecável.
E passa o fim de semana.
Passa a outra semana.
Duas semanas depois e... nada.
Ela não responde, parece que sumiu do mapa.
Mas ela não faria isso. Algo pode ter acontecido. Esperar mais um pouco é melhor.
E mais uma semana se passa.
Seus amigos te perguntam sobre o TCC e sua vontade é morrer.
Resolve mandar um e-mail para a professora perguntando se ela viu seu último e-mail.
Mais uma semana em silencio. A essa altura você não dorme mais e já sente vontade de vomitar. E olha que é só o projeto.
No terceiro e-mail você recebe a seguinte resposta:
Não posso te ajudar com o tema. Boa sorte. Bj.”
JURA QUE ELA DEMOROU UM MÊS INTEIRO PARA ELABORAR ESSAS TRÊS FRASES?!
E você nunca pensou que a parte mais difícil do TCC era escolher um orientador.
Foda-se. É mais fácil escrever o trabalho e depois pedir para qualquer professor assinar e pronto.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Sobre a morte



Inevitavelmente, a morte chega. Para grande parte do mundo ela chega na hora certa, na velhice. Aos 90, 100 anos. E muitos a julgam mais justa quando ela vem mais tarde, quando o sofrimento seria viver.
Para outros ela vem cedo demais. Ela ataca os jovens, os que ainda não viveram quase nada, os que nem nasceram. Ela nunca é justa ao leva-los, apenas cruel.

E ela vem sorrateira, na calada da noite ou no meio do dia. Vem durante o sono ou durante as maiores alegrias. Às Vezes ela interrompe o riso, outras, ela causa espanto. Em cem por cento dos casos, ela deixa um rastro de dor.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Esquecimento



A gente se esquece de planejar
uma noite romântica,
um café da manhã na cama,
uma viagem,
o futuro.
A gente se esquece das datas importantes
e vai se esquecendo da importância.
A gente se esquece da rapidinha de manhã,
do beijo de bom dia,
do bom dia.
A gente se esquece da fome,
do frio na barriga,
do arrepio que a gente sentia.
Se esquece do abraço de boas vindas,
do fim de semana frio,
se esquece das séries que víamos no Netflix.
A gente se esquece dos gostos,
dos cheiros,
dos abraços,
dos beijos.
E a gente vai se esquecendo
dos aniversários,
dos dias dos namorados,
do caminho de casa,
de comprar flores,
de escolher a lingerie.
A gente se esquece do carinho,
do cuidado.
A gente ignora a saudade
e se esquece do amor.

domingo, 22 de outubro de 2017

Ó, pátria amada


Descobriram que tudo errado,
tem palhaço fora do circo
e stand up no plenário.
Descobriram gente fazendo coisa errada
com quem colocou essa gente lá
pra fazer a coisa certa.
Descobriram o manto verde e amarelo
e embaixo dele tudo era preto,
podre,
sujo,
imundo.
Corrupto.
Descobriram que nem a lei tinha mais voz
e fomos todos parar no topo
da lista dos dez mais
em primeiro lugar:
o melhor exemplo

do que não se deve seguir.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Aos 22



Aos 22 algo muda. Você tem alguém que te manda mensagem às cinco da manhã mesmo preferindo não ter. Eles se lembram mais do que antes, talvez porque você conheceu mais pessoas ou então porque mais pessoas conheceram você.
Aos 22 você já partiu alguns corações e algumas pessoas partiram o seu. Prudência deixou de ser uma desconhecida e os erros agora são mais aceitáveis, afinal, você assumiu o risco. Na maioria das vezes.
Acordar cedo te incomoda mais, as costas doem com o esforço, mas não é a idade. Ainda não. São só 22. Os 22 anos não pesam tanto quanto os 30, muito menos como os 18. São só 22.
Sem festa, sem comemorações, sem farra. Você não quer mais isso, cansou. Só quer uma cama, seu gato de quatro patas e um cobertor quentinho o dia inteiro.
Mas não dá. Porque aos 22 você tem que trabalhar. Aos 22 ser imatura não é mais aceitável, mas a maturidade não combina com sua pele lisa. Que resolveu ganhar espinhas, por sinal.
Você não é mais adolescente, mas ser chamada de adulta ainda incomoda, você não acha que mudou tanto assim. Aos 22 você para e se dá conta de que 22 anos passam depressa. E tem o pressentimento de que os próximos 22 serão mais rápidos ainda.
Aos 22, nada mais é o fim do mundo. Nem o começo de tudo. São só 22.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Sobre marcas


A do queixo foi a primeira. Ficou uma marca, pequena, que quase não faz diferença. Dois riscos mais profundos que a pele, um “y” meio torto que o médico me deu.
Depois veio a do nariz. Uma criança apertando um cachorro fofinho resultou num leve rachado, mais escuro que o resto do corpo, ao lado da narina. Assim como o primeiro, quase não dá para notar.
Outra é arredondada e fica no meu pescoço. Hereditária, passa de mãe para filho. Sei disso porque minha mãe tem uma igual. Assim como meu irmão e meu tio. Eu gosto dela; e, de algum jeito, me lembra carinho.
Tenho a da barriga também. Eita dias sofridos esses! Mais de uma semana com dor para, no fim, deixar um órgão com os médicos e ganhar mais um risco, quase invisível para quem olha de longe.
Tem uma no joelho, a da vacina que já é clichê, a que fica perto do umbigo, a do punho, a do dedo...
Dentre todas as marcas que eu ganhei um dia, seja de mim mesma, seja de outras pessoas, seja da vida: a que dói mais é justamente a do peito. Mesmo sendo a última, nem é mais tão recente assim. Entretanto, porém, todavia... ainda dói. Eu chamo ela de ‘incurável”, “inesquecível”, “você”.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...