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quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Eu não consigo apagar os textos que fiz para você




Eu não apaguei os textos que fiz para você. Talvez eu saiba separar as coisas, não sei. Eu consigo sofrer ao mesmo tempo em que admiro um texto bem escrito. Eu não apaguei as fotos que postei de nós dois. Primeiro porque são muitas e eu sempre tive preguiça dessas coisas e segundo porque eu não quero te apagar da minha memória. Não, eu não te amo mais, mas não vou ignorar que já senti isso um dia e que, enquanto durou, me fez bem. Fingir que nada do que vivemos aconteceu seria hipocrisia e eu não costumo ser uma pessoa hipócrita. Eu não te amo mais, é verdade, mas tenho um carinho imenso por tudo o que nós vivemos. Além disso, eu tenho preguiça de excluir nossas fotos e simplesmente não consigo apagar os textos que escrevi pensando em você.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Para 2019




Em momentos como esse eu percebo que não preciso de muito para viver. Nesses momentos em que estamos num lugar só nosso, uma espécie de paraíso não exclusivo, mas que pouquíssimas pessoas podem entrar. É como uma fortaleza. Por mais que algumas pessoas insistam em atrapalhar, nossas fundações são fortes, nossos muros são resistentes.

São momentos que eu gosto de aproveitar. Gosto de sentir a brisa de uma conversa no rosto, o cheiro do afeto que compartilhamos, gosto do gosto que a união da nossa família tem, adoro o som das risadas e a graça das piadas sem graça.

Não é perfeito, longe disso, vez ou outra os trovões de uma briga rugem e as vozes se alteram. Quem fica de fora acha até que é loucura. E talvez seja mesmo. Porque logo a tempestade passa. Apesar de tudo, raiva não é algo que conseguimos sustentar por muito tempo quando é de um de nós contra outro.

Em momentos como esse, em que as divagações de fim de ano vêm antes do tempo, eu percebo que todo o resto não é tão importante quanto o que temos aqui. Nosso pequeno paraíso, aquilo que chamamos de lar, mas que não é necessariamente nenhum lugar específico. É cada um de nós, unidos mesmo separados, para onde sabemos que não importa se estamos em países diferentes, sempre poderemos voltar.

Num ano em que infinitas lágrimas foram derramadas pelos mais variados motivos, meu único desejo para 2019 é que esse paraíso que construímos continue firme.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Quem é que disse que você não pode voar?




Hey, me diz uma coisa: quem é que disse que você não pode voar? Preste atenção, você pode sonhar alto, pode alcançar, e quando estiver lá em cima vai enxergar tudo o que eles nunca viram. É só acreditar em si mesmo e não deixar ninguém dizer que você não é capaz. Se sua mente quiser, pode tirar seus pés do chão.

No meio de todo esse ódio, você pode ser a cólica que segura o megafone nas ruas e abafa as vozes odiosas do microfone. Enquanto eles pregam o ódio, você pode espalhar o amor. Acredite em mim: você é uma dessas pessoas únicas, extraordinárias. A cosmopolita mais insólita que eu conheço, a pessoa que me ensina mais coisas nesse mundo, uma das poucas que eu escuto sem me entediar.

E esse seu fogo que arde lento é só o início, apenas um capítulo da história maravilhosa que você pode contar. Você não é o epílogo, é só o início, acredite em mim. Assim como eu tenho fé em você.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Eu tenho visitado suas fotos




Eu tenho visitado suas fotos, nossas memórias, nosso amor que não é mais amor e se transformou em algo menos duradouro e mais utópico. Eu tenho visto seus sorrisos e caretas, não vou mentir, eu tenho me lembrado muito de você. Até demais, na verdade. Eu tenho te encontrado em sonhos e meu coração sente que não foi o bastante, que tudo terminou da forma errada. Depois de todo esse tempo, minha cabeça diz que foi melhor assim, mas minha intuição insiste que não teve fim. Ainda.

Eu tenho me lembrado de você e confesso que não faço nada para tentar evitar. Prefiro deixar a correnteza me levar até que eu morra afogada em você. Eu invoco suas lembranças numa forma de finalmente ter uma overdose de tudo o que você foi e então, quem sabe, te esquecer de vez.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Os meus melhores textos são sobre você




Os meus melhores textos eu escrevi para você. Isso é ridículo, eu sei, mas a verdade nem sempre vem com roupas elegantes; muitas vezes ela é cruel e trágica e, neste caso em específico, ela é brega e deprimente.

Os melhores dias da minha vida eu vivi com você. Ou eu estava ao seu lado ou conversando até de madrugada. Você sempre contou as melhores piadas e só o timbre da sua voz foi capaz de fazer eu me arrepiar.

Você também tem os olhos mais bonitos que eu já vi e o abraço mais gostoso que eu já senti. Você foi o meu melhor consolo, o ombro mais macio. Não me espanta nenhum pouco que os meus desenhos mais bonitos foram do seu rosto.

E agora os meus melhores textos continuam sendo sobre você, mas o tom de alegria não existe mais, assim como a sua companhia. Estão lotados de você, como sempre, mas, dessa vez, eles exalam o aroma da sua ausência.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

"É, eu sei..."




- Eu sei que não deveria e odeio isso. Eu te amo. Merda, eu te amo e só me dou conta disso agora, quando você está dormindo e eu estou destruída. É melhor eu ir embora antes que seus olhos se abram e me mostrem um universo inteiro que eu nunca poderei ter. Não, pelo amor de deus, não me olhe desse jeito, eu não quero mais derreter.

Os olhos verdes se abriram antes que ela fosse embora. Ambos se fitaram. Ela, com tanto amor que até doía e ele com uma névoa cinzenta de sono ainda.

- Vem aqui. – Ele esticou um braço e acariciou a cintura dela, nua. O neon lá fora piscava, banhando o quarto de vermelho para depois se apagar e deixar tudo escuro de novo. Vermelho. Breu. Vermelho. Breu. – Será que eles já entregam o café da manhã?

- Ainda nem amanheceu. – Ao contrário do que disse a si mesma que ia fazer, ela se aconchegou mais nele e encostou o nariz em seu peito. Os pelos faziam cócegas, mas a sensação era gostosa. – O que acha de tomar café lá embaixo.
Todos os músculos dele se retesaram enquanto ele respirava fundo. Em momentos como aquele, em que ele era duro feito pedra, ela sentia vontade de chorar.

- Não é bom arriscar. Podemos ser vistos.

- É, eu sei... – Passaram alguns minutos em silêncio antes que ela perguntasse: - Você vai embora depois do café da manhã?

- Você sabe que sim. – E ele sempre fazia isso. Sempre amassava seu coração em suas próprias mãos. Ela não sabia quanto mais aguentaria, mas ainda estava ali. Ao contrário do que tinha dito, ela não foi embora enquanto ele estava dormindo. Na verdade, tinha quase certeza de que ele faria isso.

Na verdade, ele já tinha feito. Na primeira e na terceira noite. Depois eles tiveram uma conversa franca e decidiram pelo menos se despedirem com mais uma transa pela manhã. A transa nem sempre acontecia, mas a despedida, sim. E era o que mais a machucava. Todas as vezes que ele vestia as roupas, se inclinava e lhe dava um beijo na testa antes de dizer “até logo” era como se um pedaço da sua alma fosse embora com ele. E quando ele voltava, não a trazia de volta.

- É... Eu sei. – Ela se levantou e pegou algumas roupas no chão do quarto, antes de entrar no banheiro e se trancar lá. Ela queria chorar, mas as lágrimas não apareceram dessa vez. Estava seca e se sentia como tal. A sensação era a de ser uma ameixa seca, que foi perdendo tudo o que tinha por dentro ao longo do tempo.

Algum tempo se passou e ele não bateu na porta ou chamou seu nome. Ela poderia apostar sua vida que ele tinha ido embora sem se despedir dessa vez. Depois de se vestir, abriu a porta do banheiro e teria morrido se a aposta tivesse acontecido de verdade.

Ele estava sentado na cama, já vestido, olhando para a tela do celular. Quando ouviu o barulho da maçaneta, olhou-a e contemplou sua beleza por alguns segundos. Deus... Ele se arrependia de poucas coisas, mas se arrependia amargamente de não tê-la conhecido antes de se casar com a megera da sua esposa.

- Pensei que já tivesse ido. – Por falta de outra coisa que dizer, disse justamente o que pensava.

- Eu prometi que sempre me despediria, lembra? – Ele se levantou e foi até ela, as mãos dos lados do seu rosto, os lábios macios contra a sua boca. A despedida às vezes tinha o gosto doce. – Alguma vez eu deixei de cumprir alguma promessa?

Ela queria dizer que sim, mas ele estava certo. Nunca deixou de cumprir nenhuma promessa. E o que ele não podia fazer, não prometia.

- Não é esse o problema.

- Então qual é?

- Nada é só... – Ela se afastou e ele respirou fundo, sentindo tanto medo que a garganta ficou fechada por uns segundos. – Você precisa ir. Precisa voltar para a sua família. – Para ela. Precisa fingir que não vem me encontrar uma vez na semana, que não apaga as mensagens do celular todas as manhãs, que não muda a senha de todas as redes sociais uma vez por semana.

- O que foi? – Ele não queria perguntar, não queria saber, mas ela precisava dizer. E ele sabia disso, já a conhecia tempo o suficiente para entender quando as barreiras que ela colocava entre os dois estavam prestes a desmoronar.

- É TPM. Só isso. Você vai...

- Não é. – Ele se aproximou de novo e a abraçou. E continuou abraçando mesmo quando ela tentou empurrá-lo para longe.

As lágrimas não caíram. Talvez tenha secado de vez.

- Me diz. – Ele pediu, o rosto escondido nos cabelos bagunçados dela.

- Você não me promete o que eu quero que prometa.

De novo ele ficou rígido, como uma pedra de mármore, só que com um cheiro delicioso.

- Eu não posso. Você sabe que eu não posso. – Ele levantou seu rosto para olhar em seus olhos. – Eu te amo, eu juro. – Ele sempre jurava. – Mas eu não posso prometer isso. Você sabe que não.

- Eu sei.

Ela não sabia.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Você é infinito




Você não é o seu diploma.

Parece estranho dizer isso, mas, às vezes, é preciso. Você não é a faculdade que fez, nem a que não fez, você definitivamente não é a sua nota do tcc. Não é o emprego que tem, nem o que largou, muito menos o que não conseguiu. Você não se resume a cinco anos de faculdade, não é sobre ter um status, não tem nada a ver com o quão invejada sua profissão é. Você não é definido por todas as suas derrotas. Elas te ajudaram a ser quem você é, mas não definem isso.

Você não é a expectativa que colocam nas suas costas, muito menos o peso que insiste em colocar nos seus ombros. Seu valor não é medido pelo seu salário e isso conta principalmente se você for uma dessas pessoas que se acha superior por causa do saldo disponível em sua conta bancária. Você não é mais importante porque sabe mais ou porque passou num concurso público.

Você não é sua ascendência. Você não é o seu avô, muito menos faz as mesmas escolhas que seus pais. É estranho ter que te dizer isso, eu sei, mas muitas vezes querem que você seja. E você não é, nem é obrigado a superar quem veio antes de você, muito menos segui-los. Acredite em mim: você não tem que provar nada para ninguém. Você não é o seu nome, muito menos o seu sobrenome e a reputação que o precede.

Você não tem que seguir todos os conselhos que te dão. Você não tem que seguir ninguém. Nem sua intuição. Você não vai ser considerado burro por errar e nem tem a obrigação de sempre acertar. Você não precisa se levantar logo depois de cair. Você não é fraco por chorar e não é forte por segurar todas as lágrimas.

Você não é o que dizem de você. Não é o que sabem sobre você e não é o que não sabem. Você não é seus segredos, seus parentes, seus medos ou seus anseios. Você é uma combinação disso tudo e de mais infinitas coisas que acontecem ao seu redor. Você não é simples. É indefinível, infinito. Você é único.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

A dor é um evento




“A dor é um evento” 
– Hugh Laurie

E é mesmo.

Você se prepara para a sua chegada como quem aguarda a família no natal. Ela tem que vir, mas precisa ficar confortável e bem alimentada. Se vier abruptamente, é errada. Mas se vier aos poucos ela é até misericordiosa.

A dor pode ser quase como um bálsamo. Depois de tanto tempo sem saber o que sentir, ela se veste de anestésico, que coloca fim em algo pior: na incerteza.

Em outros momentos, ela é pior do que a morte. Você faria qualquer coisa para não senti-la, se entope de remédios buscando o nada. E passa dias dopada, fingindo não sentir o que sente.

Ela pode vir de surpresa, de uma vez, ela chega com os dois pés na porta e derruba até as paredes. Ela te atinge até nos ossos e escorre pelos olhos, se transforma em grito, suor. Qualquer coisa para se expandir, para ficar livre.

A dor vai e fica. Ela pode ser dividida com os outros, mas nunca é o suficiente. Ela mora dentro da gente e acaba se tornando parte do nosso ser. Mais do que um evento, ela é uma presença. E quando ela chega, se transforma em constante.


quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Você estava certa em pisar com cuidado em cima do gelo




O que acontece quando a raiva envolve seu estômago e quando o motivo dos seus sorrisos e das noites insones se transforma no motivo do ódio?  E o ódio também ganha um nome, sobrenome e CPF, não é?

Apesar de tudo, a gente engole a raiva, a mágoa, o rancor e a tristeza. Dói, dói pra caralho ser feita de idiota, mas você sabe: você aceitou o risco. O dolo foi eventual e, agora, um pouco de nó na garganta parece um preço baixo que você tem que pagar por ser burra.

E todas aquelas mentiras que você o deixou acreditar que você acreditava... Você detesta ser usada, mas tudo bem se ele achar que você acreditou, afinal, ele nunca vai saber que você um dia se importou.

Tudo bem, respira fundo e segue com a vida. Ela continua e, daqui uma semana, a raiva vai ter ido embora. E ela vai levar junto a dor porque no fundo você sabe que foi melhor assim, que você é areia demais para a sua carrocinha.

Está tudo bem. Você assumiu o risco desde o início. Agora você sabe o que ele é: só mais um cara que não parecia ser só mais um. É verdade o que dizem, afinal: as aparências enganam.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Mergulha de cabeça, mas, antes, sente o terreno





O que acontece quando as borboletas aparecem e quando a insônia tem um motivo e esse motivo tem nome, sobrenome e CPF? Como que a gente faz quando começa a rir feito idiota e quando começa a sentir que tudo vai dar certo?

A gente se xinga, é claro!

“Deixa de ser idiota, menina, é só mais um cara que pode não parecer “mais um”, mas, no fim, é isso o que eles são.”

Sem ofensa, eu juro que este não é um texto sobre como todos os homens são iguais nem nada do tipo (até porque eu não acredito nisso). É só sobre o meu ego inflado e sobre o meu orgulho infindável que não me deixam acreditar que minha felicidade depende do outro.

Ok, ele me faz bem, me faz rir, mas ele é humano e todos os humanos são imperfeitos e erram.

“Toma cuidado, menina, para não ignorar seus defeitos”.

Eu sei que é bom, que parece perfeito, que as nuvens até ficaram mais perto. Mas eu também não tenho certeza do que ele quer e nem sei se é recíproco (ainda). Não, esse não é um texto sobre se decepcionar, mas sim sobre aceitar que sempre existe essa possibilidade. É sobre manter os pés no chão mesmo quando a cabeça está nas nuvens.

“Ei, menina, ele é bom, bom demais. E você quer.”

Vai lá. Assume o risco, não tem problema se seu coração sentir que o dolo é eventual. Vai lá, pula de cabeça, mergulha fundo, cai dentro por inteiro. Mas, antes, sente o terreno.

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Penso em me lavar, mas não tenho tempo




Eu vejo a escuridão chegando e já me preparo para queimar. Não que eu tenha me acostumado, é impossível se acostumar com algumas coisas, mas eu já sei que ela virá, posso sentir.

O corpo suado em cima do meu ofega alto, quase como um cachorro cansado. Os sons de carne batendo me enojam, mas não causam efeito algum nele. Enquanto eu luto contra a ânsia, ele abraça o gozo que está prestes a chegar.

É uma vida desgraçada essa minha. Pulando de quarto em quarto, mudando de corpo em corpo, vagando pelas esquinas esperando por alguém disposto a pagar uma mixaria para me comer.

De vez em quando eu fico feliz, geralmente quando eu consigo sonhar com algo bom. O que tem se tornado cada vez mais raro, diga-se de passagem. Quando alguém não consegue dormir, tem que se contentar em sonhar acordado, mas até isso eles têm me tirado.

O desconhecido solta um grunhido e eu sei o que preciso fazer. E faço. Mesmo minha cabeça estando longe dali. Contorço-me e gemo como se não houvesse outro lugar onde eu quero estar. Mas há.

Aviso que o tempo acabou e ele finalmente sai de cima de mim, veste suas roupas, faz o pagamento. E, é claro, deixa a porta aberta.  Penso em me lavar, mas não tenho tempo.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Ela não é só um rostinho bonito




Ela não é só um rostinho bonito. Ela é linda, maravilhosa, mas ela não é só isso.

Ela consegue correr 5 km por dia sem se cansar. Ela pode derrubar qualquer macho na mão. Ela é linda, ela luta pra caralho, mas ela não é só isso.

Ela gosta de história e lê mais de 70 livros por ano. Ela sabe tocar violão, sabe cantar desafinado e, às vezes, é até afinada. Ela conta coisas absurdas de um jeito que a gente até acha que é sério. Ela tem crises de risos contagiantes e fica horas falando sobre os filmes da Marvel. E da DC. E sobre as séries, sobre os bastidores, sobre tudo. Ela é estonteante. Mas ela é mais.

Fica horas na frente do computador escrevendo um romance. Ou um artigo científico. Ela quer ser escritora, mas também quer ser delegada. Ela queria ser rica, mas agora só quer ser feliz. Ela consegue virar as noites lendo e passar os dias dormindo. Ela é geminiana e por isso se acha confusa. Ou talvez seja confusa porque é geminiana. E ela nem acredita em signos. Não muito.

Ela é indecisa às vezes, mas só às vezes. Na maior parte do tempo ela é bem resolvida, determinada e falante. Ela consegue transmitir tanta coisa com seus silêncios que até o mais preparado dos seres treme na base quando ela usa aquele olhar frio. Ela é grossa, mas sabe ser delicada. Ela adora filmes idiotas, mas disserta sobre segunda guerra mundial e direitos humanos com um pé nas costas, enquanto pratica yoga. Ela entende de política, de animais, de arte e de futebol.

Ela gosta de adrenalina, ela curte a violência da luta e adora os momentos de calmaria. Ela se curte, prefere ficar sozinha, é melhor conversar consigo mesma do que com gente rasa.

E quando ela sorri... Ah! Até deus sorri junto. Ela é linda. Maravilhosa. Estonteante. Mas ela não é só isso.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Amadurecer




Amadurecer não é não se importar. É se importar e saber que nem sempre será recíproco. E tudo bem. É entender que você não pode exigir do outro algo só por ser o que você faria.

Amadurecer não é não surtar. É saber que você vai surtar. E é surtar sabendo que logo vai passar e que você ainda vai estar viva no fim do dia. É não estar pronta para todos os desafios, mas vestir a roupa da coragem quando tiver que enfrentá-los.

Amadurecer não é não sentir. É conseguir pensar enquanto sente. É respirar fundo e, se precisar, é chorar também. E é aceitar as lágrimas quando elas vêm.

Amadurecer não tem nada a ver com ter dinheiro e ser independente. É saber que o dinheiro não te faz melhor do que ninguém. Talvez, seja saber que mesmo tendo dinheiro você vai escolher dar o bolo nos amigos para dormir.

Amadurecer não é crescer, não é envelhecer. Amadurecer é sobre evolução, sobre o que você aprendeu nos últimos anos, é aceitar o seu passado e entender que precisa melhorar muito no futuro.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Tem um mosquito morando em mim




Tem um mosquito morando no meu quarto. E ele me acompanha pelo resto da casa, vai comigo até o trabalho e já faz parte da minha vida. O tempo inteiro eu escuto seu zumbido no meu ouvido, tanto que já até me acostumei.

Às vezes, eu chego a pensar que ele mora dentro da minha cabeça porque, por mais que eu tente, eu não consigo me livrar da sua voz. O problema maior é que ele já aprendeu o caminho para o meu cérebro e de lá, desceu até parar no coração e preencheu meus pulmões, esôfago, artérias, veias, nervos. Ele toma conta dos meus tecidos e meus órgãos só funcionam porque ele manda.

Tem um mosquito morando em mim e ele é tão insuportável que já até fez meu organismo se acostumar com a sua presença. Ele se transformou em parte de mim, deixou de ser um intruso. Agora, ele é o dono de tudo aqui dentro. E a culpa? Bom, eu não sei de quem é. Acho que parte é dele, que entrou sem pedir licença e já foi abrindo espaço, sem permissão. A outra parte, é claro, é minha.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

As melhores histórias são quase invisíveis




As melhores histórias não possuem finais felizes. Mas não necessariamente são trágicas. Elas não contam as aventuras de uma princesa e o dragão muitas vezes é a própria vida (ou o próprio príncipe). As melhores histórias não são contadas pelas fadas às crianças na hora de dormir. Elas nos assombram, noite e dia; nos incomodam o tempo inteiro e, mesmo assim, elas são admiradas como se fossem fotografias antigas. Elas no tiram o sono. As melhores histórias nos prendem do início ao fim e nos deixam órfãos quando terminam. Se é que terminam. Elas caminham ao nosso lado e se perdem no meio da multidão, elas não estão presas num livro de ficção, elas possuem um rosto, um nome e quase ninguém as conhece. Elas são segredos que quase ninguém quer ouvir, mas, quando se tornam conhecidas, arrepiam até os ossos. Elas são anônimas, invisíveis e na maioria das vezes passam despercebidas. Mas elas existem e estão à espera de alguém disposto a conhece-las.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Se



Se cada pulsar do meu coração fosse uma declaração, eu já estaria toda tatuada, minha pele marcada para sempre com frases de amor. Se cada um dos meus nervos pudesse falar, eles seriam milhares de vozes juntas, em coro, tentando te alcançar. Cada parte de mim, todos os pelos arrepiados, as duas pupilas dilatadas, os meus dedos meio tortos de tanto estralar... Cada pedacinho do meu ser poderia pertencer a você; cada camada de pele eu te deixaria desfazer.

Se cada gota de suor tivesse um nome, meu corpo inteiro estaria ensopado de você. Se ao menos eu me soltasse, se eu me jogasse e tivesse a confiança de que você iria me segurar... Se eu uma vez ao menos ousasse mergulhar...

Mas eu não vou.

Porque, se você me tivesse por completo, eu não sei se eu conseguiria me manter.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Eu sinto falta




Eu sinto falta das tardes monótonas, das madrugadas insones e das manhãs preguiçosas. Sinto falta de escrever cinco textos por dia e de ler crônicas. Sinto falta de fazer chamadas silenciosas até às 3 da manhã. Sinto falta da risada leve, das idiotices bêbadas de sono, da amizade repleta de altos e baixos. Eu sinto falta da bagunça, das confusões, dos assuntos aleatórios e dos jogos que acabavam em briga. Tinha drama e intriga dignos de novela mexicana e a gente era feliz assim, vivendo uma situação simples, mas que nos parecia muito complicada.

Mas nós mudamos. Seguindo o ritmo natural das coisas, nós crescemos e, teoricamente, evoluímos. Tudo o que vivemos juntos ficou no passado e nas lembranças doces que gostamos de visitar de vez em quando. De vez em quando, ainda nos falamos, mas a distância entre nós tomou seu espaço e não pretende ir embora, apesar de todos os esforços que fizemos para evita-la. Nós crescemos. Talvez, evoluímos. E nos afastamos.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

#eu



Eu nunca fui muito de rezar. Nem quando eu era criança e todo mundo dizia que a última coisa que fazíamos antes de dormir era rezar para agradecer à Deus e pedir que todas as pessoas que amamos fiquem bem. Quando você estuda num colégio onde a religião é imposta mesmo aos que não estão ali por ela, a tendência é se rebelar.

Eu nunca me rebelei, não como as outras crianças. Ao contrário: eu tentei não comer carne de porco, aprendi todos os hinos e parei de beber coca-cola (até hoje eu não entendo por que a escola proibia coca). Mas eu nunca consegui adquirir o hábito de orar/rezar todas as noites.

Mas ontem eu rezei. E passei horas me lembrando de todas as pessoas que eu gosto e de todas as pessoas que essas pessoas gostam. Eu pedi para Deus abençoar cada uma delas e não foi porque alguém mandou ou porque eu tentei me adequar às regras de alguma religião.

Foi porque eu quis. E não passei o dia pensando nisso, eu simplesmente me deitei na cama e fiquei com vontade de pedir, de agradecer, de me lembrar de todas as coisas, boas e ruins, que já aconteceram comigo.

Talvez eu devesse rezar todos os dias. Talvez alguém que leia esse texto acredite que eu não tenho fé ou que não tenho o direito de pedir algo à Deus. Mas eu não me importo. E, eu acho, que Ele também não se importa muito com a minha frequência de orações, mas com o quão sinceras elas são.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Anônima, de realengo (As almas - 3)



O massacre de Realengo aconteceu na manhã do dia sete de abril de 2011, quando um homem de vinte e três anos entrou numa escola, na capital do Rio de Janeiro, e executou doze adolescentes entre treze e dezesseis anos. Dez, das doze vítimas, eram meninas. Relatos afirmam que o assassino colocava a arma na cabeça delas e se referia as adolescentes como sendo seres impuros. Na tentativa de ser impedido de matar mais pessoas, o assassino foi baleado na perna e no tórax e, ao cair no chão, atirou na própria cabeça.

O relato a seguir é de uma das almas que habitam a Escola Municipal Tasso da Silveira no bairro Realengo, na cidade do Rio de Janeiro, e vaga pelos corredores da instituição acadêmica em busca de vingança. Ou justiça.

Eles passam pelos corredores o tempo inteiro, mas ninguém nos vê. Ninguém mais se importa. Eles passam o tempo inteiro, mas ninguém mais se lembra do ocorrido além de nós mesmos. Alguns ainda comentam, mas, com o tempo, tenho certeza de que tudo vai passar e nossa morte será só mais uma lembrança trágica na mente dos ex-alunos desse lugar. Nossos familiares também vão passar a se lembrar cada vez com menos frequência ou saudade.

O homem apontou a arma para a minha cabeça e disse coisas como “Deus”, “pureza” e “religião”. Pelo que entendi, ele fazia aquilo buscando um fim santo, talvez fosse por um lugar no céu onde moram mil virgens feitas especialmente para servi-lo... Como nas cruzadas e como os kamikazes que a professora de história explicou certa vez.

Mas qual a ligação daquilo tudo comigo? Por que eu? Por que logo na minha sala? Dentre tantas outras, a escolhida para ter uma existência desgraçada fui eu. Falta de sorte ou acaso? Se tudo acontece por um motivo, por que eu ainda estou aqui?

Gritos ainda preenchem todas as salas, mas os gritos mais altos foram os meus, naquele dia em que eu o vi pela primeira vez. Seu rosto era moreno e seus olhos estavam repletos de sofrimento, como se ele sentisse muito pelo que fazia. Como se eu acreditasse no seu pedido de desculpas...

Alguns dizem que ele vagou um tempo por essas paredes e então foi para algum outro lugar, o inferno, talvez, já que se matou. Eu não sei se acredito. Estamos presos onde morremos. E ele?

Aqui moram outros onze fantasmas. Ou espíritos. Ainda não sabemos como nos chamar. Não concordamos em muitas coisas, mas a revolta por ter a vida rompida tão cedo é o sentimento que nos une. Não somos amigos, nem em vida fomos, mas nos reunimos para buscar algum tipo de diversão. Seja assustando os alunos no banheiro ou procurando pelo filho da puta que nos matou sem motivo. Cada um se vira com aquilo que tem, não?

E eu continuo vasculhando cada canto deste edifício. Continuo buscando pegadas inexistentes e ouvindo ecos de outra dimensão. Ainda quero todos os órgãos dele na minha mão.

Presa neste corpo de treze, catorze ou quinze anos, usando o mesmo uniforme de um, ou três ou cinco anos atrás e andando pelos mesmos corredores que dezenas, centenas, milhares de alunos também andaram e andam diariamente. Descanso e paz não são coisas que eu conheço. Mas a vingança tem um gosto que eu quero sentir.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Anônimo, do Carandiru (As almas - 2)




O massacre do Carandiru ocorreu no ano de 1992 e durou cerca de vinte minutos. Cento e onze presos do pavilhão nº 9 morreram, grande parte por ferimentos de bala. Dados históricos informam que nenhum dos policiais feridos foi baleado. Há quem diga que os presos haviam jogado todas as armas brancas pelas janelas quando a Polícia Militar chegou. Talvez, o ponto que gera mais revolta para os familiares seja o de que a grande maioria dos mortos ainda aguardava o julgamento.

O relato a seguir é de uma das almas que habitam as ruínas do que antes foi a Casa de Detenção de São Paulo e vaga pelos corredores do pavilhão 9 em busca de vingança. Ou justiça.

Chamam isto de casa de detenção. Chamam isto de instrumento de correção de indivíduos infratores. Chamam isto de justiça.

Meus passos não mais ecoam pelas paredes desbotadas e minha voz não é mais ouvida através das grades que dividem as celas no mundo material. Tudo o que eu escuto, cheiro ou sinto são reflexos das minhas torpes e embaçadas lembranças. Na verdade, nem as grades me prendem mais. Minha cela é o prédio inteiro, de onde eu não posso mais fugir. Meu inferno particular se transformou na minha lápide pelo resto da eternidade.

Chamam isto de “outro mundo”. Chamam de além. Chamam isto de vida após a morte. Alguns chamam de justiça.

Os gritos de todas as almas que aqui padeceram enchem meus ouvidos e se confundem com a minha própria sofrida agonia. Eu olhei em seus olhos; eu olhei diretamente em seus olhos e pedi por misericórdia, implorei por um segundo sequer de hesitação, de compaixão. Eu olhei para o cano da metralhadora e ganhei dez balas cravadas em meu corpo, a maior parte na cabeça.

As paredes rachadas, o piso marcado por pegadas de sangue seco, o cheiro fétido, velho e pútrido que habita cada cela só não se grudou em mim porque não tenho mais cheiro ou corpo. Ou qualquer outra coisa além da minha dor, que é a única coisa capaz de alimentar meu desejo de vingança. E dor é a única coisa que existe por aqui.

Alguns chamam de justiça. Eu chamo de solidão, de inferno.

Cada um de nós se perdeu nos cacos das próprias mentes, cada um de nós procura resquícios das próprias lembranças em cada uma das celas, cada um de nós busca coisas que temos a certeza de que nunca encontraremos. Fomos presos, condenados a ficar dentro dessas paredes por alguns anos, e então fomos encarcerados pelo resto da eternidade.

Meu corpo não mais se encontra na minha antiga cela, mas ainda posso vê-lo. Nu, com dez buracos de bala em seu rosto e torso, sendo arrastado pelos outros que tiveram menos sorte que eu e sobreviveram ao inferno. A cena final se repete na frente dos meus olhos o tempo inteiro. E ninguém pode desligar o replay.

Preso nesse corpo de vinte ou quarenta anos, usando os mesmos trapos rasgados de dez, quinze ou vinte anos atrás e andando pelos mesmos corredores que dezenas, centenas de presos também andaram e andam diariamente. Descanso não é algo que eu conheça. Mas a vingança tem um gosto que eu quero sentir.