crônicas da faculdade

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terça-feira, 30 de janeiro de 2018

A última crônica


Estou escrevendo este texto no último dia de aula do décimo período. São 8 da manhã e eu, que detesto acordar cedo, estou a caminho da penúltima prova da faculdade (espero). A partir de amanhã não serei oficialmente formada, mas só vai faltar a colação de grau para que isso aconteça. Sem OAB, sem TCC, sem aulas... sem crônicas da faculdade.
No ensino médio as pessoas me disseram que o pior ainda viria. Que a faculdade era o inferno. E realmente é, mas o inferno fica confortável depois de um tempo e a partir do terceiro período eu já estava acostumada.

Agora, a coisa muda. Agora não tem estágio que faça jus ao status de graduada. Não tem prova que possa ser repetida, nem trabalho que possa ser corrigido com carinho. E se eu achei que o TCC era o chefão, não faço ideia do que virá na próxima fase.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Alguns fatos sobre a prova da OAB



Não é difícil, você que fica com medo de não ter aprendido nada em 5 anos (alguns não aprendem mesmo, mas ok, sem julgamentos).
Você não precisa de cursinho, mas vai pagar mesmo assim porque... vai que... né?!
Você vai sair da sala com a certeza de que não passou e vai brigar consigo mesmo umas vinte vezes para não conferir o gabarito no mesmo dia.
E você vai conferir o gabarito no mesmo dia.
Se você não passar, vai querer sumir do mundo e sumir com quem perguntar se você passou. Porque na primeira fase TODO MUNDO passa.
Mas sua mãe sempre disse que você não é todo mundo e o medo é... inevitável.
E aí você vai ter que estudar mais de dez peças diferentes. E só vai estudar umas três. Porque não tem tempo e nem ânimo.
Entra na sala rezando para cair uma das peças que você estudou.
Se cair, você vai ser a pessoa mais feliz do mundo.
Se não cair, lágrimas cairão.
E se você errar a peça todos vão te olhar com pena e vão te incentivar e dizer que na próxima você passará.
É que se errar a peça, você tira zero nela. E você não consegue passar se tirar zero na etapa da peça prático-profissional.
Sem pressão.
São só cinco anos de faculdade, mais de 60 mil reais de faculdade, deus sabe quanto foi que você gastou de passagem de ônibus e 260 reais de inscrição.
É isso aí. Sem pressão. Você tem a obrigação de passar na prova da OAB.
Mas, se não passar, tudo bem.

Não era sua obrigação.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

As mentiras que te contaram sobre a faculdade



Eles disseram que era divertido, que você teria muitos amigos e que as pessoas eram maduras.
Porra nenhuma.
Sabe como é?
Uma bosta.
Você não vai para o bar todo dia porque não tem dinheiro e muito menos frequenta festas toda sexta-feira. Os professores dão sermão do mesmo jeito e seus colegas não são seres amadurecidos e superiores que resolvem todos os conflitos de forma educada e paciente.
Filhote, você não faz ideia de como a mente humana é capaz de ter a idade de uma criança do maternal.
Os trabalhos realmente dão trabalho até que você aprende alguma forma de evitar o trabalho. Alguns escolhem o jeito mais rápido: plágio. Outros aprendem algo sobre troca de favores e tem os que preferem fazer os trabalhos sozinhos para evitar dor de cabeça.
O que não acontece sempre.
Logo no início eles te mandam ler uma porrada de livros que não te interessa e que não vai dar para entender nem metade do que está escrito ali. Metade da faculdade é composta de aulas de história e da habilidade de deixar tudo para a última hora.
A outra metade você resume em luta por nota. E na maior parte do tempo você vence, mas... É. Nem sempre.
Eles também disseram que o difícil era entrar. Que, depois do vestibular, tudo era mais fácil porque você escolheu e estudar o que você escolheu é melhor. Quem diabos entra na faculdade de direito porque escolheu estudar economia eu não sei, mas... Eles disseram. Mais uma mentira.
No final, todos estão exaustos demais, mas sempre sobra ânimo para comemorar a formatura. Ah, mais uma coisa: metade das pessoas que vão à formatura não vão se formar. Dos que vão efetivamente se formar, grande parte não vai participar da festa por diversos motivos. E a maioria também vai se arrepender de ter participado.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

As verdades que te contaram sobre a faculdade



É igual à escola. Com direito à panelinhas, fofocas e intrigas. A diferença é que você pode beber (e bebe, mas só no início e no final) enquanto antes você não podia e bebia mesmo assim.
Alguns professores estão mesmo pouco se lixando para o mundo que não gira ao redor do umbigo deles e os trabalhos são mesmo fruto de psicografia.
Orientador não serve para nada. E é bem mais fácil entrar do que continuar ali.
Seu dinheiro vai parar no xerox e sua alimentação se baseia em salgados cheios de gordura e cerveja.
Você não se sente “O TAL” fazendo estágio e não consegue nem ir no cinema de tão cansado. Também não vai conseguir mudar o mundo sendo apenas um universitário.
Roupa passada? Sapato engraxado? Perfume caro? Ilusão. A única coisa indispensável é café forte o dia inteiro porque se você não beber pelo menos um litro, não para em pé.
E os calouros deixam de ser legais quando você deixa de ser calouro. Na verdade, eles são um saco com aqueles rostos limpos e descansados que exalam felicidade.
O final é a melhor parte justamente por ser o final. Mas também é o período de maior desespero e a nostalgia começa a tomar conta dos assuntos de todo dia.
Eles estavam certos: é o inferno. Mas é o melhor inferno que você vai viver na sua vida.

E por mais que pareça que você aproveitou muito os cinco anos da sua vida universitária, nunca foi (e nem será) o suficiente.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Alguns fatos sobre o TCC




Como eu disse num texto desses, orientador não serve para nada. E você vai arrancar os cabelos porque não consegue escolher um. Depois, terá uma gastrite nervosa por não conseguir nenhum. E olha que você chega na etapa de desistir de escolher e aceita o primeiro que encontrar nos corredores.
A apresentação não dura nem vinte minutos, mas você vai suar o suficiente para dez anos antes de entrar na sala. O desespero que vai durar uns dois meses e as lágrimas que rolarão à vontade. Por sua conta mesmo.
Você, provavelmente, não vai ler nem metade dos livros que estarão na bibliografia do seu trabalho e a pior parte vai ser formatar nas normas da ABNT. Mas isso você só descobrirá depois.
Porque escrever é complicado, ler é cansativo, conversar com o orientador é constrangedor quando você não sabe nem onde está e fazer isso tudo enquanto estuda para as outras matérias é impossível.
Quanto mais perto está o grande dia de apresentar o trabalho e ficar livre disso para sempre, mais nervoso você fica. E a cada dia que passa parece um dia mais perto da sua crucificação. Milhares de resumos, centenas de páginas rabiscadas, dezenas de gravações para tentar explicar o maior número de tópicos no menor intervalo de tempo. Você só tem dez minutos. Mas dez minutos não é suficiente nem para o histórico.
Mas não se preocupe. Depois de um ano inteiro estudando, nada pode dar errado na hora “H”. Mesmo que sua voz saia esganiçada, que todos os ossos do seu corpo comecem a tremer, que sua apresentação fique igual àqueles teatro do jardim de infância, que os examinadores te olhem como se você fosse o cocô da pulga do cavalo do bandido e que você tenha esquecido a parte mais importante do trabalho...
Tudo vai dar certo.

domingo, 29 de outubro de 2017

A busca pelo orientador



Tese de conclusão de curso. Ou, para os graduandos, inferno. Eu procurei uma sigla igualmente desesperadora com a iniciais TCC, mas não encontrei nada ainda, então, fiquemos com inferno.
Primeiro passo: um tema.
Você precisa se decidir por um tema. Não, seus professores não podem te ajudar porque, segundo eles, “é uma decisão pessoal”. E a faculdade não indica ninguém para te ajudar a escolher um tema. O tal do “acompanhamento psicológico” no Núcleo de Apoio Psicopedagógico é só para o desespero mesmo.
Aliás, por falar em desespero, você acha que já sentiu de tudo até então. Já sentiu dor, angústia, medo, pavor, ódio (de professores, principalmente), já sentiu até mesmo o êxtase de passar numa disciplina quase impossível.
Mas não. Você não sentiu de tudo. Nada do que você já viveu na vida te preparou para o TCC.
Primeiro problema: você fez quase cinco anos de faculdade, teve aulas com aproximadamente 40 professores sobre, no mínimo, 15 áreas do direito diferentes e precisa escolher um tema dentre todos eles que seja um “problema” a ser resolvido e que você goste.
Quem diabos gosta de problema? Ninguém! Depois do TCC, então, muito menos.
Porém, você, meu querido amigo, é uma pessoa que quer acabar logo com a faculdade e o TCC é um dos últimos passos. Você escolhe um tema. Se for imbecil o suficiente, como eu, escolhe um tema que não tenha ligação nenhuma com a grade curricular da faculdade: direito cibernético.
Definido o tema, que, por sinal, foi quase um parto, você precisa de um professor orientador. Sim, é obrigatório e sim, ele precisa assinar um monte de papéis que vão ser jogados no lixo na primeira oportunidade que surgir.
Eis que surge o passo 2: orientador.
Você pergunta primeiro aos seus professores favoritos. E olha que são muitos até, para quem achou que sairia da faculdade odiando o mundo inteiro, vemos aqui um avanço.
Mas você, caro ser iludido, não pode fazer o TCC ao lado do seu amado professor favorito do mundo. Ou porque ele não tem mais vagas para orientandos, ou porque não quer, ou porque não pode te ajudar em nada.
Lembra do tema? Pois é. Não tem nem na grade e nem na cabeça dos professores, por sinal. E olha que você foi até o professor que jurou nunca mais olhar na cara.
Mudança de planos. Vamos para direito constitucional, afinal, metade dos professores da faculdade gostam de direito constitucional.
Você sabe qual será o foco do seu trabalho?
CLARO QUE NÃO!
Mas dane-se! Você só precisa achar um orientador mesmo.
E a escolhida é a professora que todos acham nojenta! Por que? No início, o motivo era “eu-adoro-a-professora-e-ela-sabe-muito-do-assunto”.
É claro que o motivo real acabou sendo: porque-eu-sou-burra.
Primeiro encontro: Maravilhoso. Você saiu confiante e animada depois que ela te passou uma lista de cinco livros de oitocentas páginas cada um. Ela sugeriu vários temas legais e a única coisa que você tem que escolher é o seu preferido. Simples.
(Por enquanto, deixemos a parte de ter que ler cinco livros de 800 páginas em uma semana de lado.)
Pois bem. Você escolheu o orientador, escolheu o tema e já tem a bibliografia básica. Só falta enviar um e-mail para a orientadora e esperar uma lista de sugestões que vão deixar seu trabalho impecável.
E passa o fim de semana.
Passa a outra semana.
Duas semanas depois e... nada.
Ela não responde, parece que sumiu do mapa.
Mas ela não faria isso. Algo pode ter acontecido. Esperar mais um pouco é melhor.
E mais uma semana se passa.
Seus amigos te perguntam sobre o TCC e sua vontade é morrer.
Resolve mandar um e-mail para a professora perguntando se ela viu seu último e-mail.
Mais uma semana em silencio. A essa altura você não dorme mais e já sente vontade de vomitar. E olha que é só o projeto.
No terceiro e-mail você recebe a seguinte resposta:
Não posso te ajudar com o tema. Boa sorte. Bj.”
JURA QUE ELA DEMOROU UM MÊS INTEIRO PARA ELABORAR ESSAS TRÊS FRASES?!
E você nunca pensou que a parte mais difícil do TCC era escolher um orientador.
Foda-se. É mais fácil escrever o trabalho e depois pedir para qualquer professor assinar e pronto.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Crônicas da faculdade - O primeiro dia do último ano



Tem algo de diferente no ar. Um cheiro novo, uma aura mais leve, mesmo se for levado em conta que este é o ano em que a prova da OAB e o TCC cairão em cima de 90% das cabeças que estão na sala de aula.
Mesmo assim.
As conversas parecem mais despreocupadas, as vozes estão descansadas, claras, e não é só por causa do efeito das férias. Até mesmo os calouros irritantes não estão tão irritantes. Só um pouco.
É o último ano. O penúltimo semestre. O penúltimo primeiro dia de aula da faculdade de direito.
- É o último ano, gente!
Por um instante a moça que falou isso foi a minha pessoa favorita do mundo inteiro. Um sorriso aparece e alguma coisa morna sobe pelo corpo. É o último ano. Só mais um aninho e a tortura acaba.
Ah, inocente! Daqui dois meses tudo o que você vai querer é explodir o campus e tudo o que estiver num raio de mil quilômetros por causa de uma coisa que chamam de Trabalho de Conclusão de Curso, mas isso é assunto para outra hora.
Entretanto, por enquanto, no primeiro dia, tudo parece mais feliz. Você chegou até aqui, parabéns, nada pode dar errado. Agora esse negócio acaba e todo o suor, lágrimas e sofrimento terá valido à pena.
Lá fora, o céu azul e o sol forte sorriem. Sete horas da manhã ou sete da noite, não importa, é horário de verão e o dia parece compartilhar sua alegria.
Afinal, é o primeiro dia do último ano.

sábado, 14 de março de 2015

Ninguém avisou que tinha que ler em grego


Calma... Respira. Não precisa bater a cabeça na mesa. É só um livro e ele não vai te engolir. Vai acabar com o seu cérebro, na verdade, mas vamos deixar isso para o fim do curso. Leia novamente o parágrafo, a página, o capítulo... Você tem que entender o que esse monte de palavra estranha quer dizer.

Calma. Respira fundo, segura na mão de Deus e vai. A mesma entidade que te ajudou a ler José de Alencar deve te ajudar em Kelsen. Confie no poder da leitura divina. Ainda tem Maquiavel e companhia... Mas relaxe. Uma tortura de cada vez.

Só que não dá certo e Kelsen ainda é uma incógnita em forma de palavras desconhecidas e frases complicadas. É só um livro. Mas é só um livro que você não consegue ler! Talvez seja melhor pular para algum livro mais fácil. Eles não teriam indicado Pedro Bandeira?

Não. Ronald Dworkin, então. Quem sabe dá certo? Ele pode até servir como uma preparação para o Kelsen. Mãos à obra.

...

Quem foi que saiu do terceiro ano do ensino médio achando que sabia ler mesmo? Pois é. Também não sei. Você acabou de descobrir que é um analfabeto que escolheu um curso que é dado em grego. Com alguns toques de latim e, se bobear, hebraico e mandarim.

Depois de Machado de Assis, José de Alencar e companhia, eis que surge um escritor mais maluco. As palavras são em português (a maior parte, pelo menos), mas o sentido que elas fazem não faz sentido algum.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Só mais uma coisa não explicada


Um dia sem aula. E na sexta-feira! Poderia ter algo melhor para um estudante do primeiro período? Com a sexta livre, você teria tempo de sobra para as festas, cinema, bar e deus sabe-se lá mais o quê calouros gostam de fazer em seu tempo livre.

O problema é que nada é perfeito. E a merda começa quando você vê uma matéria a menos no quadro de horários. Mas... Como assim? Então você pega o comprovante de matrícula pela décima oitava vez e confere se tem mesmo sete disciplinas. E tem. Por que diabos pensou que seria diferente? Na ânsia pela faculdade, você leu aquele maldito papel umas quinhentas vezes por semana e decorou cada linha. Certa de que sabe contar, afinal, passou os últimos catorze anos da sua vida aprendendo a sequência numérica do um ao nove, conclui que o erro é da instituição. Incompetentes!

Então lá vai você até a secretaria/central-do-aluno/inferno. É claro que, no primeiro período, a coisa mais surreal e inebriante que existe é pegar uma senha, sentar numa das cadeiras acolchoadas e esperar uma vida inteira para ser atendido. Nos períodos seguintes você percebe que era idiota e não sabia, mas ali, naquele momento, você é a pessoa mais feliz e a aluna mais aplicada do mundo simplesmente por fazer papel de idiota. Na verdade, ao longo do curso inteiro, a única coisa que você faz direito é papel de idiota. Mas isso não vem ao caso agora.

- Boa noite.

- Boa noite. - Um sorriso completamente retardado acompanha o rosto de um retardado, certo? E adivinha quem é o retardado. Sim. Você. Parabéns pelo auto conhecimento. E, um conselho de quem já foi (talvez ainda seja) uma retardada: aceita que dói menos.

- Em que posso ajudar?

- Ah sim! É que... - Abre a bolsa/mochila/coisa-que-guarda-coisas-inúteis, tira um mundo de papéis, comprovantes, quadro de horários, planos de aula, calendários e tudo mais. - Aqui diz que eu tenho sete disciplinas. - O "aqui" tem que ser o maior contrato de matrícula do mundo e a atendente, pacientemente ou não, espera que você encontre em que página está o negócio. - E aqui... - Mais uma pausa. Onde enfiou o maldito quadro de horários? Não acredita que colocou de novo na bolsa! Um sorriso amarelo, o barulho do zíper se abrindo (novamente), mais papéis remexidos e... Voilá! - Só tem aulas para seis das matérias.

A atendente permanece calada. Você também. Ela te olha e você acha aquele momento, no mínimo, estranho.

- Você quer mudar alguma matéria? - Ela, finalmente, fala algo. E você, infelizmente, acha que ela enlouqueceu. Ou que é incompetente por não entender sua dúvida idiota.

- Mudar? Não! É que falta uma matéria. Aí eu queria saber se o horário está errado ou se cancelaram a disciplina ou...

- Ah! Não, meu amor. Não é nada disso. - A mulher ri e você tenta acompanhar, mas não entende a piada. - É que a matéria que “falta”, metodologia científica, é virtual.

- Ah... - Você não engana ninguém com essa expressão completamente perdida. Muito menos a atendente.

- O material é postado no portal e você vem à faculdade apenas para fazer as provas.

- Aah... Sim. - Começa a se levantar, mas outras dúvidas surgem. - E onde são essas provas?

- Na sua sala. No horário da aula que é vaga.

- E quando são?

- Tudo está no portal, no plano de ensino que seu professor postou. Boa noite. - Bela dispensa você levou, ãhn?

- Sim... Obrigada.

- Por nada.

“Por nada mesmo”, você, muito provavelmente, pensou.

Vamos, criatura, admita que você entendeu nada do que foi “explicado” e que só saiu daquele lugar para evitar mais constrangimento. Como entrar no portal é a incógnita do ano e você nem fez questão de perguntar. O jeito é enfrentar o problema quando ele chegar, erguer a cabeça e andar, afinal, a pose de "dona do pedaço" deve continuar. Você não entende nada de nada, mas vai continuar fingindo entender porque... Bem, porque sim.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Crônicas da faculdade - Mestres... Excêntricos (?)


Todo e qualquer aluno já teve um professor estranho. É claro que as “excentricidades” pioram à medida que você cresce e tem uma percepção mais - ou menos - objetiva. Verdade é que uma criança de cinco anos não perceberia a exibição porca que um professor faz do seu Iphone de última geração. Ou perceberia e acharia a coisa mais legal do mundo... Não sei.

"Vamos falar de paradigma!" Mais especificamente, o paradigma do iphone. Paradigma esse que habita as aulas chatas por algumas semanas. Até que a matéria muda e ele levanta o objeto preto brilhante para que toda a sala veja com clareza. "Vamos falar de Organização estatal". Sim, meus caros, o iphone é o Estado soberano da coisa. Quem são os entes a ele subordinados? Galaxy's? "Hoje o assunto é o Estado social de direito"... Dá-lhe iphone reluzente na cara. Ele deve achar que aquele brilho todo ofusca os pobres olhares dos pobres estudantes. Paciência...

Possível encontrar também um professor que nunca compra as calças no tamanho certo. Seja jeans, preta, azul ou roxa, ela sempre cai. Mesmo com o cinto. Então lá se vai o baixinho loiro andar pela sala segurando a maldita da calça. Dois passos, uma puxada. Quando os passos excedem e sua memória ignora o fato de que a calça simplesmente cai, um puxão mais profundo faz-se necessário e o ser sem senso de tamanho fica comicamente atrapalhado entre careta, risadas e sinto desajustado. Talvez, se vendesse o iphone, teria dinheiro para comprar calças novas... Vai saber...

"Você deveria ter aprendido isso no ensino médio! Você não entende matéria do ensino médio?!" Os gritos fizeram meus olhos se arregalarem e minha língua, geralmente rápida para respostas secas e irônicas, congelar. Como assim aquela mulher que mais parecia um sapo enrrugado - ou o mestre dos magos - estava berrando coisas sobre ensino médio e eu não ter competência para aprender?! A merda começou quando colocaram a maldita da economia na carga horária. E eu sabia disso. Minha vontade foi dizer:

- Minha filha, tem um motivo por eu estar nesse curso. Se eu proseasse com a matemática, seria engenheira e não advogada. E desculpe se eu sou tão burra que não fui capaz de passar na federal exatamente pela matemática. Aliás, por que é que você, ser de inteligência tão superior, não trabalha lá mesmo?

Mas eu, congelada como estava por causa da gosma e dos sons profanos que saíam da boca daquele ser, não disse nada e me contentei em falar mal da maldita professora de economia geral na rádio corredor mesmo. Havia um motivo para eu nunca ter gostado de sapos. Só fui entender isso aos dezessete anos de idade, mas ok.

"Sua blusa combina com os seus olhos", que, por sinal, estão assustados. As mãos bem feitas ainda seguram as minhas enquanto o que eu mais quero na vida é sair daquela sala e berrar “FÉRIAS!” por uma semana seguida. O que não é possível agora, já que o professor/maior-protagonista-da-rádio-corredor não me deixa sair. Nunca confie em homens que fazem as unhas. "São verdes, não?" Por acaso ele é daltônico? Azuis que não são. E burro também. Não sou do tipo que quer o corpo dele nu. E nem vestido, por sinal. Com algum sorriso sem graça e um “tenho que ir”, finalmente, consigo me livrar do esquisito e saio da sala. Deus... É tão difícil assim ter professores normais? Então olho para baixo e prometo parar de usar blusas decotadas. Ou verdes. Que seja...

Ela era descabelada e um amor de pessoa. Atenciosa, cordial, sorridente. E casada, provavelmente. No mínimo, comprometida. No semestre seguinte, o cabelo se ajeitou, o casamento provavelmente acabou - ou o marido broxou - e um demônio a mulher virou. Implicou até com uma mosca que passeava pela sala e com a aluna quando esta, por sinal, havia parado de falar. O que aconteceu nos dois meses de férias entre um semestre e outro? Acho que ninguém teve coragem de perguntar...

Eu olho para o lado e o garoto está se sentido mais desconfortável que peixe fora d'água. Oh God, é exatamente o que eu imaginei. A sala em círculo, o calor de fevereiro ainda em horário de verão e piadas do tipo "Esse calor me dá um fogo!" aliadas a olhares pouco sutis direcionados ao garoto em questão. Minhas sobrancelhas se erguem e uma risada sufocada consegue escapar por entre meus lábios. O garoto me olha e, eu sei, sente vontade de me jogar pela janela e se jogar logo em seguida.

Ah, meu caro, isso é só o início.


quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O primeiro dia de aula


Sua barriga insiste em fazer movimentos estranhos enquanto seus passos te levam pelas escadas até o andar certo. Pelo menos você espera que seja o andar certo. Os tais passos são estupidamente calculados para que sejam decididos, daqueles que te levam diretamente ao lugar que deve ir. E é exatamente por andar com o queixo empinado como se fosse "dona do pedaço" que todos percebem que você não é a  tal "dona do pedaço". É claro que você só se dá conta disso depois de uns dois ou três períodos de observação de calouros tão idiotas quanto você era antes.

O medo ainda passeia pela sua barriga e você, realmente, espera que a tão temida diarréia não resolva aparecer e dar um passeio também. Primeiro dia de piriri é humilhante demais. Como se andar feito um mulambo no meio de um corredor cheio de jóias, saias e vestidos bem cortados não fosse humilhante o suficiente. Não sei qual dos tipos de calouros é pior. Os que ainda acham que estão no ensino médio ou os que acreditam que estão no baile formatura. Terno, gravata, gel no cabelo e sapatos imitando espelhos. O que esse ser tem na cabeça, afinal? Calma aí, fera, ainda faltam cinco anos. Você vai ter tempo de se preparar para a festa. Ou não... Vai saber o que o temido TCC te guarda. Mas enfim...

A sala é maior do que você pensava. Uau! É a faculdade! É tão excitante. Mal pode esperar para ter a primeira aula.

Não. Ela não é fantástica e, em se tratando do curso de direito, não te jogam num juri simulado logo de cara. Não fazem isso nem mesmo depois que o seu rabo passa pela porta. O que aconteceu foi que a professora - que não se veste como se estivesse numa festa de formatura - perguntou o nome e as pretensões para o futuro de cada um dos alunos. Caramba! Isso é tão ensino médio que te broxa. E daí se ela tem doutorado? É broxante e pronto.

Ainda bem que nos períodos seguintes você aprende a dar valor as coisas que realmente têm importância. Não tem como ser professor de faculdade sem uma pós-graduação, seu anencéfalo! E não. Ela não ganha milhões por isso.

Mas é a "Ciência do direito"! A matéria base para todo o estudo do curso! Você vai aprender sobre as diferentes fases jurídicas! É tão excitante!

Na verdade, "ciência do direito" pode ser resumida em uma só palavra: História. Que, por sinal, você estudou por mais de treze anos da sua vida.

A diferença é que na escola você não aprendeu sobre naturalismo, positivismo e pós-positivismo. E você não vai ver a aplicação do pós-positivismo europeu no Brasil, mas as decepções e os abismos que existem entre prática e teoria ficam para outro texto.

Exceto uma. Uma decepção merece estar no texto sobre o primeiro dia de aula justamente por ela ter acontecido logo no primeiro dia de aula. Você, aspirante à juíza (isso também muda ao longo do curso), não vai usar o famoso martelinho, não vai ficar batucando aquele troço de madeiro feito uma criança com um chocalho. Ele é só um objeto do direito americano enfiado na sua cabeça por seriados e filmes legais demais para serem baseados no direito brasileiro.

Logo de cara, quebram as suas esperanças infantis e você pensa que não deveria estar ali. Tanto trabalho para não usar o amado martelinho! Que horror! E é só a primeira de muitas decepções.

Bom... A mensagem que fica é a que você mais quis ouvir, pelo menos:

Bem vinda à faculdade de direito.