quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Anastasia


Ela segurou um lado do torniquete com os dentes e puxou o outro com uma mão. Não foi preciso mais nada para que o vaso sanguíneo ficasse aparente. Como se aquilo fosse um convite, uma confirmação de que era mesmo o alívio que estava à caminho.

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- Seria mais fácil se eu soubesse o que acontecerá depois, Doutora Anastasia.

Apertei o êmbolo da seringa para retirar o ar – por que eu fazia isso? - e olhei o homem deitado na maca. Eu não sabia o que dizer – eu nunca soube o que dizer -, mas a frase dele até que foi interessante. Nenhuma prece, nenhuma imprecação. Apenas um desejo que, todos sabíamos, não poderia ser saciado. Algo mais absurdo até do que pedir perdão.

Talvez a palavra "justiça" soasse de forma diversa se nós pudéssemos saber o que nos espera além do momento em que assistimos nossas vidas inteiras em poucos segundos. Mas a vida não é justa. A morte, muito menos.

- Bem... Você logo descobrirá. – Eu disse. E poderia acrescentar alguma piada do tipo “só não volte para me contar”, mas seria exagerado demais para as circunstâncias. Deixaria para discuti-la com meus colegas de profissão, na hora do café.

Eu sei que não é algo que se deva falar a alguém que está prestes a ser executado, mas...

Não, não existe nenhum “mas”. Essa resposta foi infeliz e nós dois sabíamos disso. Mas é como dizem meus companheiros de trabalho: é preciso fazer piada e se distanciar para não enlouquecer e começar a enxergar seus rostos enquanto dorme.

É que eu tenho o tipo de emprego que, na idade média, colocariam um capuz preto em cima da minha cabeça. Eu sou quem faz o trabalho sujo de colocar o laço no pescoço do criminoso. Todos os dias eu vejo seus rostos e enxergo uma alma em seus olhos. Dizem que é melhor eu não olhar, mas o que eu posso fazer quando eles clamam apenas por um pouco de humanidade?

Depois do breve instante de conexão de olhares, meu cérebro se desliga e eu faço o que tem quer ser feito. E é o fim.

Em algumas situações, é melhor não pensar.

Mas o pensamento do prisioneiro fazia sentido. Seria mais fácil se eu soubesse para onde eles vão.

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Quer uma pequena amostra da tortura? Não posso oferecer, e nem teria coragem. Mas posso fazer uma pergunta:

Quantas pessoas você já matou em toda a sua vida?

Só hoje, eu já matei quinze. Dez homens e cinco mulheres. Catorze deles tinham filhos. Nove receberam a visita da mãe antes de morrer. A maior parte rezou, alguns se revoltaram e começaram a se debater. Uma mulher desmaiou em seu desespero e muitos me olharam com pavor, como se eu fosse a própria morte.

O que, de certo modo, eu sou.

Ao longo da minha carreira como assassina legalizada (eles não gostam que eu diga isso, mas é exatamente o que eu sou.), aprendi algumas coisas sobre a natureza humana.

Primeiro: as pessoas são mais propensas a acreditar em Deus quando percebem que chegou a hora de morrer.

Segundo: o desespero pode ter diferentes maneiras de se manifestar. Gritos, preces, lágrimas, um sufocante silêncio sepulcral... Acredito que eu poderia saber como seria a reação de cada um deles se eu conhecesse um pouco mais sobre suas personalidades, o que eu não quero.

Terceiro: a minha estratégia de não conhecê-los nunca funcionou. No milésimo de segundo em que nossos olhos se encontram, sei exatamente como vão reagir.

Quarto: nem todos se arrependem.

Quinto: nós não evoluímos muito desde a guilhotina.

E sexto: os que falam são os piores.

Uma das minhas pacientes, Margareth, começou a falar sobre os seus filhos. Me deu uma descrição precisa sobre como era cada um deles, desde o nascimento. Falou sobre o som do choro e sobre o cordão umbilical. E, com lágrimas nos olhos, disse que não se arrependia de tê-los abandonado por não ter o que comer. “Coloquei na porta de casa de gente rica. Não vão ficar com a barriga roncando de fome quando crescerem.” E morreu por eles.

Outro deles, Brandon, matou seis pessoas. Pelo menos, foi o que disseram, já que ele não se lembra de nenhum dos rostos que lhe foram apresentados por fotos tiradas no necrotério. De tanto repetirem, ele concordou. Suas digitais estavam na cena do crime, suas roupas ficaram sujas de sangue. Como ele poderia negar? No laudo médico que me deram, o psiquiatra diagnosticou transtorno de personalidade múltipla e indicou uma clínica de tratamento. Com o tempo, ele ficaria são. Quando ele fechou os olhos, uma lágrima escorreu e eu mordi meus lábios ao ponto de sangrarem. A dor não diminuiu. Talvez eu devesse procurar um psiquiatra.

Clinton sorriu quando eu entrei. Disse que era bom ver pelo menos um rosto bonito antes de partir. Sua voz rouca pelo cigarro recitou nomes e mais nomes das pessoas que tentaram apedrejá-lo quando souberam que ele havia arrancado o pênis de um outro homem e colocado dentro da própria boca do defunto. Disseram que sua atitude era a de um psicopata. A pena para os psicopatas? Bom... Clinton veio me visitar, não? E me deu o local exato do túmulo da sua filha, que foi vingada. Pediu para que eu colocasse uma única tulipa vermelha em sua lápide. Amor eterno.
  
Edgard, aos 64 anos, ficou mofando na prisão por quarenta e dois anos. Disse, em seus últimos momentos, que nenhum inquérito policial com seu nome existia. Só disseram que ele cometeu um crime e jogaram-no numa cela com mais trinta presos. A maior parte, traficantes. Todos homossexuais que fizeram o possível para esconder as próprias necessidades. Mas, com o tempo, não conseguiram e deram o seu jeito para aliviar o desejo. Agora, trouxeram ele para a minha “sala” porque alguém que havia ficado cego ocupava espaço demais na cadeia. Não vai ocupar mais.


Uma outra paciente disse que chegou a matar quinze pessoas por dia. Eles entravam no seu consultório andando e saiam cobertos por um lençol branco. Seus lábios recitaram histórias e mais histórias sobre pessoas que diziam sofrer. Nesse momento, ela sorriu e disse que acreditava que eles haviam parado de chorar e que, com ela, seria a mesma coisa. Ela disse também que um de seus pacientes queria saber o que havia do outro lado, disse que seria mais justo. E isso a fez pensar. Seu nome era Anastasia.

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