sexta-feira, 8 de junho de 2018

Madrugadas, verdades, martelos e crônicas



Numa madrugada dessas, logo depois que meu avô faleceu, fui acometida por uma insônia que pensei ter sido extinta quando comecei a treinar muaythai (vocês ficariam surpresos com a capacidade que a luta tem de me fazer dormir, mas enfim). Três da manhã e lá estava eu, acariciando meu gato (de quatro patas), tentando dormir e pensando na vida.
Depois de uns 30 minutos nessa lenga-lenga de dorme-não-dorme, resolvi começar a ler um livro dentre os mais de 300 que tenho na minha estante. Ao contrário da maioria, este eu nunca li.
Trata-se de “Tudo o que você não soube”, da Fernanda Young. Nele, a narradora (que escreve crônicas com uma genialidade ímpar, por sinal) divaga sobre o pai que está morrendo e sobre tudo o que aconteceu na vida dela que ele nunca fez questão de saber. É aí que começam as conjecturas.
A narradora, assim como eu, teve um pai ausente. A grosso modo, forçando muito a barra, me identifico com a personagem. É claro que apenas 1% da vida retratada ali foi semelhante à minha. Na história, a mãe e a avó também foram péssimas e a narradora foi parar na cadeia por ter tentado matar a própria mãe à marteladas. Sem falar nas drogas, namorados não aceitos pela família e etc...
É um livro confuso em muitos aspectos, principalmente no que diz respeito à lógica. Ele não segue nenhuma linha do tempo pré-determinada, não tem um enredo, não possui clímax e os personagens não evoluem.
Então, Bianca, por que ele merece uma resenha?
Porque é um dos melhores livros que eu já li.
A autora consegue escrever uma crônica/carta/diário viciante. Tão viciante que, quando termina, você fica com vontade de ler de novo enquanto sua cabeça está povoada de pensamentos.
Porque é isso que ele nos faz: pensar. Sobre a vida, sobre a morte, sobre nossos medos, imperfeições, sobre nossos pecados. Numa espiral louca de divagações você se vê cercado por reflexões que vão desde o ódio por praia até o feminismo. E, é claro, passa por verdades que a sociedade como um todo tenta ignorar. E é exatamente isso que a Fernanda Young nos joga na cara.
Talvez tenha me surpreendido tanto por ser o tipo de crônica que eu sempre quis escrever e nunca consegui. Achei que esse tipo de coisa teria que ser verdadeira para ser alcançada. Como extrair líquido da medula óssea, é algo possível de ser feito só se você tiver uma medula: não dá para ser artificial. Ao que tudo indica, eu estava enganada.

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