terça-feira, 29 de agosto de 2017

Sobre marcas


A do queixo foi a primeira. Ficou uma marca, pequena, que quase não faz diferença. Dois riscos mais profundos que a pele, um “y” meio torto que o médico me deu.
Depois veio a do nariz. Uma criança apertando um cachorro fofinho resultou num leve rachado, mais escuro que o resto do corpo, ao lado da narina. Assim como o primeiro, quase não dá para notar.
Outra é arredondada e fica no meu pescoço. Hereditária, passa de mãe para filho. Sei disso porque minha mãe tem uma igual. Assim como meu irmão e meu tio. Eu gosto dela; e, de algum jeito, me lembra carinho.
Tenho a da barriga também. Eita dias sofridos esses! Mais de uma semana com dor para, no fim, deixar um órgão com os médicos e ganhar mais um risco, quase invisível para quem olha de longe.
Tem uma no joelho, a da vacina que já é clichê, a que fica perto do umbigo, a do punho, a do dedo...
Dentre todas as marcas que eu ganhei um dia, seja de mim mesma, seja de outras pessoas, seja da vida: a que dói mais é justamente a do peito. Mesmo sendo a última, nem é mais tão recente assim. Entretanto, porém, todavia... ainda dói. Eu chamo ela de ‘incurável”, “inesquecível”, “você”.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Crônicas da faculdade - O primeiro dia do último ano


Tem algo de diferente no ar. Um cheiro novo, uma aura mais leve, mesmo se for levado em conta que este é o ano em que a prova da OAB e o TCC cairão em cima de 90% das cabeças que estão na sala de aula.
Mesmo assim.
As conversas parecem mais despreocupadas, as vozes estão descansadas, claras, e não é só por causa do efeito das férias. Até mesmo os calouros irritantes não estão tão irritantes. Só um pouco.
É o último ano. O penúltimo semestre. O penúltimo primeiro dia de aula da faculdade de direito.
- É o último ano, gente!
Por um instante a moça que falou isso foi a minha pessoa favorita do mundo inteiro. Um sorriso aparece e alguma coisa morna sobe pelo corpo. É o último ano. Só mais um aninho e a tortura acaba.
Ah, inocente! Daqui dois meses tudo o que você vai querer é explodir o campus e tudo o que estiver num raio de mil quilômetros por causa de uma coisa que chamam de Trabalho de Conclusão de Curso, mas isso é assunto para outra hora.
Entretanto, por enquanto, no primeiro dia, tudo parece mais feliz. Você chegou até aqui, parabéns, nada pode dar errado. Agora esse negócio acaba e todo o suor, lágrimas e sofrimento terá valido à pena.
Lá fora, o céu azul e o sol forte sorriem. Sete horas da manhã ou sete da noite, não importa, é horário de verão e o dia parece compartilhar sua alegria.
Afinal, é o primeiro dia do último ano.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Cicatrizes


Elas estão aqui,
expostas,
onde todos podem ver.
Marcadas à ferro,
queimaduras de todos os graus,
de gelo,
fogo,
paixão.
Algumas são mais profundas
marcaram mais forte;
são as provas de que eu posso me reerguer.
Elas também me dão base para alguns conselhos,
já que também foram minha escola.
São minhas companheiras,
minha história,
descrevem meus tombos e tropeços
e me ensinaram mais do que as risadas.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

#EU


Eu tenho essas coisas velhas que insisto em guardar. Coisas que já passaram da validade, da época, da idade. Roupas velhas, maquiagens vencidas, livros que eu nunca mais lerei, discos que eu nem sei se funcionam mais. Todos eles servem para alguma coisa, mas passou da hora, sabe? Não me vejo mais de meia arrastão, mas ela ainda está guardada na gaveta. Não tenho mais um vídeo cassete, mas esses VHS’s enfeitam a parte de dentro do baú. Também não tenho mais contato com várias pessoas, mas a lembrança boa que elas deixaram vive comigo. E tem aquele delineador caro que continua na nécessaire, inutilizado depois que eu descobri que:
(a) não fica bom no meu olho; e
(b) minhas habilidades manuais (ou falta delas) não permitem que eu utilize.
E aí tem você: que não me serve mais e mesmo assim eu insisto em guardar. 

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Nota Mental



Viva sua vida intensamente, mas nem tanto. Seja você mesmo, mas não passe dos limites impostos. Não ligue para opinião dos outros, mas preste atenção em tudo ao seu redor. Ligue o “foda-se” para o mundo, mas sempre pareça politicamente correto, ético e moralista. Não julgue, mas tenha opinião sobre tudo. Não seja mais um alienado, esteja antenado, você precisa ver os jornais para poder opinar. E Liberte-se. Mas não esqueça que a sua liberdade termina onde a minha começa.
Você brinca demais, abra um sorriso, deixe de ser tão sério, não vale à pena enfartar no trânsito. Mas você não pode chegar atrasado. Não grite, fale alto, se imponha, não seja arrogante. Obedeça, siga as regras, não seja um bitolado, inove, transforme, renove, use o modelo que salvamos no word.
Como nota mental para alguma próxima vida no mundo moderno, eu sugiro apenas que não leve tudo tão a sério.

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