terça-feira, 25 de julho de 2017

Ele vai bem, obrigada


Meu coração? Vai bem, obrigada. Desde a última vez que nos encontramos, ele fez coisas diriam impossíveis. Cresceu tanto que nem coube no peito, encolheu ao ponto de duvidar da própria existência, ardeu, andou sobre brasas, congelou e afundou repetidas vezes. Passeou pelos jardins do éden e até visitou o inferno algumas vezes. Verdade é que ganhou uns arranhões no caminho. Alguns sem importância, superficiais, outros doloridos, torturantes. Chorou de noite e se alegrou com o raiar do dia. Apesar de tudo, ele ainda faz o que sempre fez de melhor: se reconstrói. A cada queda, toda vez que apanha.
Meu coração? Ele anda todo remendado, mas vive por inteiro mesmo lhe faltando alguns pedaços.
Ele vai bem, obrigada.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Depois dele


Depois dele,
algo em mim se quebrou.
Não sei se algo bom,
nem sei se foi ruim;
algo se foi
e eu ainda não encontrei o que ele levou.
Depois dele,
falta alguma coisa aqui:
um parafuso,
uma porca,
parece que ele fechou uma porta,
não sei...
Só sei que agora fica frouxo,
meio torto.
Às vezes range
e às vezes bate,
mas na maior parte do tempo...
Arde.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Tudo o que a gente faz pra esquecer


A gente finge que não vê. Faz qualquer coisa para esconder, para evitar que alguém pergunte e jogue na nossa cara o que fica preso na garganta e não sai.
Abaixa a cabeça, vira a cara, usa até chapéu e óculos escuros pra não transparecer o que nos corrói por dentro ao ponto de doer.
A gente se cala, tenta matar as palavras que insistem em aparecer e controla as lágrimas que não deveriam cair. Chorar no travesseiro noite passada já foi o suficiente para uma vida inteira.
Então a gente foge, se isola, ignora a verdade estampada no espelho do elevador, nas vitrines e nos outdoors.
A gente finge que não vê e torce para esquecer.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Capital



A beleza da cidade não está nas árvores do parque
ou no sorriso das crianças no zoológico
nem nas mansões do bairro nobre.
Está no mar de prédios que vemos ao norte
e no monte,
ao longe,
no sul.
Ela está nos hippies na feira,
nas estátuas vivas da praça
e nos ônibus lotados de coletividade.
A beleza da cidade mora na carroça dentro do posto de gasolina
e no homem sorridente ao seu lado;
mora no abraço apertado
de duas pessoas
no meio da estrada.
Essa beleza a gente encontra nos cabelos encaracolados
ou nos curtos;
nos olhos cansados
e nos alertas.
No homem oferecendo seus chinelos ao mendigo,
na humildade da senhora explicando sua pobreza,
na quentinha dada ao morador de rua.
No idoso contemplando pela janela do ônibus.
Na música dos passos que soa no centro,
nas vozes abafadas que escutamos de dentro dos prédios.
Está em todo mundo
que apesar de tudo
faz questão de sorrir.

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