terça-feira, 27 de junho de 2017

Roteiros que nunca dão certo


Eu tenho uma crônica inacabada. Ela fala sobre os heróis que criamos e eu pretendia postar no dia 25 de dezembro do ano passado. Também tenho um texto incompleto, sobre criatividade. A ideia era falar que todos aqueles esquemas sobre como escrever um livro em “n” passos nunca funcionou para mim. Sem falar nos milhares de músicas que ficaram na minha cabeça por um dia e depois sumiram assim: do nada.

Eu também tinha intenção de terminar meu TCC ainda nas férias. É janeiro e eu nem comecei. Estudar para OAB, visitar minha irmã no exterior, escrever um livro.... Admito: o primeiro objetivo de todos era o livro e eu acabei colocando-o no fim da lista. De novo.

Decorar meu quarto, dar banho no gato, pintar a raiz do cabelo que já cresceu novamente, passar o natal com meu pai, o carnaval com meu outro pai, ligar para meus avós, ler 20 livros até o fim do ano, tocar violão até meus dedos sangrarem, arrumar meu quarto, colocar as séries em dia. É só o que eu consigo me lembrar até agora. Todos planos que não deram certo.

Lembra do texto sobre criatividade? Então, checklist sobre coisas que eu quero – e preciso - fazer não dão certo para mim.

Ah, acabei de lembrar: eu também ia fazer uma reforma do blog.

Droga. Se eu não consegui nem terminar a lista de um dia, imagina pensar em planejamento ao longo dos anos. Trabalhar, ficar rica, namorar, noivar, casar, ter filhos, cuidar dos filhos, trabalhar, viajar, ser feliz...


Chega. Complicado demais. Eu não funciono assim.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Quem é?



O povo vota nela de novo.
O povo coloca os corruptos lá de novo.
O povo não muda,
o povo esquece.
O povo é burro.
Não adianta nada,
porque o povo faz tudo errado de novo.

Entretanto,
o povo é quem vota,
é quem não vota,
é quem anula,
é que sai da cidade porque não quer votar.
O povo é quem apoia,
é quem reprime,
é quem odeia,
é quem ama.
É quem morre
e é quem mata.

O povo é quem luta,
é quem não quer lutar.
É quem vê novela,
é quem dorme quando o jogo acaba,
é quem espera o jornal acabar.
O povo é quem troca de canal,
quem fala só por falar,
é quem senta a bunda no sofá;
O povo é quem vai pra rua gritar.

O povo é quem reclama do povo,
quem fala que não concorda com o povo.
O povo é quem esperneia,
quem paga impostos,
quem se esconde do leão.
quem reclama da inflação.
É quem passa o dia implorando por um sim;
o povo é quem vive dizendo não.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Recém nascido

Era uma daquelas noites em que até os ratos desistem de procurar comida e se encolhem uns contra os outros dentro das caixas de esgoto. O frio cortante se materializava no hálito de quem se aventurava pelas ruas e nem os melhores casacos ofereciam abrigo. Era uma daquelas noites em que os bons pais se sentam na beirada da cama dos filhos para contar histórias e os maus progenitores se perdem – ou se encontram – numa garrafa de bebida. A mulher sem nome, que gemia em um dos muitos becos da cidade, tinha certeza que o pai do seu filho era um dos piores do mundo. Ele não fazia ideia de que ela estava grávida e, muito menos, que daria a luz em alguns minutos.
A moça se lembrava apenas do cheiro pútrido que ele exalava e mais nada. Esquecera seu rosto, nunca soube seu nome e nem haviam se encontrado depois daquilo.
Só se lembrou do ocorrido alguns meses depois, quando uma coisa começou a chutar sua barriga que ficava maior a cada dia que passava. Procurou uma daquelas mulheres que tiravam o incômodo de dentro das grávidas, mas ela falhou e disse que, se tentasse novamente, morreriam mãe e filho. Por menor que fosse sua vontade de parir o fruto de um ser desconhecido, não queria morrer. Não gostava de morar na rua e, por isso, uma calçada qualquer não parecia ser um bom leito de morte.
E agora estava ali, sentada num beco escuro e úmido, gemendo e sentindo mais dor do que um ser humano seria capaz de suportar. Pelo menos era o que parecia. As contrações vinham sem intervalo algum agora e a força que fazia para expulsar o bebê era automática. Alguns chamariam de instinto maternal, ela chamava de autopreservação.
Seu corpo tremia e ela não sabia se por medo, dor ou frio. Talvez uma mistura dos três, todas as coisas que acompanhavam seus dias. Além da fome, é claro. Como ela iria cuidar de uma criança era um problema a ser resolvido, mas, primeiro, o bebê deveria sair. Depois ele comeria – ou passaria fome, como a mãe.
É possível que algumas pessoas tivessem passado pela rua, olhado para a figura deitada no chão e sentido algum resquício de pena e uma boa dose de nojo. Mas nenhuma delas se dignou a se abaixar um pouco e examinar o que acontecia ali. Ninguém se interessou pelo choro de criança que invadia os ouvidos de uma mulher semi acordada. Nem mesmo se atentou para o fato de que a moça deitada no chão suava, apesar da neve que caía do céu.
Em algum lugar da sua mente, ela sabia que o bebê chorava e que seria melhor cortar o cordão umbilical. Ela entendia que ele estava congelando e que o certo seria enrolá-lo em cobertores para que a criança não morresse de frio. Mas ela não tinha cobertores, tampouco forças para se erguer e pegá-lo nos braços. O cansaço era demais e a dor... A dor era insuportável. Fechou os olhos. Talvez, com o tempo, tudo acabasse.
Acordou algum tempo depois sem saber se haviam se passado minutos, horas ou vidas. Seus ossos doíam, seu corpo inteiro tremia e as lágrimas e o suor haviam congelado e formado uma fina camada de gelo em sua pele. Alguma coisa a impedia de fechar as pernas. Ela firmou as mãos no chão e impulsionou o corpo dormente para uma tentativa desajeitada de se sentar. Olhou para baixo e viu o corpo do ser que havia nascido há algum tempo. Quanto tempo havia se passado? Minutos, horas? Uma vida, certamente. Mas o tempo? Depende. Quanto tempo demora para um recém-nascido congelar?

terça-feira, 6 de junho de 2017

Ela era o mundo todo dentro de uma pessoa só

Naquela fotografia vivia um mundo inteiro de uma pessoa só, responsável por algumas outras. Era mais que mulher, amiga. Era muito mais do que uma irmã e ainda maior que uma mãe. Era ela. E só ela. Nenhuma outra palavra é necessária e nenhuma cor é capaz de aumentar sua grandiosidade. Viver no coração dos filhos basta. Era o mundo inteiro retratado numa só pessoa, com todos os seus tons coloridos escondidos pelos calos de quem já apanhou muito da vida. Mas, como sempre dizia, nada é eterno, nem mesmo a vida. E agora, presumo, ela não sente mais dor.
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