terça-feira, 30 de maio de 2017

A/C: Cupido


Cupido, me faz um favor? Acerte a flecha em alguém que vai entender quando eu for embora sem dizer adeus no fim da estação. Explique pra essa pessoa que amores de verão não sobem a serra e que quando as férias acabam cada um vai para o seu próprio canto. Também deixe claro que a última coisa que eu pretendo fazer é me apaixonar, muito menos esperar o inverno pra dormir de conchinha, nós dois juntinhos. E diga que não quero flores na primavera e que não vamos tomar cappuccino enquanto lemos um livro, admirando as folhas caírem no outono. Por favor, cupido, mostre à ele que um amor de verão é ardente, abafado, quase insuportavelmente quente. Ele nos preenche por completo e suga todo o nosso suor de três meses intensos. No fim, ficamos esgotados, sem líquido nenhum para hidratar nosso corpo já saciado. Diga que um amor de verão nos consome por completo, arrepia até o osso. E que por isso ele não pode durar o ano todo.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Entre três paredes e um espelho


Numa sala de interrogatório, um homem com cerca de 30 anos encara um policial fardado. Seu rosto é calmo ao esperar pelo promotor de justiça. Não é o rosto de alguém frio, pelo contrário. É a expressão de uma pessoa que se sente em paz.

O policial sabe que ele matou uma mulher. Sua companheira, pelo que entendeu. O homem jogou o caminhão em cima dela e continuou passando com o veículo em cima da sua cabeça diversas vezes seguidas, até ter certeza de que ela morreu.

- Ela morreu, não foi? - O homem perguntou. – Eu verifiquei antes de chamar a polícia e os outros policiais confirmaram há alguns minutos. Eu recebi a notícia e fiquei aliviado. Estou livre de uma louca que me perseguia por todos os lugares possíveis.

“Não me entenda mal, eu não queria que ela tivesse morrido. Mas ela precisava morrer. Para que eu conseguisse viver em paz. Aquela louca obsessiva queria que eu vivesse embaixo dos seus pés, queria que eu não conseguisse viver sem ela, que ela fosse tudo o que povoa meus pensamentos e, o pior, ela sempre me forçava a implorar por tê-la mais perto quando eu só queria distância.”

“Acha que é fácil viver com uma louca assim? Acha que eu sou um filho da puta insensível por matá-la? Então me diz o que você faria no meu lugar. Me diga se não iria jogar um caminhão em cima dela assim como eu fiz. Talvez fizesse pior. Bem pior. Você parece ser do tipo que pega um alicate e arranca todas as unhas de uma pessoa até conseguir o que quer.”

“Por isso eu digo: não sou inocente. Mas o assassinato foi cometido em legítima defesa da minha sanidade! Ela invadiu meu casamento, ameaçou minha sogra e sequestrou meu filho. Em troca dele, eu deveria viver junto dela. Até que ela passou dos limites e disse que iria trabalhar para sustentar a casa, já que eu estava preso num dos quartos.”

“O plano seria aceitável (no sentido mais doentio da palavra) se aquela maluca não inventasse de ser prostituta. Pior ainda: depois da primeira noite de trabalho (e da minha tentativa de fuga) ela disse que eu deveria ir junto porque não se sentia bem fazendo o que fazia longe de mim. Ok, ficando fora de casa era mais fácil de fugir, concordo, mas as ameaças à minha família só pioraram.”

O assassino parou de falar e respirou fundo algumas vezes, como se houvesse vomitado tudo o que guardava no estômago de uma vez só. O policial, ainda quieto, no canto da sala, pedindo para nãos ser notado, pensava em tudo o que tinha ouvido e chegou à conclusão de que já conhecera pessoas malucas o suficiente na vida.

Alguns minutos em silêncio se passaram sem que o promotor chegasse. Os dois homens já suavam dentro da sala sem ar condicionado e as pálpebras do soldado começaram a ficar pesadas. Como sua mente vagava por lugares que envolviam uma cerca e vários carneirinhos pulando, levou um susto e deu um pulo quando o preso recomeçou a falar:

- Eu não conseguia nem dormir. Toda noite ela poderia me amarrar e fazer novas ameaças. Ela dizia que me amava, mas quem garante que não escondia uma faca debaixo da manga ou no decote? Eu estava enlouquecendo. Tanto que, durante o dia, chegava a sonhar que estava em casa, com a minha esposa e meu filho. A fantasia era boa até a hora em que a louca abria a porta do quarto e me usava mais uma vez como cobaia dos seus experimentos carnais.

“É claro que não era só sobre sexo e viagra, que ela me enfiava pela boca à força. Ainda tinha teatro de noivado, casamento, ensaio de maternidade, formatura dos nossos filhos, segunda lua de mel e por aí vai.”

O acusado sorriu. Como se, de repente, tivesse se lembrado de uma coisa boa, e continuou:

- Mas acabou. Ela não vai mais me incomodar. E nem ameaçar minha família.

O silêncio que veio a seguir se prolongou por muito tempo. Tempo demais. Tanto tempo que o policial levantou a cabeça e se obrigou a encarar os olhos do assassino. Eles estavam arregalados, congelados num momento indefinido. Um filete de sangue saia da sua boca e o rosto estava deitado na mesa fria, imóvel. Sua face dava a impressão de morta e sua expressão sugeria que a causa do falecimento havia sido susto.

Desesperado, o soldado pediu para chamarem uma ambulância antes mesmo de checar os sinais vitais. Ninguém viu o que aconteceu e nem mesmo as câmeras da sala de interrogatório registraram muita coisa. Apenas o preso entrando em colapso sem motivo algum, enquanto olhava fixamente para o espelho.

Quando os médicos conseguiram fazer com que o homem falasse, só duas frases saíam dos lábios pálidos:

- Ela me convidou para o enterro. Eu tenho que fingir me importar.


E, até hoje, ninguém sabe o que aconteceu.

sábado, 20 de maio de 2017

Classifica como ficção pra ninguém perceber

Sabe, eu gosto de pensar que você é como eu. Que, se precisar, fica fácil despejar tudo numa folha de papel. Se por acaso sentir vergonha de admitir, aproveita que é um texto, classifica como ficção que ninguém vai perceber.

Guarde-a numa gaveta até que o papel fique velho e as rimas, desgastadas. Descarregue-a na ponta da lapiseira e deixa as lágrimas mancharem suas palavras e embargarem sua voz. Transforma sua dor em soneto e publica tudo num livreto. O máximo que vai acontecer é ficar na prateleira até virar pó.


Deixa-a longe, lá na lista de textos mais lidos de um site quase desconhecido ou na vitrine de uma livraria. Aproveita que é segredo e deixa à mostra. Pra todo mundo ler e chamar de ficção. E, se alguém disser que é de verdade, vão duvidar. Vão dizer que não tem como alguém sofrer desse jeito.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Colecionador de canções

Você anda por aí, levando os acordes dentro do case velho e rasgado. Passa pelas pessoas como se fosse o vento, recolhe melodias, tons, semitons e timbres vocais.

Você tem o dom de roubar minhas rimas. Faz gato e sapato da minha harmonia e rasga todas as partituras que eu um dia lutei para juntar. Porque é isso o que você faz. Você coleciona palhetas alheias, rouba todas as escalas e liga o foda-se para a métrica. Você desafina meus acordes.


Porque você é alguma espécie de sinfonia destoante, desconhece seu próprio tom. Mas sua dança segue um ritmo cativante.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Algum poema qualquer - VI


Abriu os olhos.
Fechou-os novamente.

Pensou  que  pudesse  dormir até tudo passar.
Decidiu  não  se  levantar mais.
Não  naquele  dia.
Talvez ninguém  notasse sua  ausência;
poderiam muito bem  demiti-lo;
na   verdade,
ele  não  ligava.
desde  que  pudesse  ter   paz  para  agonizar  sozinho;
só um dia,
no  escuro,
debaixo dos  cobertores,
aninhado na dor e nas lembranças dos cabelos loiros,
do rosto alvo,
calmo,
rodeado de flores,
dentro da caixa de
madeira escura.

Novamente,
abriu  os  olhos
e  decidiu se levantar.
Levaria  um  lenço.
E havia a  possibilidade de sofrer  um  acidente
Se  fosse  atropelado,
talvez conseguisse, por fim
encontrar sua amada.


sexta-feira, 5 de maio de 2017

Cinco segundos


Castanho. Verde. Azul. Cinza. Preto. Cinco segundos, cinco pares de olhos diferentes encarando o mesmo rosto. Em seus semblantes, a mesma expressão que já ficou constante: pavor.

Cinco tiros em cinco pessoas em cinco segundos. Cinco vidas se vão em tão pouco tempo por um único motivo: a lei de Aláh. Assim como aconteceu na segunda guerra, do mesmo jeito que ocorreu na ditadura. As razões podem até terem sido diferentes, mas faz alguma diferença quando alguém que só quer paz tem que encarar de perto o cano de um fuzil? Em pleno século vinte e um, do outro lado do mundo, tão longe de quem está lendo este texto...

Entretanto, os parentes dessas pessoas vieram parar entre nós. Estão nas nossas cidades, implorando por ajuda, por asilo, por um braço que os abrace e por uma voz que diga “tudo bem, pode ficar”. Quanto tempo dura um sorriso? Cinco segundos. E só por ele milhares de olhos podem voltar a brilhar.
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