domingo, 30 de abril de 2017

Você me permite?

 Será que eu posso pregar igualdade sem ser feminista? Posso não gostar de cinto sem saia sem ser preconceituosa? Será que você me permite a ousadia de não concordar com seus pensamentos ou de não seguir suas modinhas?

Você me deixa não apoiar a oposição e nem ser a favor dos governantes? Posso falar sobre incompetência sem conseguir fazer melhor? Será que eu posso ser advogada sem ser picareta? Ou médica sem querer brincar de Deus?

Eu posso querer mudar de casa sem odiar meu lar? Ou querer fugir simplesmente por fugir?

Você me permite amar sem ter que sofrer?

terça-feira, 25 de abril de 2017

Semeando risadas


 


Ela é como uma borboleta. Mas não uma borboleta qualquer, que aparece só nos dias mais ensolarados da primavera. É um daqueles tipos belos e raros que possuem cores fortes e alegres, que sobrevive até aos mais cinzentos e gelados invernos.

Ela é a mais esperta das borboletas. A que voa para longe e retorna sem hora ou lugar. Ao mesmo tempo em que vai, fica; ao mesmo tempo em que ri, chora.

Vai, sem hora para voltar. E fica, sem avisar quando vai. Vem, espalhando sorrisos tão coloridos quanto suas asas e some, deixando a esperança de futuras risadas.


quinta-feira, 20 de abril de 2017

Só sei que é assim

Inspirado na música “Você me bagunça” da banda O teatro mágico

Você me deixa sem palavras quando o que eu mais quero é falar, rabiscar ou escrever. Faz meu coração disparar, meu peito arfar, minha pele arrepiar. Faz minha razão simplesmente desaparecer, desintegrar. E me faz querer ficar perto, aprender sobre você sem te prender. Você deixa tudo aqui bagunçado e tumultuado, mas, ao mesmo tempo, me faz bem, me faz brilhar. Não sou eu mesma, não sou nenhum reflexo que eu possa reconhecer. Você ousa e me faz querer dizer sempre “sim”. Não me pergunte como, quando ou onde. Não me questione sobre os motivos. Só sei que é assim.


sábado, 15 de abril de 2017

Um vagabundo como eu

 
Alguns já nasceram em casinhas de ouro. Passam os dias deitados em pufes feitos especialmente para aconchegar seus traseiros, peludos ou não. Outros, ficam expostos em eventos e feiras onde o mais elegante, bonito, com o pedigree mais apurado ganha um prêmio que vai ser desfrutado apenas pelo seu dono. E existem alguns sortudos, ao contrário de mim, que conquistam um humano que os leva para longe das ruas, para um lugar melhor.

Eu? Bom... Eu sou um dos integrantes da chamada “escória canina”. Sou um dos que passa os dias sem ser percebido e as noites procurando o que comer no lixo. Sou um daqueles cães magrelos e sarnentos, velhos e feios que ninguém nunca quis adotar. Tive que aprender a me virar desse jeito, aceitando quem eu sou e dormindo em cima de papelões rasgados que consegui juntar pelas ruas.

Eu estava deitado numa dessas casinhas improvisadas quando uma delas apareceu. Branca como a neve, focinho preto como carvão e flores cor de rosa presas nas orelhas, a verdadeira princesa em terreno plebeu. No seu pescoço aparecia uma coleira rosa que era segurada por uma mulher com ar de quem havia acabado de sair do pet shop.

Não me aproximei. Depois de tantas vezes ter sido chutado por madames metidas, aprendi a não me aproximar. Mas isso não quer dizer que eu não tenha rolado no chão, fuçado os papelões e nem que eu não tenha batizado todas as árvores e postes que ficavam do meu lado da rua.

Quando ela parou de andar de repente e ergueu o focinho um pouco mais, pensei que, finalmente, eu tinha conseguido chamar sua atenção. A dona parou junto e ficou olhando-a se virar para o meu lado da rua e farejar mais um pouco.

Acho que foi aí que meu coração parou, minha língua secou e eu me sentei, arfante, aguardando o que iria acontecer a seguir pela terceira vez só nesse dia. Seus olhos, tão pretos como a noite, passearam pela rua, interessados. Não resisti e deixei minha língua pender para fora da boca. Me levantei e esperei, impaciente e com meu traseiro balançando de tanta ansiedade. Será que dessa vez ela me viu? Será que sentiu meu cheiro? Será que ela seria a primeira das cadelas a corresponder aos meus avanços? Eu trocaria qualquer lata de lixo por isso.

Mas alegria de pobre dura pouco e não poderia ser diferente com esse ancião que vive nas ruas há mais tempo do que é capaz de se lembrar. Um vagabundo como eu nunca poderia ser alvo dos olhares de uma cadela rica e mimada. Nunca poderia adentrar os confins de mansões e coberturas limpas e bem decoradas. Um vagabundo como eu deve apenas se contentar em amar de longe, comer com o olho e lamber com a testa. E procurar mais comida nas sacolas de lixo que espalham pelas ruas.

Sejamos realistas: eu nunca poderia cheirá-las de perto. Primeiro porque os donos me espantam sempre. Segundo porque ela não iria querer cheirar o traseiro de um cachorro que fede a lixo. Terceiro porque... Bem... É assim que a vida é. Meros servos não se relacionam com a nobreza desde sempre. Não é diferente comigo.

Meu mais novo amor, como se nunca tivesse parado para sentir os cheiros do lugar por onde passava, continuou seu caminho sem olhar para trás. Como todas as outras antes dela fizeram e como, provavelmente, todas as seguintes vão fazer. Eu? Como um férreo integrante da chamada “escória canina”, todos os dias me apaixono só para ver os amores da minha vida irem embora sem nem ao menos me conhecer.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Como um geminiano salva uma vida

Inspirado na música “Amianto” da banda Supercombo 

É... Então, vou falar tudo de uma vez porque é mais fácil. E rápido. E se você não entender agora, vai entender depois. Ou em outra vida, não sei... Talvez nunca entenda, mas saiba que meus pensamentos fazem sentido.

Seguinte: eu nem te conheço. Mas amigos meus são também seus amigos e eles estão preocupados com o ser que está sentado na beira dessa sacada, querendo pular. Então, pelo bem deles, vim aqui pra gente conversar um pouco. Tomar um café e, quem sabe, eu possa te convencer que aí é alto demais pra você se jogar. Talvez eu não consiga, talvez minhas palavras sejam inúteis e você vá se jogar de qualquer jeito. Mas não custa nada tentar.

Sabe, a vida não é o monte de merda que você pensa que é. Ou talvez seja, mas não ao ponto de valer à pena o suicídio. Ok, seus familiares não te dão todo o carinho necessário e as pessoas da sua escola acham que você é um tipo raro de alienígena. E daí? Dorme que passa. Manda todo mundo ir à merda e segue com a sua própria vida. Sem se importar com o que os outros pensam ou com o pai que sumiu no mundo quando você nasceu. Coisas boas acontecem o tempo inteiro e é só uma infeliz coincidência que nenhuma aconteceu com você. Ou sua mãe te deu banho de azar... Vai saber.

Mas, voltando ao assunto, pensa em como as poucas pessoas que te amam vão ficar quando souberem que você pulou do vigésimo andar e explodiu seu cérebro contra o asfalto. Esse espetáculo de horror vale à pena? Acredito que não. Porque, mesmo que você acredite que, neste momento, esteja sozinha, eu acredito que alguém está ao seu lado. Ou vai ficar. Daqui uns dois, cinco, vinte, oitenta anos.

Alguém lá fora vai ver sua beleza do mesmo jeito que seus poucos amigos enxergam. Vai ser bem difícil achar alguém que goste de você como você é, mas nada é impossível neste mundo, entende? Por que não pagar para ver? Mesmo que você morra sozinha e isolada, mesmo que fique pra titia e vire uma daquelas pessoas amargas. O máximo que pode acontecer é ter uma existência infeliz ou conformada com a própria solidão. E, talvez, você seja feliz.

Ou não. Ninguém fica imune aos canalhas que a vida traz e, convenhamos, a chance de você encontrar um filho da puta para ser pai dos seus filhos é muito grande. Você tem que pisar em cada pedra de leve, testando o terreno, para só então fincar o pé. Com cuidado, muito cuidado. Qualquer passo em falso pode ser fatal.

E tenha em mente que ficar com o coração partido é inevitável. As pessoas são cruéis, elas vão te fazer sofrer e você vai ser burra o suficiente para sofrer. Na maior parte do tempo você nem vai entender o motivo das lágrimas, mas vai saber que dói e que seria melhor não sentir.

Como agora, que você quer pular dessa sacada para acabar com a tortura. Uma atitude corajosa de covardia, se é que isso faz sentido. Você é corajosa por desistir de tudo e covarde por não querer enfrentar a selva lá fora, entende? Acho que não. Você ainda é nova demais para me entender. E para brincar de morrer, mas cada um sabe o que é capaz de aguentar. Ou deveria saber.

Se uma queda de vinte andares parece ser promissora, vai fundo. Mas, antes, tenha certeza. É isso mesmo o que você quer? E, se não for pular, você tem certeza de que vai aguentar o tranco de viver nesse mundo cruel? Vai ser forte o suficiente pra lutar bravamente pelo que quer? Vai conseguir aceitar a própria fraqueza de ser humana e se reconhecer forte justamente por essa condição? Você está disposta a enfrentar todos os olhares tortos, as condenações, todos os juízes que vão querer te prender dentro de si mesma?

Vai entender a natureza contraditória e hipócrita do ser humano e, mais do que isso, vai aceitar que todos são cruéis, inclusive você? Vai viver conformada que ninguém nunca será capaz de mudar o mundo porque ele é podre demais para ser salvo? Vai ser capaz de conviver com a sua própria consciência quando aceitar que nunca vai cansar de tentar mudar as outras pessoas?

Ótimo. Porque eu não. Quer saber de uma coisa? Sai da sacada. É a minha vez de morrer.

 

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Lunática


Sou fria, intocável. Sou uma utopia. Sou um troféu que gostam de exibir na vitrine dos astros mais desejados. “Olhe! Eu já fui até ela, consegui tocá-la!” Tenho a pele pálida como a de um vampiro e sou brilhante como o que se deixa queimar ao sol por dias a fio. Não sou a maior, nem sequer sou estrela, mas posso ficar
tão cheia de orgulho e arrogância quanto qualquer outra.

Também posso ser o exato meio termo, como alguém que é metade e anseia crescer. E nessa crescente ousadia de ser, um lado se esconde para que ninguém seja capaz de ver a parte mais escura que forma minhas profundezas pagãs.

Algumas vezes, a menor parte de mim ganha luz e se esquece de que minha maior metade não se importa em ser notada. Estrelas demais transitam ao meu redor e diversas nuvens aparecem para ofuscar meu brilho. É nessas noites em que eu me contento em só olhar, sem ficar em evidência. Eu mostro apenas uma pequena parte de tudo o que eu sou, me faço personagem secundária, mera telespectadora.

E então, quando coisas demais invadem minha mente e transformam a noite em meu pior momento, quando os astros do meu mundo não levitam à minha volta e seguem suas próprias órbitas, quando todos esquecem que eu existo e eu mesma me apago, para ceder a outros caprichos, é quando tudo fica mais escuro e se torna difícil de acreditar que o sol nascerá.  Eu desapareço porque não quero que me vejam em minha forma menor. É quando eu recuo. E, se eu me escondo, é para retirar forças guardadas nas mais profundas cavernas e poder, novamente, na semana seguinte, brilhar.


Porque, assim como a lua, eu me divido em fases, espero uma semana e me faço novamente inteira.
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