segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Relatividade


Longe demais das capitais ou longe demais de alguém? Não sei... Me sinto no centro do estado, morando numa metrópole, mas estou isolada demais do resto do mundo. É como se eu não fosse uma só, é como se eu não fosse nenhuma. Nem inteiro, nem metade. Apenas uma parte de... De quê? Inteira, eu acho que não sou, mas ter algo que me completa é... Improvável. Fruto da decisão de nunca esperar demais ou só um reflexo de não acreditar em algumas coisas? O impossível é só questão de opinião, ok, mas nem só de opinião vive o coração.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Migalhas

Pedaço daqui, uma porção de lá. Um pouco de cada, uma miséria do seu tempo, apenas uma fração da sua alma para alimentar o pouco que temos. Ah, por favor! Na verdade, cansei. Não me venha com as mesmas migalhas que jogava aos pombos! Quero tudo. Se não puder, ou não quiser, obrigada. Não quero nada.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Por um passe de mágica


- Feche os olhos... – Ela disse antes de ir, para que ele não fosse obrigado a ver o momento do seu último suspiro.

E me imagine respirando.

Bruno era um renomado mágico, conhecido e aclamado por todo o mundo e, talvez, até além dele. Viajava por todos os continentes fazendo shows e realizando feitos que muitos diriam impossíveis.

Um dia estava levitando por cima do prédio mais alto do mundo, no outro, havia feito sumir um grande e conhecido monumento histórico ou então colocava as pessoas em transe para que lhe contassem seus segredos obscuros. E sujos. Tudo com a ajuda da sua filha e do mascote, que hoje vaga pelas ruas imundas da cidade por ter sido esquecido pelo dono. Mas isso, caro leitor, não vem ao caso.

O foco dessa história é Bruno, o mágico que se julgou capaz de tudo.

E que enlouqueceu ao descobrir que não era Deus.

Acontece que Bruno não era arrogante ao ponto de dizer que conseguia fazer qualquer coisa, mas as pessoas o chamavam imbatível. E, quando se fala demais uma mentira, ela tende a se transformar numa verdade.

- Eu preciso... Preciso de mais... Parafusos.

Saiu do laboratório e foi até o porão pegar outra caixa que continha parafusos de diversos tamanhos. Haviam algumas engrenagens jogadas ao lado que ele decidiu levar para o andar de cima só por garantia. Não que se importasse em descer novamente as escadas. Para fazer o que precisava fazer, era capaz de tudo.

Abriu a porta do que antes era uma biblioteca e encarou a figura do seu mais recente experimento. E importante. Já fazia mais de duas semanas que Bruno havia visto sua filha morrer. Fazia mais de duas semanas que ele tentava, a todo custo, ressuscitá-la.

Para qualquer observador comum, o corpo em pé no centro do aposento parecia um absurdo profanador. O sangue havia sido limpo e a pequena menina ficava em pé, sustentada por suportes metálicos e rodeada de ferramentas e peças diversas.

Seu nome era Natália e seus cabelos, loiros como o sol, escorriam, sem vida alguma, até o meio da cintura fina. Os olhos verdes desbotados estavam abertos fitando o nada, vidrados.

A pele, outrora pálida, também estava verde, mas esse tom era bem menos elegante do que o que adornava seu rosto.

Bruno já havia tentado mil e uma vezes, feito mil e uma experiências para obter sucesso. Havia caminhado desde o clássico choque para ressuscitar até o passo de abrir o tórax e fazer bater, ele mesmo, com suas próprias mãos, o coração.

Não acredito que seja preciso dizer que nosso protagonista não conseguiu trazer a filha de volta à vida. Mas, de qualquer forma, sendo necessário ou não, que fique claro que ele não conseguiu fazê-la respirar. Natália ainda é mantida de pé pelos suportes elaborados por um homem desesperado enquanto o pai enlouquecido encaixa parafusos, engrenagens e placas de metal em seu pequeno e delicado corpo. Talvez, em algum momento futuro, ele consiga realizar seu sonho. Talvez ele morra tentando e não se importe com isso.

Bruno era um mágico conhecido mundialmente por seus feitos fantásticos. Um dia estava cortando mulheres ao meio e, no outro, estava fazendo aparecer milhares de pombas numa pequena cartola. Mas isso, caro leitor, não vem ao caso.

O foco dessa história é Bruno, o mágico que se julgou capaz de tudo.


E que enlouqueceu enquanto tentava ser Deus.

domingo, 15 de janeiro de 2017

De qualquer jeito


Focar nas tarefas, esquecer o que não faz bem, fechar os olhos para o que acontece com o resto do mundo, desligar a mente. Respirar fundo, uma, duas, talvez três vezes. Engolir o pouco de ar que te resta e o orgulho. Não, mentira. O orgulho não. Deixa esse intacto que é uma das poucas coisas que ficaram. Depois vai passar, de qualquer jeito.

Ignorar o passado porque você não pode fazer nada por ele, não planejar o futuro porque ainda não chegou e não ficar pensando no presente. Esse sempre foi um dos seus grandes defeitos: pensar demais e sentir de menos. Não que não exista sentimento nesse momento, mas vale como uma nota para o futuro do qual você não quer lembrar.


Ver um vídeo engraçado, ouvir música, ler alguma coisa, tocar algum instrumento, tomar um porre daqueles ou então ir dormir e só acordar no dia seguinte. Faça alguma coisa. Qualquer coisa. Ir para uma daquelas festas sem sentido, talvez, se enturmar com desconhecidos que nunca mais vão ligar ou então simplesmente ficar só e se afundar na própria tristeza. Sem incomodar ninguém. Porque depois, de qualquer jeito, vai passar.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Possuída


- Pater Noster quio est in ceali – A voz fraca ecoou por todo o quarto escuro, causando estremecimento em todos os lugares possíveis. As cortinas estavam fechadas, todos os espelhos haviam sido cobertos e o resto da casa estava em completo silêncio para que nada saísse da forma errada.

Os olhos, completamente brancos, se fecharam enquanto o rosto redondo se retorcia numa careta medonha. Então era verdade. O corpo de Matthew estava mesmo possuído por um demônio.

Depois de falar em línguas estranhas, jogar uma cadeira de madeira contra a parede e expor segredos obscuros do padre, aversão ao sagrado era o último sinal de que o garoto estava mesmo com um filho do diabo habitando seu pequeno corpo.

Não que existisse alguém no pequeno povoado que duvidasse do fato. Stuart, o padre, havia feito as constatações mais por padrão do que por ausência de certeza. De qualquer forma, era melhor começar a expulsar o ser inferior que tomava a alma da criança para si antes que fosse tarde demais para qualquer um.

Pegou o copo de água benta com uma mão e o livro sagrado com a outra, olhou fixamente os olhos arregalados por um instante antes de começar a ler um salmo qualquer em latim. O demônio impulsionou o corpo de seis anos em cima do padre antes que qualquer outra pessoa pudesse evitar o choque.

- Beatus vir, qui non abiit in consilio impiorum et in via peccatorum non stetit et in conventu derisorum non sedit… - Os gemidos esganiçados fizeram com que o peso do garoto sumisse de cima de seu corpo em menos de um segundo. Matthew, agora, estava encostado na parede oposta como se quisesse atravessá-la para não ter que ouvir as palavras sagradas. Os olhos haviam perdido a cor branca para abrigar um tom vermelho sangue que só deixava a careta que distorcia o rosto pálido ainda mais medonha.

- Acha mesmo que pode me expulsar quando até mesmo você duvidou da existência de Deus?! - O demônio perguntou. A voz distorcida fez os pelos de todos se arrepiarem.

Stuart, aparentemente inabalado e experiente, continuou sua ladainha em latim por mais um bom tempo enquanto o ser do submundo recitava os vários pecados que o servo de Deus havia cometido.

Além do demônio, da criança – juntos na mesma carne – e do padre, estavam no pequeno quarto do casebre de madeira a mãe, o pai e os dois irmãos mais velhos de Matthew. A presença da família, segundo o padre, era muito importante para que o demônio fosse obrigado a se retirar do corpo do menino. Então, mesmo com o medo que tomava conta de seus estômagos, a família de Matthew havia concordado em assistir ao ritual inteiro. Pelo filho mais novo, todos disseram.

As mãos do padre se ocuparam borrifando água benta por todo o quarto de Matthew, que se contorcia e gritava imprecações. Aos poucos, seus gritos foram ficando mais fracos e os movimentos desesperados se tornaram lentos até que finalmente cessaram. A única coisa que se movia no quarto era o pequeno tronco da criança, respirando lentamente. Em silêncio, toda a família encarava a criança estendida no chão, com os braços abertos. A cor de seus olhos aos poucos voltava ao normal e todos voltaram a respirar normalmente.

Exceto a mãe. Ela ainda estava parada, perto da porta, tentando mexer os próprios pés, mas sem conseguir sair do lugar. Lágrimas escorriam de seus olhos enquanto a mulher contemplava cada uma das pessoas presentes.

- Mamãe? - A irmã mais velha de Matthew chamou-a e todos os outros encararam as costas encurvadas da mulher.

- Você deixou o Nathan te tocar.

Os olhos azuis da menina ficaram arregalados. Como a mãe sabia daquilo? E por que escolhera justo esse momento para confrontá-la?

- O que? - O pai perguntou, sem entender o que estava acontecendo.

- Essa rameira! – A mãe gritou mais alto. – Deixou que o filho dos Allison tocasse em seus seios!

- Lennie! – O pai berrou, sem acreditar no que ouvia. Àquela altura, nenhum dos quatro familiares se lembrava de Matthew, estendido no chão. – Como pôde deixar um homem te tocar?!

- Eu... Eu... – Os olhos azuis de Lennie estavam apavorados pela perspectiva do que poderia lhe acontecer agora que os pais sabiam do seu pior pecado. Não entendia como a mãe havia descoberto, mas aquilo não importava mais.

Ou importava. A garota só não percebeu isso até ser tarde demais.

Na verdade, ninguém havia entendido nada antes da mãe do garoto matar os dois filhos mais velhos e o próprio marido.

Ela se aproximou da filha numa velocidade inumana e puxou seu cabelo com tanta força que quebrou o pescoço da menina. O próximo foi o filho do meio, que teve sua cabeça arrancada do corpo com uma facilidade assombrosa. O marido, por sua vez, teve seu coração esmagado contra o tórax.

Stuart e Matthew só foram poupados por causa da água benta que estava em seus corpos. O demônio bem que tentou matá-los, mas a pele do corpo em que ele estava instalado começou a queimar e a mulher teve que fugir para não ser capturada pelos outros moradores do vilarejo.

--

Cinco anos depois

Stuart se olhou no espelho e viu um homem velho, magro e vestido pelo gosto de culpa que habitava sua boca desde o dia da sua ruína como padre, há cinco anos. Matthew, agora com onze anos, vivia no orfanato de uma cidade próxima e nunca conseguiu se lembrar de nada do que acontecera na noite em que toda a sua família havia sido morta.

Mas ele se lembrava. Stuart se lembrava de cada detalhe e dos olhares horrorizados que lhe fitaram logo antes de ficarem opacos e preenchidos pela gélida cor da morte. Aqueles olhares passaram a ser seus pesadelos particulares. Todas as noites vinham para lembrá-lo do terrível erro que cometera ao deixar de banhar os outros membros da família com água benta.

Entrou na banheira e ficou pensando em Matthew e em como fora injusto ele ficar sem uma família por culpa de um erro idiota. Pensou também na mãe, que havia sumido no mundo e só Deus sabia se o demônio a havia poupado ou não. E pensou em si mesmo e em como seria fácil simplesmente parar de passar água benta pelo corpo flácido todos os dias. Mas ele era covarde e se lembrava perfeitamente da careta no rosto jovem da mãe das crianças dizendo que voltaria procurando por vingança.

Ao acabar o banho, o velho padre fracassado se secou, enrolou a toalha na cintura e foi até o quarto para pegar a garrafa de água benta que usava como proteção contra os maus espíritos. Foi quando sentiu um vento frio roçar suas costas nuas e viu a garrafa quebrada e o líquido transparente sendo absorvido pelo tapete de pele de alce que ganhara em seus tempos de glória.

- Pensei que você não fosse mais voltar. – O padre falou para a figura que estava de pé, perto da janela aberta.

- O erro dos humanos é esquecer. – A voz estava rouca, distorcida por qualquer coisa, estava bem diferente do que ele se lembrava. Os pés sujos, a roupa rasgada... Apenas uma coisa era a mesma: o olhar. – E, também, acreditar.

Tomando o cuidado de evitar o tapete molhado com água benta, a figura se aproximou do padre e parou a centímetros de distância de tocar o rosto dele com o seu.

- Seu destino é retornar ao inferno, filho do satanás. E arder eternamente nas chamas insuportáveis.

- E o seu destino, sou eu quem decido, padre Stuart.


Ela ergueu uma mão e apertou o ar. Os olhos de Stuart se esbugalharam enquanto ele sentia sua traqueia ser pressionada e o ar ser impedido de chegar aos pulmões. Não havia mais o que fazer. Seria melhor se acostumar de uma vez com a sensação de estar morto.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Dó, a dor

Ela caminha todo dia pelos corredores do hospital sem ter para onde ir; numa torpe tentativa de fugir das quatro paredes que insistem em sufocar seus desesperados gritos de dor. Fala com todos e com ninguém, passa o tempo procurando por alguém que possa lhe ajudar a ter o simples prazer de respirar.
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