quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Ganhando as estrelas


Desafio: escreva um texto de cem palavras apenas com perguntas.

- Como se sente?

- Bem, obrigada. E você?

- Mas não parece o fim do mundo para você?

- Por que pareceria?

- É que... seu peito dói, não?

- Dói, mas nem tudo que dói é o fim do mundo. Não acha que a dor tem um lado positivo?

- Tem?

- E a felicidade? Como eu saberia que ela existe se não houvesse o sofrimento?

- E onde está a felicidade no término do seu longo casamento?

- Eu não vejo as estrelas agora?

- Estrelas?


- Sim. Não perdi meu teto? O que existe além dele?

terça-feira, 29 de novembro de 2016

29-11-2016


Não há muito o que falar. Na verdade, não há nada que possa ser dito que tenha efeito imediato. Nesses momentos, talvez seja melhor aceitar a mudez que nos persegue e deixar que tudo se acalme, se assente, volte para o seu lugar.

O que não vai ser fácil. Nunca é. Não quando a dona morte chega e leva muito mais do que almas e corpos com ela. Ela levou sonhos, esperanças, amores, pais, filhos, tios, primos, maridos, companheiros, amigos, irmãos; estes últimos, se não de sangue, de coração. Do coração de cada um da torcida Chapecoense e de todos os outros times brasileiros; de um país inteiro.

Como eu disse, palavras não bastam, não são o suficiente e nem nos vêm à mente nesses momentos. Só nos resta usar o que nós temos: nossos abraços, corações, nossas preces e nossa fé.
(29/11/2016)

#RIPChapecoense
#ForçaChape

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Caprichosos destinos


- Aquele ali, Cupido! – O senhor de cabelos e barbas brancas disse, enquanto fazia uma dancinha de alegria.
- Será que tem como parar de pular como se fosse uma gazela louca?!  - O tinhoso com chifres vermelhos sempre detestava o jeito como o velho ficava dançando.
- Deixa de ser chato, Satanás! É que eu estou...
- Adorando essa brincadeira... – Lúcifer, Cupido e Rafael completaram juntos a clássica frase de Deus enquanto reviravam os olhos.
- Já falei que prefiro “Lúcifer”. – Os olhos do ex-anjo ficaram vermelhos de raiva.
- Tanto faz. – Deus descartou a ideia com um aceno da mão direita. – É aquele ali mesmo, Cupido. Pode acertar.
Uma flecha voou do arco do jovem anjo até o pichador, logo à frente do quinteto formado por Deus, Satanás – ou Lúcifer, como preferir -, Cupido, o arcanjo Rafael e o demônio Aamon.
- E agora? - Cupido perguntou.
- Agora é a minha vez. – Lúcifer sorriu e balançou as mãos no ar, apagando a cena à sua frente. – Vamos deixar isso interessante... – Rafael suspirou e Aamon, que não era muito de falar, sorriu. – Aquela.
- De novo não... – Rafael gemeu.
- Ótima escolha, chefe. – Aamon aprovou. Os outros quatro o encararam, esperando a próxima palavra, mas ele não disse mais nada desde então.
Quando percebeu que o demônio não completaria seu pensamento, Cupido atirou a flecha.
- Você é doente... – Rafael declarou.
- Doente por quê? - Lúcifer perguntou.
- São completamente opostos! Ele é um pichador que mora na rua! E ela é uma socialyte!
- E daí?
- E daí que eles vão...
- Se apaixonar, se casar e ter filhos. Assim como a bíblia diz. – Deus sorriu, examinando as cutículas.
- Não vamos começar a discutir o que a bíblia diz de novo. Já fizemos isso por mais de vinte e um séculos, deixa para os humanos, que fazem isso muito bem. – O anjo caído virou o rosto para o outro lado, como que para dizer que não iria participar daquela velha discussão novamente.
- Como quiser. – Deus deu de ombros e continuou examinando as próprias unhas enquanto completava: - eles vão se apaixonar, se casar e ter filhos.
- Não! – Rafael gritou, exasperado.
- Não mesmo! – Lúcifer concordou. – Isso não é um conto de fadas.
- Por que você nunca deixa as coisas serem como eles querem? - Deus perguntou.
- Porque é mais engraçado quando não são... Eles podem se conhecer e se odiar no início...
- Clichê.
- Podem se divorciar, então.
- Todos eles fazem isso hoje em dia.
- Reprovados pela família dela?
- Ah! Que soninho! – O Todo Poderoso bocejou.
- Ela pode querer pular de um prédio e ele...
- Por que as pessoas acham que você tem cara de mau, Satanás?
- Mas eu ainda nem terminei!
- Tanto faz! Eu acho que ela deveria dirigir embriagada pelas ruas e atropelá-lo. Assim, vai se lembrar dele para sempre.
As outras três entidades olharam para o semblante calmo de Deus com os olhos arregalados. Aamon sorriu novamente, Rafael e Cupido não esboçaram nenhuma reação e Lúcifer soltou um assovio que queria dizer “genial”.
- Pronto? - Cupido perguntou. Os outros concordaram, ansiosos pelo resultado de mais aquela ideia brilhante de Deus. – Feito. – Anunciou. - Mais um destino traçado.

domingo, 20 de novembro de 2016

Olivia


O veneno escorria tanto pelos lábios que gostaria de estar usando batom vermelho. Mas não poderia, seria vulgar demais para a ocasião. Detestava as regras impostas por pessoas com sérios problemas sexuais. Como se um terno e palavras difíceis pudessem resolvê-los num passe de mágica, numa hora de elegância.

De qualquer forma, com batom vermelho ou não, o fato é que Olivia fazia suas vítimas se enforcarem com a própria língua. Era uma coisa agradável de se ver, por mais bizarro que possa parecer inicialmente.

A juíza, de estatura baixa e um tanto quanto magra demais, sorriu para o promotor. Dessa vez, ele era o seu preferido. Definitivamente. Tanto pela sua imagem imponente quanto pelas palavras ferinas. Lembrava-se de quando era ela em seu lugar e sentiu saudades de argumentar, discutir. Sentiu saudades de ganhar.

Ah, mas ela ganharia. Claro que ganharia. Se não hoje, amanhã. Não era o tipo de mulher que se permitiria perder tão facilmente. Não sem uma briga decente.

Se alguém perguntasse o que o homem vestido por um terno cinza, que apenas insinuava a existência de bons músculos por baixo de tudo, falava, Olivia diria que não se importava. Já havia decidido quem venceria aquele duelo em particular. O resto era o resto e pronto.

Havia planejado tudo apenas durante o breve tempo da argumentação. Ela o chamaria para sair, para tomar um drinque, talvez. Ele inventaria uma desculpa qualquer, afinal era casado, mas desistiria da negativa no meio do caminho. Todos desistiam.

Ele, então, ligaria para a mulher e inventaria alguma reunião de urgência do ministério público ou alguma discussão que só poderia ser feita de noite. Desculpa é o que não falta. Ambos sairiam do fórum no fim do expediente e iriam para algum restaurante discreto ou para o apartamento que Olivia reservava para esse tipo de ocasião.

Ambos acabariam no quarto dela e sem roupas. Estas, estariam espalhadas pela sala, cozinha, banheiro ou quarto. Formariam uma trilha pelo apartamento levando qualquer visitante até o destino final dos dois amantes.

Entre beijos, suspiros, gemidos e sussurros, ambos teriam uma noite memorável.

Se saciariam, ela se saciaria dele em algumas horas e então poderia fornecer-lhe o grand finale. Usando os pedaços remendados das línguas de outras vítimas para criar uma espécie de corda grande o suficiente para pendurar no lustre e dar a volta no pescoço do promotor, Olivia penduraria o inerte servidor público no lustre e veria o corpo exposto e morto pelo instrumento que ele mais usava: sua língua.

Sumir com o corpo e fazer desaparecerem as evidências eram a parte mais fácil. Naquele ramo, lidando com gênios do crime, não era muito difícil de aprender com os erros dos melhores.

No dia seguinte, Olivia voltaria ao fórum e algumas pessoas se dariam conta do sumiço do promotor. Algum alvoroço durante algum tempo e, como sempre, nenhuma resposta concreta, nenhuma explicação plausível; apenas teorias de conspiração nunca confirmadas.

Seria a sua vitória. Apenas uma de muitas outras.

Bateu com o martelo na mesa e proferiu a sentença. O réu fora condenado, o ministério público, mais uma vez, obtivera sucesso. Olivia sorriu e passou a língua pelos lábios antes de pedir ao promotor que a acompanhasse até seu gabinete.


Que os jogos se iniciassem.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Ao meu futuro namorado


Oi, tudo bom? Bom... você deve ser - pelo menos eu acho que é - o meu futuro namorado. Na verdade, eu não sei. Desculpe por isso, mas eu não sei de muitas coisas que gostaria de saber. Essa é uma das minhas características: a curiosidade incessante. Eu até que consigo controlar, mas é inevitável que ela me corroa por dentro de vez em quando – ou sempre.

Mas vamos direito ao ponto.

Se você chegar ao status de “namorado” é porque merece. Não porque eu sou uma pessoa exigente - não muito e não com tudo -, mas porque domesticar a fera que tem aqui dentro e tudo o que vem junto com ela é uma tarefa que, até hoje, ninguém conseguiu fazer completamente. E nem vai, porque mudar por outra pessoa não é algo que eu pense fazer. Mas esse é um assunto para outra hora. Vamos adiante, antes que eu me perca.

Sobre curiosidade, o que eu queria dizer é que você pode perguntar tudo o que quiser. Eu não me importo, de verdade. Talvez eu faça uma ou duas piadas, mas vou achar fascinante essa sua curiosidade. Meu jeito de descobrir as coisas é mais silencioso, observador e menos direto. Então, não ache estranho se me flagrar te observando pensativamente, é que eu só quero conhecer cada aspecto da sua mente e decorar cada traço do seu rosto.

Quanto aos planos, é claro que os faremos. Eu, sendo racional como sempre e você, sendo como quem quer que seja. Provavelmente eu não vou me lembrar do presente no dia do seu aniversário e vou me surpreender quando você chegar com o meu, que, por sinal, pode sim ser algo clichê. Adoraria ganhar algo criativo e inovador, mas flores também me cativam.


Peço que, quando disser “eu te amo”, que seja de coração, que seja verdadeiro e que tenha certeza. Não farei nada que seja diferente disso e nem quero que você o faça. Por fim, prometo que, quando eu me apaixonar, vou fazer tudo o que eu puder para te fazer melhor.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Beijos, blues e poesia


Inspirado na música “Beijos, blues e poesia” da banda K-sis

Que amor de verão não sobe a serra, todos sabem, mas voltar aqui fez com que eu me lembrasse de você, menina. Deixar todo aquele cinza e a poeira da cidade grande para contemplar esse céu azul me fez lembrar de nós dois, do sal na minha pele, da praia, do sol escaldante e de como você ficou sem fazer contato. E eu, louco para te encontrar de novo. Doido por uma pista sequer. Por você. Foi culpa minha? Sua? Ou só o destino jogando na minha cara o que eu sempre soube: amores de verão têm a durabilidade de uma só estação.

Agora, um ano depois, tenho completa certeza de que o feitiço se voltou contra o feiticeiro. Assim como eu fiz com outras mulheres, você apenas passou por mim e não mais voltou. Será que, assim como eu, menina, você estava fugindo de relacionamentos sérios? De se apegar demais? Será que, assim como aconteceu comigo, alguém lhe deu o troco por brincar demais com corações de verão?

Voltando no tempo, sinto a areia e o sal pinicando minha pele e sua língua aquecendo meu corpo novamente. Eu estava chegando tão perto de cair que acabei fazendo juras de amor. Logo eu... Imagine! Eu fazendo juras de amor! Mas, para a minha felicidade, não era o único. Ali, na areia, com meus lábios lhe incendiando e com a música de um bar qualquer ao fundo, você também me fazia juras de amor, menina. E éramos tão convincentes que nem mesmo nos demos conta de que nunca mais iríamos nos ver. Mesmo sabendo que as palavras ditas na hora do sexo nunca devem ser levadas a sério, eu acreditei.

Voltando ao tempo presente, não me entendo. O sol de rachar em cima da minha cabeça me deixa com frio, as pessoas à minha volta são vagamente percebidas. As lembranças da noite de um ano atrás são intensas demais... De que penhasco me joguei?

Me pergunto onde é que você está. Passei dias te procurando em tudo quanto é canto, em todos os lugares que você disse que já visitou. Espero, em vão, a qualquer momento, te encontrar.

Tolice. Não passamos mais do que uma semana juntos e as chances de te ver são quase nulas, para não dizer “inexistentes”. O problema é dizer isso ao meu inconformado coração.


Enquanto ele não se convence, eu fico aqui, olhando para a praia, escrevendo cartas que as ondas vão levar diretamente ao fundo do mar.

sábado, 5 de novembro de 2016

Metamorfose


Azul, dourado, cinza e verde.
As luzes de natal piscam, vívidas,
nenhuma consegue ser mais brilhante
que as cores que vejo em seus olhos.

Depois de um longo tempo sem te ver,
admirei-as em azul, claras, belas e límpidas,
com reflexos dançando em ouro cintilante;
nebulosas, enquanto nos fundimos num só.

Em verde se transformam seus olhos nas fotos;
os reflexos do sol habitando suas extremidades
e o cinza, que é a calma que vem antes da tempestade.

Agora me encaram, gélidos, com a cor dos mortos;
suas íris, fixas, donas de toda uma calma fria;
vidrados, não guardam a vida que antes eu via.
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