sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Eu


Eu, que pensei não ter mais lágrimas, que me julguei transformada em pó e imaginei que estava rouca demais para gritar. Eu, que me achei calejada demais para sofrer, queimada demais para arder, gelada demais para me arrepiar e morta demais para sentir.

Eu, que me vi como um zumbi vítima dos próprios pensamentos sórdidos e macabros, que me julguei louca por ter no peito um coração destroçado, que coloquei o cérebro na frente do peito antes de pisar em qualquer terreno suspeito.

Eu, que briguei com o espelho por autocontrole, me vi desabando sobre os destroços de mim mesma.

domingo, 25 de setembro de 2016

Antes e depois


O mundo era sombrio, frio. E pairavam trevas sobre a face do abismo. Eu não sabia quem, como, onde ou por quê; eu não conhecia nem as perguntas que eu deveria fazer. Existia o espelho, mas eu não via meu reflexo por falta de luz. Eu sentia algo; medo, angústia, alegria, mas eu não conseguia enxergar as coisas que me faziam sentir. Eu não sabia o motivo e nem me importava com as razões. Depois, quando você apareceu, eu enxerguei por alguns minutos. Diferenciei cores e senti tudo com ainda mais intensidade. Eu amei. E depois, quando você foi embora... Depois mais nada.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Divagações de um dia qualquer - II


As superfícies vão mudando constantemente. Algumas vezes rápida, outras, lentamente. Às vezes são como algodão ou espuma, outras parecem brasas, ardentes. Meus pés ficam calejados, maltratados, meu corpo cansa, descansa e volta novamente para a estrada. Encontro pessoas, conheço diferentes almas e pensamentos. Apaixono-me por uns e outros que se vão ou que escolhem caminhar ao meu lado. Alguns me encontram no meio da estrada, passam uma estação ou várias ao meu lado. Outros ficam só por uns dias, não mais que algumas poucas semanas. E existem os que nunca voltaram, os que nem ficaram tempo o suficiente para serem chamados de lembrança. É por eles que eu mais agradeço, porque toda noite "livrai-me de todo o mal" eu peço.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Depois que a porta se fechar


Ainda no escuro, seu corpo entre o dele e a parede. Línguas dançando, passeando pelo veludo da pele e pelo aço dos músculos. Roupas rasgadas, ao chão atiradas; mãos sedentas, coxas úmidas. Dente e carne, unha e carne; e suor e saliva e gozo; transformados num só. Membro ereto, duro e fundo. Orgasmo.

sábado, 10 de setembro de 2016

Algum drama qualquer - IX


Não sorriu porque não sentia vontade de sorrir e nem achava que era uma situação adequada para sorrisos. Não falou porque não tinha nada que pudesse dizer e porque já tinha dito tudo o que precisava. Não chorou; se julgava incapaz de chorar. Ele apenas segurou firmemente as pequenas mãos da filha antes de abraçá-la apertado e beijar-lhe a testa como sempre fazia desde que sua menina havia nascido. Não entendia como o tempo havia passado tão rápido e não queria aceitar que sua garota havia crescido, que ela precisava viver a própria vida em um lugar tão longe de casa.

Se pudesse, falaria tudo o que queria e a levaria embora com ele, para o lugar que ela nunca deveria ter deixado. Sorriria quando ela concordasse em lhe acompanhar e, talvez, só talvez, deixaria uma lágrima escapar. Se pudesse, ia ainda mais longe, voltaria no tempo, até aquele primeiro momento, em que viu sua boca se abrir e escutou o berreiro como se fosse música de ninar. E ficaria parado ali. Congelado. Com a mesma cara de tacho que sempre ficava quando ela o deixava sem palavras. E ela quase sempre o deixava sem palavras.

Se pudesse, guardaria ela numa caixa de vidro só para poder observá-la pelo resto dos seus dias.

Mas não podia. E como não podia, limitou-se a abraça-la e a dizer que ela sempre poderia voltar para casa.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Assim fica fácil


Assim é fácil te amar. Contemplar seus olhos castanhos, sua boca bem feita e seu sorriso acolhedor. Até consigo sorrir ao te olhar. Desse jeito, consigo pensar em toques suaves e carinhosos, beijos quentes e noites de amor intensas. Assim, é fácil te imaginar como meu príncipe encantado.

Desse jeito eu consigo ficar feliz em te ter por perto. Consigo imaginar sua voz sussurrando em meus ouvidos enquanto seus dedos fazem maravilhas pelo meu corpo. Assim eu até consigo te amar. Um enfeite na prateleira, incapaz de me fazer mal, preso dentro da caixa de vidro que coloquei sua cabeça.
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