sábado, 30 de julho de 2016

Análises de um barman


Há quem chore, quem conte seus problemas a outras pessoas, há quem os grite ao vento numa noite de lua cheia.

Existem pessoas que choram em situações de crise, que confiam num psicanalista, pessoas que se permitem contar tudo a algum amigo.

Algumas explodem, outras se derramam; algumas meditam, outras se recolhem dentro de si próprias e esperam a poeira abaixar, a dor passar.

Mas há quem se mantenha firme e frio. Há quem não se abale por muito e, quando se abala, apenas enfrenta tudo como deve ser enfrentado e como se nada pudesse lhe destruir. E não pode. Sua força está no equilíbrio e racionalidade que usa em todos os momentos, sem nenhum tipo de descanso. Não porque não quer, mas porque não consegue.

Esses, meu caro, são os piores, os que mais sofrem; os que se torturam constantemente, calados, solitários.

É a esse tipo de gente que você não pode, em hipótese alguma, negar o restante da garrafa.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Algo sobre a saudade


Todos os dias ele aceitava o que ela lhe oferecia e pedia por mais um pouco. Apesar da expressão de desagrado em seu rosto, Alessandra sempre acabava entregando metade do pão com manteiga. Recentemente, ela disse a si mesma que não iria comer tudo e daria metade a ele, não conseguia comer direito há dias.

Todos os dias ela saia de casa, com um lenço na cabeça. E ele ia atrás, abanando o rabo, feliz da vida por ver o céu e o sol. Alessandra só levava uma guia consigo para o caso de algum desesperado começar a ter um ataque de pânico, o que raramente acontecia.

Não, o pitbull não atacava pessoas ou corria pela rua feito um doido, tentando fugir. Também não era adestrado. Alessandra dizia que o cachorro só ficava ao seu lado porque ele mesmo havia escolhido assim.

Quando era mais novo, eles discutiam com certa frequência, por causa de uma coisa ou outra que aparecia despedaçada. Foi assim que ganhou seu brinquedo favorito. Como ele detestava todas as bolinhas, Alessandra resolveu deixar um all star branco encardido para o cachorro morder de vez em quando. E ele passava o dia todo comendo aquilo ou levando o tênis para que ela o jogasse em algum lugar distante. Era o seu preferido, principalmente, por ter o cheiro dela.

É por isso que ele agora está deitado, encolhido num canto, com a cabeça em cima do sapato. Acho que ele sente o cheiro dela naqueles cadarços. Mais ainda, acho que ele espera que ela volte para busca-lo. E meu coração dói por isso. Como explicar que Alessandra nunca mais vai voltar?

Ele também não come. Por isso eu o trouxe aqui, doutor. Acho que ficou doente de tristeza, desde que a minha irmã faleceu. Nem um único grão de ração. A única coisa que ele comeu desde então foi a metade de um pão com manteiga. A outra metade ele não quis. Nem me deixou pegar também. Fica lá, ao lado do sapato, intocado. E toda vez que alguém se aproxima, o cachorro começa a rosnar.

Também tentei tirar o sapato, mas os dias e noites chorando foram os piores que eu já passei. Não sei mais o que fazer. Será que o senhor pode me ajudar, doutor, por favor?

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Amorto


Meu amor é branco
Pálido como a neve que cobre a cidade
E é simples, franco
Insuficiente em nossa brevidade

Meu amor tem cicatrizes em seu torso
Está ferido por ter se acidentado
Ele tem se transformado em choro
e de tanto sofrer se sente acabado

Meu amor fechou os olhos
Não me enxerga mais
Está inerte, apático, morto

Não o vejo mais sorrir
Seus lábios estão cerrados
E seu corpo, enterrado.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Alguma crônica qualquer - III


Batom vermelho, delineador meio borrado, mancha de rímel na pálpebra. Mas o que todos enxergam é o vestido vermelho colado, do mesmo comprimento de uma blusa que é um pouco maior que o tamanho certo para ela. Se ela se abaixar... Ah, ela não pode se abaixar. Mas se abaixa mesmo assim.

Também costuma usar uma saia que mais parece cinto, mas esse é só pros dias em que ela está bandida e muito afim de farrear. Hoje, veio de moça recatada.

No baile, no show, na have, na festa, na escola, na igreja, vai até o chão e ainda se vira do avesso. Bebe todas e deixa que todos a bebam, provem e se fartem. Assim se sente madura, adulta. Assim se faz mulher.

domingo, 10 de julho de 2016

A disney não compraria este conto



Inspirado nos contos da Chapeuzinho Vermelho e do Rumplestiltskin dos irmãos Grimm

Rúbia lavou o rosto com água fria e se olhou no espelho. Ficou examinando os próprios olhos, sem saber muito bem como se definir. Não sabia mais como era ser livre, não sabia onde é que estava a luz que não existia mais em seu olhar.

Antes de ir embora, Rudolf deixou um cheque assinado em cima da cama. Era o pagamento pelos "serviços" que lhe foram prestados. Rúbia gostava de acreditar que os fins justificavam os meios, e, portanto, sua consciência se aliviava ao saber que, no fim das contas, abrir as pernas para um ricaço qualquer lhe permitiria sustentar o asilo por mais tempo.

Sim, sempre foi por amor. Mas por um amor bem mais importante que o que ela nutria por si mesma.

A quantia manteria a casa de repouso onde Rúbia era voluntária por mais algumas semanas e, se ela continuasse em seu lugar, ao lado de Rudolf Stiltskin, mais cheques surgiriam e mais felizes os moradores do asilo ficariam. E era só isso o que importava.

Na sua opinião, Stiltskin era um homem asqueroso, nojento e sem escrúpulos. Seus olhos não abrigavam qualquer tipo de emoção e a voz era falsamente gentil. Não era bonito, e nem o havia sido quando jovem. Sua única virtude provinha da mente sagaz. Mas, para a maior parte das pessoas, sua conta bancária ultrapassava os limites da beleza e da simpatia. E era delas que ele mais se aproveitava.

Há cerca de cinco meses, começou a soar o boato de que o asilo seria fechado por falta de dinheiro. O principal colaborador estava desistindo de ajudar porque o diretor não queria mais cumprir algum acordo que haviam feito anos atrás. Algo sobre usar o instituto para lavagem de dinheiro, pelo que Rúbia havia entendido. O problema era que, querendo ou não, pessoas dependiam dos negócios escusos do milionário e não seria justo que elas fossem afetadas por isso.

Enquanto alguns desistiriam e deixariam o asilo dependendo apenas da sua própria sorte, Rúbia e Hunter, o diretor do asilo e namorado da jovem, se preocupavam com o que poderiam fazer para ajudar. Passaram horas discutindo uma saída alternativa, que não envolvesse risco para mais ninguém, sem sucesso algum. Pelo tempo de convivência, Hunter sabia quem Rudolf era e conhecia as artimanhas do velho para conseguir o que queria, sem nunca perder nada.

E, apesar de todos os avisos preocupados do diretor, a moça resolveu arriscar. Tentaria conversar com Rudolf e apelar para algum resquício de humanidade que acreditou que ele fosse capaz de guardar dentro de si.

Mas ela não estava preparada para Rudolf Stiltskin ou para nada do que ele tinha a lhe dizer. O único jeito de manter aberto o asilo seria se tornar amante do milionário e quebrar qualquer tipo de vínculo que existia entre ela e Hunter tendo como motivo apenas seu capricho de causar sofrimento alheio.

Dividida entre a lealdade ao homem que amava e aos idosos que idolatrava, Rúbia escolheu o caminho que seria a solução a curto prazo para o problema mais grave. Depois eles arrumariam outro colaborador para manter o asilo funcionando.

Mas Hunter não pensava assim e não quis nem saber de fazer Rúbia de escudo para proteger ele mesmo e o asilo. Não houve nem discussão sobre isso e sobre o plano de ganhar tempo, apenas a despedida repleta de lágrimas e palavras frias. Se ela cogitava aquilo, não precisava nem olhar na cara de Hunter mais.

Nesse momento, um barulho seco ecoou pelo quarto e Rúbia saiu do transe no qual se encontrava. O passado deixou de tomar conta da sua mente e ela balançou a cabeça para clareá-la. Alguém batia à porta.

Enxugou o rosto e deixou Hunter para trás. Ele não poderia mais povoar seus pensamentos. Não quando quem dividia a sua cama era outro e quando ele mesmo disse que nunca mais queria vê-la. Era melhor assim.

Ou não. Porque quem estava olhando-a através do olho mágico era o próprio Hunter, em carne e osso. Seu coração acelerou e um fiasco de esperança começou a crescer dentro de seu peito, por mais que ela tentasse evitar esse tipo de ilusão se formar.

Abriu a porta e se viu sendo agarrada e lançada contra a parede do quarto. Em algum momento a porta foi fechada e seus corpos começaram a rolar em cima da cama, com o desejo de semanas finalmente vindo à tona. Por algumas horas, esqueceram-se do resto do mundo e de todas as dificuldades que surgiram entre eles.

Para Rúbia, era a esperança de um recomeço. Para Hunter, o princípio do fim.

Ficaram tão perdidos se encontrando um no outro que se esqueceram da hora e só voltaram ao mundo real quando o urro grave de Rudolf ecoou por todo o andar do hotel. Sua pele assumiu um tom de roxo meio avermelhado que ressaltava os olhos insanos e os pelos da barba por fazer de um louco.

O velho ergueu uma mão peluda que empunhava um revólver e um disparo foi ouvido, seguido do grito agudo de Rúbia. O tiro atingiu Hunter de raspão e ele se jogou em cima do milionário, disposto a matar e a morrer pela mulher que amava.

No meio dos dois corpos que se debatiam, rolando no chão, outro disparo foi ouvido e Hunter se levantou, com o sangue do rival sujando seu corpo nu e arma empunhada na mão direita. Soluçando demais para conseguir falar, Rúbia se jogou nos braços do homem ensanguentado e conseguiu ver o ódio estampado nos olhos castanhos antes de desabar ao lado do corpo do velho Rudolf e nunca mais enxergar nada.

Olhando os dois corpos inertes no chão, Hunter limpou o sangue de Rudolf do próprio corpo e vestiu-se, uma última vez. Uma prece silenciosa, pela alma de Rúbia e pela própria, saiu de seus lábios enquanto ele se deitava e segurava uma das mãos da moça. Levou o revólver à própria têmpora e disparou.


Do outro lado do corpo da mulher nua, os olhos vítreos de Rudolf Stiltskin sorriram.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Algum poema qualquer - V


Hoje eu me encontrei com a morte
Ela me estendeu a mão
E disse, sorrindo:
“Algumas coisas a gente têm que viver”

Hoje eu avistei a morte
Ela me encarou com seus olhos negros
e disse que nunca se é jovem demais
para brincar de morrer.

Hoje eu sorri e abracei a morte
Seus braços são quentes
seu colo é aconchegante
e o abismo infinito é bem melhor
do que a existência que eu tinha.

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