segunda-feira, 30 de maio de 2016

Algum romance qualquer - II



Não, nós vamos devagar. Um passo de cada vez. Não sei se sou bom com estratégias, mas preciso pensar como um campeão mundial de xadrez nesse momento. Dessa vez, a aposta é o meu coração.

Não, querida, não pretendo tirar suas roupas e te jogar no chão da minha sala de jantar. Não agora. Não hoje. Eu sei que é isso o que você quer, só para ter uma desculpa para fugir do que sente. Você entende o desejo, você o sente, mas não se dá bem quando o assunto é mais profundo que meras conjunções carnais.

Quero vê-la saboreando o vinho que escolhi e sentindo o cheiro da rosa que pus em suas mãos. Quero vê-la sucumbir ao romantismo e admirar a luz da lua que brilha acima da sacada. Mesmo que seja apenas por algumas poucas horas, quero vê-la sorrir docemente. Quero ver seus olhos nublados não de desejo, mas de amor.

Não. Hoje eu não quero lhe dar apenas alguns orgasmos. Disso, já provei que sou capaz. Hoje eu quero mostrar-lhe que podemos fazer algo mais profundo que isso. Podemos sair do plano do desejo carnal e ir mais fundo, no coração, na alma. Você vai retrucar, eu sei, mas minha vontade de te fazer completamente minha é maior do que meu simples desejo.
Não quero só rapidinhas no fundo do estacionamento, não quero apenas sexo na hidromassagem uma vez por mês. Quero passeios de mãos dadas, quero vê-la contar seus problemas, quero te ajudar.

Hoje eu quero te conquistar. Mas não seu corpo, esse já tenho. Hoje eu quero você se entregue por inteiro.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Tudo que poderia ter sido feito


Você poderia tê-lo visitado com mais frequência ou então ter se lembrado de telefonar no último dia dos pais. Deveria tê-lo abraçado mais vezes e dito também que o amava. Para piorar, você não se lembra de quando foi a última vez que disse “eu te amo”.

Não ter recusado o convite para o passeio e ignorar a prova para ir ao seu último aniversário seria o ideal. Mas você não o fez. Isso só prova o quanto foi desleal.

Colocava a desculpa no tempo, mas agora vê que tempo sempre teve. Só que não era para ele.

E aquele almoço do qual você saiu mais cedo para ver quem nunca apareceu? Onde foram parar a fotografias? E os sorrisos e abraços? Onde é que você estava quando ele mais precisava?

Mas não importa mais. Não faz diferença porque intenções não criam amor. E nem presença.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Ponte para qualquer lugar (desde que você esteja lá)


Só uma coisa nos define: a ânsia pela constância, pela consonância que nos tira o ar. Nem a saudade é grande o suficiente para substantivar o que arde, queima, o que dói ao mesmo tempo em que teima em fazer desejar. É feito de tudo o que foi feito pra durar. Seja teimosia, seja culpa do destino, meu peito teima em declarar coisas que, antes, eu nunca nem sequer sonhei almejar. É feito de tudo o que foi feito pra amar. E no auge do desejo, do anseio, da saudade e da verdade; independente da distância, da hora e do lugar: eu sempre estarei lá.

domingo, 15 de maio de 2016

Brenda


Eu a amava. E ela amava os pássaros. Amava-os mais que a mim, mais que aos nossos filhos. Brenda passava dias e noites observando seus hábitos e travando monólogos emocionantes sobre os “tão fascinantes” seres alados.

Antes de contar - o fim - de sua história e antes de qualquer tipo de julgamento por parte dos leitores: quero dizer que não fiz nada sem pensar ou sem levar em conta os desejos da minha falecida mulher, deixados bem claros em testamento: Brenda queria que eu a transformasse numa casa de pássaros.

Depois de algum tempo hesitando, cheguei à conclusão de que não era tão bizarro assim. Que destino melhor para uma adoradora dos seres com asas? Além disso, eu poderia tê-la bem perto de mim, como eu sempre quis durante toda a minha vida.

Seguindo os desejos da minha falecida esposa, que se tornaram também meus próprios desejos, não paguei serviço funerário ou caixão. Em vez disso, procurei um daqueles profissionais que empalham animais do jeito antigo, que aproveitavam todo o corpo e não só o couro. Consegui convencer um deles usando como argumento uma generosa quantia em dinheiro e dizendo que alguns mamíferos e os humanos têm uma semelhança muito grande entre si. Logo, não haveria de ser muito difícil. E nem proibido, já que não havia nenhuma lei proibindo que algum corpo humano fosse empalhado.

Brenda teve os órgãos internos retirados, a pele recoberta por substâncias que impedem a decomposição e galhos de árvore implantados em diversas partes do seu corpo. Nas costas, uma abertura entre as costelas foi feita e o interior da caixa torácica foi revestido de madeira e folhas. Depois de um tempo, um corvo fez seu ninho lá. A única parte que ficou intacta foi sua face. Antes era rosada, agora está meio esverdeada pelo formol.

Os galhos implantados em seus braços servem de poleiro para várias espécies de pássaro e todos os dias eu acordo com o som dos seus cantos na janela do meu quarto. Confesso que no início, toda vez que abria a porta da varanda, me assustava. Tonto de sono, achava que a minha mulher havia ressuscitado ou voltado para me buscar, coisas desse tipo.

Mas agora, depois de algum tempo, ver seu rosto esverdeado me deixa mais calmo e, de certo modo, feliz. Ela não está viva, mas os pássaros que habitam seu corpo estão. É como se a vida dela fosse transferida para os pequenos seres alados que ela tanto adorava. Agora, sei que Brenda descansa em paz.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Até os girassóis ficaram mais bonitos


Eu pensei que o mundo todo tinha perdido a cor, que o sol havia parado de brilhar e que os dias cinzentos haviam tomado conta de todo e qualquer lugar.

Eu pensei que ele fosse me procurar.

Eu acreditei nas ameaças e fugi sem nem mesmo olhar para trás.

Entrei no ônibus errado para despistar possíveis olhos conhecidos, usei peruca e maquiagem para que nunca vissem a mesma pessoa. Olhava para trás a cada dois passos e desviava meu caminho quando via uma silhueta ao menos parecida com a dele.

Por mais longe que eu estivesse, por mais difícil e impossível que parecesse encontrá-lo em outra cidade, outro país, eu ainda esperava vê-lo numa esquina qualquer, com a velha peixeira nas mãos e com o bafo de álcool saindo pela boca.

Nunca cogitei chamar a polícia. Sim, foi idiota, mas com todos esses casos de ameaças e mortes depois que as mulheres envolvem a polícia... Eu queria viver, apesar de tudo. Isso, ao menos, ele não conseguiu tirar de mim.

Sendo assim, fugi. Mas todos os dias eu arrumava algum computador com internet em algum lugar e lia o jornal da pequena cidade onde eu morava. Talvez o filho do prefeito fosse preso por bater em uma das suas amantes, assim como bateu em mim, sua mulher agora "desaparecida".

Foi numa dessas excursões à uma lan house qualquer que eu percebi o peso que carregava comigo. Eu havia fugido, me disfarçado, andei o país inteiro pulando de emprego em emprego para me sustentar em algum lugar fixo até que começasse a surtar novamente e a ver meu marido em tudo quanto é canto. Quando isso acontecia, eu me mudava novamente e recomeçava do zero. De novo.

Nesse dia, no obituário do jornal da cidade, estava escrito seu nome e uma breve história que traria orgulho a qualquer mulher que nunca havia levado uma surra do marido. Citava meu sumiço e exagerava no desgosto que ele havia sentido e nas causas nobres pelas quais havia lutado.

“Morreu, talvez, mais de saudade que de infarto.”

E, que Deus me perdoe, mas, depois de ler isso, até os girassóis na janela da lan house ficaram mais bonitos.

domingo, 8 de maio de 2016

Todo mundo é um pouco mãe

Aprendi com a minha mãe que ela é mãe simplesmente por ser mãe (e por ficar noites inteiras acordada, preocupada, desesperada e todas as coisas que muita gente já cansou de explicar).

Aprendi com o meu pai que é um pouco mãe quem cuida e dá carinho (e quem paga as contas, leva na escola, briga com outras crianças por causa da filha, sai de madrugada pra comprar remédio e coisas do tipo)

Minha avó me ensinou que ela é um pouco mãe por saber do que eu precisava quando chorava (e por ter um sexto sentido que sabe quando eu estou triste ou com alguma dor).

E com meu avô que ele é um pouco mãe porque me ensina coisas que eu poderia nunca aprender se não fosse ele (e porque me ama mesmo eu tendo opiniões completamente contrárias).

Aprendi com meu tio que ele é um pouco mãe por me olhar de cara feia quando eu faço algo errado e por me ensinar a gostar de quadrinhos (e de Engenheiros do Hawaii, Batman, Xmen...)

E com as minhas tias que também é um pouco mãe quem dá conselhos e se sente feliz por mim (e quem dá presente, faz pudim de chocolate, biscoito de polvilho/nata, pipoca, inventa apelidos...)

Aprendi com meus irmãos que quem ri junto e sem motivo algum também é um pouco mãe (e quem briga, bate, implica, enche o saco, não divide o sorvete, faz comida, entra em briga pra defender outra pessoa...)

Minha bisavó me ensinou que ela também é um pouco mãe por ser mãe de um mundo de gente e ainda assim me chamar de filha (e por falar pra eu obedecer a minha mãe, ficar horas contando histórias de quando era jovem e deixar uma saudade gigante no coração da gente).

E aprendi com muita gente que mãe é mais do que a palavra e todo o “status” que ela traz. Mãe se faz com pequenas ações, grandes sorrisos, algumas lágrimas, palmadas, abraços, beijos (ou lambidas), cuidados, empurrões, caretas, dia a dia, noite após noite, com olheiras, cansaço, saúde, doença, com pressa, com calma, sem tempo nenhum e tendo todo o tempo do mundo pra amar (e o amor tem infinitas maneiras de se manifestar).


Feliz dia das mães. Pra minha mãe. E pra todo mundo que é um pouco mãe.
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