sábado, 30 de abril de 2016

E os namorados?

- E os namorados?

Meu sorriso quase educado fica congelado e eu penso numa das milhares de respostas que eu adoraria proferir à alguma tia velha e encalhada.

Mas não é uma tia velha e encalhada. É só uma menina-clichê-perfeito-de-ameba. Maldita hora em que mães acreditam que dezenove e quinze anos são sinônimos. Maldita mente materna que acha que os filhos devem socializar com os filhos dos seus amigos.

Talvez, se eu tivesse a idade – e mentalidade – dela, conversaria sobre namorados e boyband’s escrotas. Mas não tenho. Uma das desgraças talvez seja ser mais velha que a média de filhos dos amigos dos meus pais. Talvez a desgraça sejam os filhos dos amigos dos meus pais ou então o meu mau humor e falta de paciência com idiotice. Não sei direito...

Eu poderia dizer que estou namorando - mentira. Poderia falar também que estou encalhada - meia verdade. Ou que estou à procura do cara ideal - nem sei se é verdade ou não. Não. Nenhuma delas. Prefiro deixá-la sem palavras.

- Namorar? Só para ter uma mão pegando na minha bunda e me dando orgasmos? - Espero que uma das minhas sobrancelhas tenha se erguido para dar o efeito necessário. – Não. Dispenso. Posso fazer isso sozinha.

A boca coberta por dois quilos de brilho labial de dois reais da revista avon ficou uns bons cinco segundos escancarada. Ela, certamente, deve pensar que eu sou frígida ou lésbica ou, no mínimo, louca. Ou todos eles juntos. Engraçado, não?

Não. Irritante. Irritante como algumas pessoas gostam de se sentir vadias e não inteligentes ou... Ou qualquer outra coisa que preste. Uma mão na bunda, uma apalpada no peito, um oral bem feito e pronto! São mulheres de verdade. E aos quinze anos! Que coisa mais... Adulta!

Tudo bem se a pessoa quer ser feita de corrimão por metade da população masculina da cidade, tudo bem se ela se sente feliz e realizada dando para metade dos gringos que apareceram na época da copa... É sério. Não critico essa ânsia por sentir um pau duro por entre as pernas.


O que eu critico é a minha criação antiquada que colocou na minha cabeça que o cérebro vale mais que a boceta.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Algum poema qualquer - II


Uma mão magra se estende
E uma gorda se esconde
Um olhar úmido se ergue
E olhos mortos desviam
Do que dentes podres mostram
E do que almas podres ignoram

Mais uma lágrima escorre
Por um rosto desconhecido
Risos e gargalhadas ecoam
Por palacetes divinos
É como se fosse o inferno
É bem melhor que o paraíso

Em meio a um deserto esquecido
Almas apodrecem caídas
Na lama dos dejetos
De quem um dia ousou partir
Sem deixar endereço para devolução

Os pobres diabos,
Por outro lado
Esperam, sentados
Só uma dose de compaixão.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Não há nada lá no fim

Talvez fosse o momento de soltar os fios que lhe prendiam;
a hora certa de se deixar levar na direção da luz.
O instante mais propício para descobrir o além
e acabar de vez com aquela tortura.

Talvez fosse o momento de um cessar fogo;
a hora de deixar de carregar sua cruz.
O instante certo para proferir “e os anjos dizem amém”
e descobrir o que há de novo para as almas corruptas.

Deveria dançar conforme a música sombria
que embalava seus passos na direção da estrada
que liga o mundo conhecido ao nunca explorado.

Hora de vencer as bambas tábuas unidas por velhas cordas
e ultrapassar aquela temida barreira invisível
só para descobrir que não há nada lá no fim.

domingo, 10 de abril de 2016

Nostalgia


Éramos tão idiotas que me dá nojo. Aos treze anos de idade, dizíamos ser o amor da vida um do outro e juramos nos casar. Patético. Achávamos que sabíamos tudo sobre a vida, o amor e a morte.

Como poderiam duas crianças de treze anos de idade jurar se casar? Como imaginávamos que seriam nossas vidas? Eu, você, dois filhos e um cachorro? Sem desavenças ou contas a pagar? Que futuro teríamos se fugíamos da escola para namorar?

Graças à minha mãe, eu fui obrigada a parar de sair para te encontrar escondida. Ainda bem que meus pais me mandaram para um colégio interno que ficava bem no meio do fim do mundo.

Não que tenha sido bom ficar longe de você, não em curto prazo, mas, no fim... Bem... Veja o que nos tornamos. Você tem sua família, eu tenho a minha. E nos encontramos por um feliz acaso para conversar sobre o passado. Nossa condição financeira é estável e consegue satisfazer nossos desejos materiais, temos filhos lindos e nos orgulhamos dos nossos cônjuges. Não faz sentido sentir arrependimento nenhum e, muito menos, dizer que o que tínhamos era para a vida toda.

Então, por favor, não venha com doces nostalgias dos tempos de escola dizendo que me amava e que perdemos muito tempo separados. Não me venha com recordações e lamentações pelo que não vivemos. Não diga que se arrepende por não ter respondido minhas cartas porque eu não me arrependo de não ter te procurado depois que saí de lá.


Fale-me dos troféus de natação que seu filho ganhou, me diga que sua mulher é a presidente do grupo da boa vizinhança e que sua filha tem uma apresentação de ballet. Conte-me uma piada, diga algo engraçado, diga algo doce, mas não diga que você me amou.

terça-feira, 5 de abril de 2016

Desejos de maio

Mandei costurar todos os nomes por dentro do vestido. O anel tem uma pedra azul, peguei uma peça emprestada, escolhi um outro enfeite, cor-de-rosa, para trazer muito amor e que essas sejam as últimas lágrimas que me escorrem dos olhos.

Que ele não deixe as alianças caírem, que entre com o pé direito e que o horário dos votos seja antes das dezoito do domingo. No sábado não. Sem espaço para a má sorte.

Não ajudei a fazer o vestido, não pretendo emprestá-lo no futuro, coloquei várias damas para confundirem os espíritos perversos; nada de pérolas e o véu está me protegendo dos olhares mal intencionados.

Nota: Tenho que ser carregada até a suíte nupcial, para não arriscar tropeçar e acabar de vez com o nosso tempo de casados.

Tudo pronto. Nada de errado vai acontecer hoje. E, espero, que nunca mais.

Um. Dois. Três. A marcha soou.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Mais tempo

Ok. Admito que errei. E errar não é uma coisa que eu goste de admitir. Então é bom que entenda como é difícil fazer isso.

Não... Foi com esse meu jeito escroto que te perdi. Essa prepotência e arrogância não vão me levar à nada. Você mesmo disse. Talvez eu devesse começar com um “perdoe-me; porque eu te amo”...

Certo, então. Vou começar de novo:

Perdoe-me; porque eu te amo. “Porque eu te amo”... Que espécie de pessoa perdoaria a outra por esse motivo? Eu não perdoaria. Eu sei... Sou o único ser que é noventa e nove por cento racional e faz o um por cento restante pensar, analisar fatos, frases, provas, entrelinhas... O caso é que nessa minha cabeça pensante demais, esse não é - e nunca foi - um bom argumento.

Deus... Nunca pensei que isso seria tão difícil. É só falar que eu te amo e pedir desculpas, não? Eu te amo. É óbvio, você já sabe; eu, relutantemente, sei e todo o resto do mundo, também. Eu te amo. Apaixonei-me da forma mais idiotamente possível e agora estou pagando o preço por isso.

Não é que eu me arrependa (não o tempo inteiro). Mas agora... Agora você me ignora e eu sofro com isso. Agora, neste exato momento, eu me arrependo. Como se eu pudesse me culpar pelos caminhos obscuros que meu coração insiste em seguir... Poético, não?

Resumindo: eu não acho que essa seja a hora certa para colocar um fim no que temos. Não sei se haverá hora certa e nem sei se eu ficaria bem sem o seu “bom dia, amor” diário.

É verdade que eu sempre me irrito quando você me acorda e que o presente mais romântico que eu te dei foi uma caixa daqueles chicletes amargos... Eu pensei que você gostasse do meu jeito inusitado, caramba!


Enfim... Eu só quero mais um tempo. Porque eu preciso de mais tempo para fazer as coisas darem certo. Porque esses doze anos de casados não foram o suficiente.
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