segunda-feira, 28 de março de 2016

Algum texto qualquer - V


Seu nariz é torto, foi quebrado umas três ou quatro vezes, pelo que você me disse. Tem uma cicatriz no lábio e algumas marcas de espinha nas costas. Também tem o sinal da BCG inflamada no braço. Você também é calmo demais, racional demais, falante demais. Sabe um pouco de tudo e conversa sobre qualquer assunto. Por isso você foi embora. Porque eu sou o seu lado contrário. Meu nariz é empinado, nunca levei um soco e muito menos briguei com alguém. Faço tratamento para espinhas e meu cabelo sempre tem que ficar impecável. Você disse que meu jeito sem defeitos te irrita, que minha ânsia por parecer a Barbie é doentia. Sinceramente? Não entendi! Foram só quarenta e duas cirurgias e duzentas e quinze aplicações de botox! A maquiagem permanente todo mundo faz e a dieta vegana não é assim tão estranha. E, sinceramente? Não mudei de ideia. Ainda acho que você tem que ir numa boate gay para se transformar no Ken.

terça-feira, 22 de março de 2016

Abrigo



Inspirado no livro "O refúgio secreto" escrito por Corrie Ten Boom

Os passos ecoam, apressados. Algumas das vozes são rudes, ásperas, cheias de rancor e raiva. Outras são chorosas, quase mudas. Aquela velha disciplina diabólica nos impede de mexer um músculo sequer. Quantos somos nós? Seis, sete pessoas num cômodo secreto feito para trazer um pouco de luz em tempos tão sombrios quanto a morte? Entretanto, não enxergo nada. Apenas escuto as vozes abafadas gritando ordens e as respirações que se confundem numa área de menos de dois metros quadrados. Não podemos nos mexer, não podemos falar ou sentir. Fomos privados de viver.

Quantos somos nós? Sete, oito pessoas escondidas num quarto escuro? Mas também somos milhares de fugitivos presos num esconderijo procurando a liberdade; ou, no mínimo, um pouco de respeito. Não consigo ver quem se salvou ou quem foi preso. Não consigo ouvir mais nada. Apenas sinto o medo de todos nós juntos, o peso dos meus noventa e três anos, o cheiro de quarto fechado e a dor incessante da asma no peito.

Quanto tempo se passou? Dois, três dias? Não temos mais água, não temos mais coragem de sair, não tenho mais ar. Mesmo juntos, o frio do inverno de 1944 entra por não sei onde e me faz tremer. Ou será 1945? O natal já passou enquanto estamos escondidos? Alguém tem que sair. Não é uma opção. Continuar aqui dentro sem água e sem comida não será muito diferente de ser presa pelos nazistas e enviada a algum campo de extermínio. E sair significa exatamente isso: ser levada a algum campo de extermínio nazista.

Um lamento vem de algum lado do pequeno quarto. Ou será de todos os lados? Seguido de um choramingo e um gemido. Enquanto os outros pensam se deveriam ou não falar, eu me lembro do bebê prematuro e da sua mãe judia, rejeitados pelo hospital público. Ele precisa de alimento e ela está fraca demais por conta do parto difícil. Que deus salve essas pobres almas. Que a salvação seja a morte, se assim for melhor.

Temos que sair. E não nos foi dada nenhuma opção. Em menos de dois minutos, juntamos todos os vestígios da nossa presença e os enfiamos pela pequena porta do menor aposento da casa, o quarto secreto. Hoje em dia, raras são as residências que não têm um quarto desses. Por mais desesperador que pareça ser essa correria toda, o medo de ser preso é um potente combustível.

Vejo os rostos tensos em prece, o cheiro do medo se transformou no único cheiro que sentimos. Uma sinfonia de imagens disformes aparece na minha frente e meus olhos doem com a claridade. O som da porta se abrindo me tira do torpor quase insano enquanto eles entram, um atrás do outro, no minúsculo quarto. Será que terá espaço o suficiente?

Primeiro os amigos que conheci no abrigo secreto. Não tenho certeza sobre os seus nomes, mas não tenho tido muita certeza de nada ultimamente. Todos eles  têm o rosto machucado e o corpo lesionado. Sem falar em sua desnutrição. A mulher do dono da loja de panos, o funcionário da padaria, o filho do dono da mesma loja, o carteiro, a gentil moça da loja de flores... Todos da mesma vizinhança, todas são pessoas com as quais eu me encontrava diariamente.

Por que estariam aqui? Será que também vieram procurando abrigo? Provavelmente.

Consigo abrir um sorriso frouxo quando vejo meu marido, meus quatro filhos e então meus netos entrarem. Ah... Como eu senti a falta deles! O neném começa a chorar e alguém tosse. Não sei quem me puxa pelo braço e me põe de pé bruscamente. Escuto um grito e consigo enxergar a suástica no uniforme do homem que me mantém de pé. Por que não sinto medo?


Num segundo, tudo se mistura e eu consigo ter uma única certeza: todas aquelas pessoas que entraram no quarto secreto, a mulher do dono da loja de pano, o funcionário e o filho do dono da padaria, a moça da floricultura... Meu marido, meus quatro filhos, nove netos... Todas elas estão mortas.

terça-feira, 15 de março de 2016

Despedida

Cara irmã mais velha,

Não acho que isso ficará muito grande porque eu sei bem que palavras não são minhas melhores amigas. Mas, de qualquer forma, deixo-lhe uma carta de despedida. Talvez breve, ou não sei talvez o quê.

É para dizer, basicamente, que estou feliz. Sinto-me estonteantemente alegre por saber que você vai para a faculdade na semana que vem, minha irmã. Viver longe durante alguns meses e voltar para casa apenas por algumas semanas. Não estou feliz e triste por ter que conviver com a sua ausência, mas estou feliz e feliz por não ter que suportar mais a sua presença.

Não vou enxergar a luz do corredor invadindo meu quarto quando você abre a porta; não vou ver as roupas caindo no chão enquanto você se despe e nem vou sentir seus dedos passeando pelo meu corpo, indo dos seios até o umbigo e se alojando entre minhas pernas.

Não mais encararei seus olhos nebulosos, enquanto sou forçada a usar minha boca em sua intimidade e sentir suas mãos segurarem e puxarem meu cabelo. Não sei de onde os escritores tiram que os fluídos da intimidade feminina têm gosto excitante. Na verdade, seus fluídos me dão vontade de vomitar. Mas não posso. Assim como não posso gritar por ajuda. Assombração sabe para quem aparece, minha irmã. E você é uma das assombrações mais experientes.

Mas eu me sinto feliz. E por que não ficaria? Estou livre de você, afinal. Mesmo não podendo dizer em voz alta por causa da minha deficiência, posso dizê-lo por meio desta carta. E dizer também que não vou sentir falta das suas visitas clandestinas no meio da noite. Porque é nojento, porque é pecado e porque é errado.

Então você vai embora e finge que nunca fez nada de errado com a sua irmã muda e eu me deleito na felicidade da sua ausência.

Alegremente,
sua irmã mais nova.


terça-feira, 8 de março de 2016

Tensão pré menstrual


Lei número um da vida: nunca confie em um bicho que sangra uma vez por mês e não morre. Esse ser vai atormentar sua consciência até o fim dos sete dias monstruosos. Você vai odiá-lo quando ele mostrar as garras e vai se sensibilizar quando seus olhos brilharem, cheios de lágrimas sem motivo. Vai amá-lo quando ele estiver se enroscando em seus braços, como um gato, e vai desejá-lo quando sentir seu cheiro e ver seus lábios vermelhos. Você vai ficar no olho de um furacão que muda de direção cinquenta vezes por segundo, mas que insiste em levar tudo com ele, sabe-se lá Deus para onde. Esse bicho vai ter crises de arrumação e de choro. Vai comprar sorvete para vinte pessoas e vai quebrar a balança quando o ponteiro andar mais do que deveria para o lado errado. Vai querer lavar louça sem estragar a unha e vai se arrepender de ter cortado o cabelo logo que sair do salão. Você não vai entendê-lo, nunca. Mas não vão faltar livros sobre como dissecar cada aspecto da personalidade que compõem o monstro fascinante chamado mulher. Todos inúteis. Se nem mesmo elas são capazes de se entender, quem dirá você?

Meio assim: meio sei lá

Talvez eu acredite em destino e talvez eu confie no acaso. Depende do dia, hora, lugar. Sou meio assim mesmo... Uma espécie de metamorfose ambulante tal qual a música, que não quer mudar. Mas a mudança é justamente a essência do seu/meu ser. Talvez eu seja um paradoxo de ideias imperfeitas e frases mal feitas. Rimas tortas, prosas em verso e penal inconstitucional. No meu gráfico, as retas são curvas e os números são minhas canções nunca terminadas. Meio infinito, meio fim.

Quem sabe eu confie em Deus, quem sabe eu reze à mim mesma? Depende do ponto de vista, de qual andar se jogar. Perfumes melhores vêm em pequenos frascos, mas a gente sempre quer do chocolate o maior pedaço. Sou assim: meio sei lá... Numa hora canto em dó, na outra, sei que é mi. Mas, na maior parte do tempo, não consigo me definir. Tal qual Rita Lee, ovelha negra, incompreendida até pelo espelho.

Falando em espelho... Joguei o meu pela janela. Desisti de me analisar, procurar defeitos, deixar o cabelo perfeito. Dizem que ninguém é perfeito, mas quem aceita a própria imperfeição? Sou tal qual o mundo em que vivo, hipócrita que detesta a hipocrisia de ser hipócrita detestando hipocrisia. Sou meio assim mesmo, meio ser social anti-social. Eu disse: paradoxo. Um maldito ciclo vicioso e paradoxal.

Mas, se é ciclo, não tem fim. E a morte, o que será? Não sei. Depende de em que Deus se quer creditar.


Eu sei... Sou meio assim, meio sei lá.

terça-feira, 1 de março de 2016

À tal estrela cadente

Decidi lançar meu coração ao vento;
talvez eu tenha um pouco de sossego,
não escute meus próprios lamentos
e nem mesmo sinta mais tanto medo.

Que se vá, que se jogue, que eu me jogue;
que eu não pense no que me atrasa.
Porque a vida é assim: a gente morre
e perde tudo de tanto pensar.

Decidi jogar meus pensamentos no mar
p’ra que as ondas os levem para longe;
p’ra que outras pessoas possam se aproveitar
das ideias que me surgem aos montes.

Que se afoguem minhas mágoas,
que sumam meus receios,
que eu me preocupe apenas com os anseios
que não serão levados pelas águas.

Decidi esquecer meu cérebro na mesa
junto ao copo cheio de cheiro de tequila.
Não. Não precisava estar bêbada;
é que minha cabeça não funciona vazia.

Que se vá, que se jogue, que eu não me aborreça;
que eu apenas mergulhe sem pensar no que há no fundo,
que eu voe sem me preocupar em bater a cabeça,

que eu só aproveite cada instante nesse mundo.
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