terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Ernesto Brasileiro

Ernesto passa boa parte do tempo sentado na frente da TV, reclamando do que vê no jornal. Acorda mais cedo todos os dias para ver o noticiário matinal e só depois vai trabalhar. Na hora do almoço, assiste “balanço geral” e, um pouco mais tarde, vai novamente trabalhar. Retorna a tempo de ver o jornal local e fica espantado com tudo o que assiste. Roubos, assassinatos, até a odiada pedofilia. Existem também o tráfico de drogas e a violência nas favelas.Tudo é um absurdo.

Mas absurdo, absurdo mesmo, é a corrupção. Esse bando de políticos que nunca vão mudar! Mas eles têm que mudar! Roubar é muita falta de respeito com o povo. Entretanto, se ele mesmo fosse deputado, também construiria um castelo. O povo deveria escolher melhor seus governantes. É por isso que Ernesto sempre vota nulo. Políticos e japoneses são todos iguais, afinal.

Mas Ernesto não é um daqueles fofoqueiros que se importam com a vida dos outros. Sua indignação logo vai embora. Não adianta nada sentir raiva. Primeiro porque raiva faz mal. Segundo porque nada vai mudar e ele não vai mudar nada. E terceiro porque a novela já vai começar.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Se o mundo acabar

O sol quente lá fora não me alegra, o riso das crianças de férias me irrita, esse bom humor coletivo me deprime. Isso porque seus olhos verdes me assombram e a brisa que seu hálito quente me proporcionava não sopra mais. Ou sopra, mas não é mais em meu corpo que seu vento venta.

Não quero me levantar, não quero abrir os olhos e descobrir um lado da cama vazio. Não quero esticar o braço só para não te encontrar e não quero não escutar seu sussurrar rouco me mandando acordar. Eu simplesmente me recuso a levantar.

Deixe-me embaixo das cobertas, deixe-me faltar ao trabalho, deixe-me esquecer da prova de mais tarde. Deixe-me chorar até que se sequem as lágrimas, deixe-me encharcar o travesseiro e deixe-me com o nariz escorrendo, soluçando feito criança pequena.

Apenas deixe-me, porque, se o mundo acabar, eu não vou ligar.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Algum drama qualquer - VII

Ela abriu os olhos no exato momento em que a porta foi destrancada. Um choramingo contido saiu-lhe do fundo do peito enquanto contemplava a face do homem que tanto amava. Algo estava errado, algum osso de brinquedo estava fora do lugar.

Levantou-se do tapete que lhe servia de cama e começou a se aproximar, hesitante. O sorriso  enfeitava a face do dono e os olhos não tinham mais aquele brilho brincalhão. Talvez não fosse a hora certa de rolar no chão e pedir cócegas.

Pulou e ficou um bom tempo sendo sustentada apenas por duas patas, do jeito que sabia que ele adorava. O homem, finalmente, lhe viu e sorriu, meio sem graça, antes de dizer seu nome baixinho e continuar andando.

Foi quando ela sentiu o cheiro. E viu o volume preto que ele segurava com uma só mão. Já havia visto aquele saco escuro e o que tinha dentro dele, geralmente, não exalava um aroma agradável. Entretanto, aquele cheiro já lhe era familiar demais para ser odiado. 

Ele lhe lembrava de bola de pêlos, língua áspera, unhas afiadas e miados que machucavam seus ouvidos. Lembrava-lhe, também, do companheirismo, amizade, brincadeiras até depois da hora de dormir e alimento dividido. Lembrava-lhe da briga pelo líquido branco que saía de uma pequena caixa e das noites frias que passavam enroscadas uma na outra.

Mas... Por que ela estava dentro do saco de cor mais escura que as outras? Por que eles estavam colocando sua felina preferida, sua melhor amiga, dentro do plástico que vai parar dentro do caminhão imundo?

O homem disse alguma coisa em voz baixa e ela entendeu o que acontecia. Havia sido da mesma forma com aquele macho que era da mesma espécie que a sua. Ele nunca mais voltou e o cheiro da ausência de uma consciência também impregnava seu focinho naquele tempo.

Aquilo significava que ela nunca mais veria sua melhor amiga.

Virou-se costas e deitou-se novamente no tapete. Se pudesse falar alguma coisa, seriam só duas palavras:


"Adeus, gatinha."

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Desculpas esfarrapadas

Não me venha com versos sobre a chuva e sobre o tempo fechado. Não coloque a culpa do seu mau humor nas nuvens. Não é problema do céu o seu desânimo assim como não é todo dia ensolarado que você sai feliz e saltitante pelas ruas.

Não fique olhando o significado das horas, não procure riqueza na mão que coça, não tente descobrir quem fala mal de você apenas porque sua orelha resolveu queimar. E aparecer em seus sonhos não significa que ele esteja apaixonado.

O gato preto não te fez nada, comprar outro espelho resolve o problema, simpatias só servem para fazer você parecer desesperada. Não é porque um pombo achou sua cabeça uma boa privada ou porque marimbondos querem morar ao seu lado que a sorte financeira vai lhe sorrir.

Ventos que conspiram contra existem aos montes, a diferença é que algumas pessoas simplesmente se adéquam às circunstâncias ao invés de ficarem paradas reclamando da vida e procurando razões para a falta de sorte.
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