terça-feira, 26 de janeiro de 2016

O medo

Ele espreitava da penumbra,
encarava-lhe do reflexo,
a vigiava por debaixo da porta
e de lugares mais complexos.

Seu melhor amigo
e pior inimigo.

Na escuridão da noite
e na claridade do dia.

Estava em tudo,
era o mundo
que modificava seu intuito
e que ditava seu circuito.

Ele espreitava,
admirava,
desejava
e a tomava.

Acordada ela o temia
e também enquanto dormia.
Ela o odiava
e o abraçava.

E ele a domava.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Sem batom vermelho

Ela é o tipo de mulher que não precisa de batom vermelho para se impor. Na verdade, o cosmético é só mais uma máscara que meninas inseguras usam. Assim como todo o resto da maquiagem. Não que odeie parecer mais bela, mas não precisa dela para se sentir bonita ou para se sentir mulher. Se tem uma coisa nesse mundo que não pode ser aplicada a ela, é insegurança.

Não é só casca. É também um cérebro. Conversa sobre carros e motos como eles. Não é maria-chuteira, mas já ouviu o suficiente de futebol para opinar. Algo, talvez em sua postura ou em seus olhos, exala confiança, beleza e inteligência.

Ela é a mulher que todo homem quer.

Até descobrir que deveria temê-la.

Quando não quer, não quer e não demonstra o contrário. É mais direta do que a maior parte das pessoas acredita ser saudável. Um "não" é tudo o que precisa para jogá-lo no chão e o "sim" pode levá-lo ao céu. "Intocável" para alguns, "sonho realizado" para outros.

Ela também não sente vergonha de pagar uma bebida e convidar para ir ao seu apartamento. E se diverte com as reações irônicas de quem não acredita que as mulheres deveriam tomar a iniciativa. Se querem segurança e atitude, por que fazem cara feia quando ela diz que pode enlouquecê-lo?

Alguns mais convencidos - ou de exterior auto confiante - insistem ou aceitam a tal bebida. Não sentem medo. Ainda.

Também não se diz conhecedora dos mistérios da alma masculina, mas conhece os mistérios do corpo deles. E usa isso ao seu favor. No dia seguinte, eles acordam com o outro lado da cama desarrumado e a porta do entreaberta. Quando dão por si, estão ligando para o celular de uma mulher que disse que foi divertido enquanto durou.


E que acabou.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Prosas Mudas

Antes, era só pegar a viola e começar a criar um mundo só seu. Zé Catito roçava os dedos nas cordas e fazia magia soar pelos ouvidos desse mundão inteiro. Cantava as doenças do gado, as secas do sertão, cantava o cavalgar dos cavalos e a desgraceira do ladrão.

Cantava a vida que levava, mas, acima de tudo, cantava Dora, sua eterna namorada.

Ele via aqueles olhos míopes rodeados por pés de galinha, contemplava os lábios murchos e rosados, admirava as mãos enrugadas e sorria para a boca sem dentes como se ambos ainda fossem ainda os dois jovenzinhos de antigamente.

Os traços do semblante judiado pelo sol de rachar lhe dava uma intensa alegria, uma calma ímpar e uma paz tão tranquila que lágrimas lhe escorriam pelos olhos enquanto cantava, tocava e venerava Dora, sua doce amada.

Zé Catito costumava se sentar, toda tarde, na varanda do casebre que dividia com sua velha enquanto ela passava o café moído. O cheiro invadia suas narinas sempre que a porta se abria e Dora aparecia segurando a bandeja, com a garrafa, os copos e o queijo minas branquinho, que ela mesma fazia. Era o melhor queijo minas desse mundão inteiro.

E Dora, que já havia ouvido a barriga do marido roncar, lhe colocava café no copo e cortava um pedaço de queijo antes de se sentar na cadeira de balanço ao lado da dele. Passavam horas apenas proseando e desfrutando das simplicidades perfeitas que a vida tem. Ele, com sua viola, seu café e sua velha, era o homem mais feliz do mundo inteiro.

Certo dia, Dora se esqueceu do café. Na verdade, nem de fazer o queijo ela se lembrou e Zé teve que lembrá-la. Na verdade verdadeira, ele mesmo fez o café e serviu o queijo por achar que sua esposa estava adoentada. Parecia não conhecer o mundo à sua volta e se esqueceu até mesmo de onde ficava o banheiro.

Daí pra frente, as coisas só pioraram. Dora se esquecia das coisas cada vez com mais frequência enquanto que, por conta disso, Zé Catito teve que ajudá-la a se lembrar cada vez com mais afinco. Renunciou aos tempos com a viola para ensiná-la quem era ele e quais eram os seus filhos nos porta-retratos da sala. Ele passava horas lhe contando velhas histórias, tentando trazer de volta o brilho de reconhecimento no olhar da velha. Deu-lhe inúmeros chás, comprou ervas de todos os jeitos e mediu-lhe a febre várias vezes ao dia.

E assim passaram-se os dias, semanas, lágrimas e agonias. Quando Zé estava quase enlouquecendo de tanta aflição, Dora acordou mais feliz do que nunca. Os olhos míopes brilhavam, o sorriso sem dentes resplandecia e ela até assou pão de queijo logo de manhãzinha. Zé Catito deu-lhe um beijo na testa enrugada e seu próprio sorriso sem dentes era o maior do mundo inteiro. Sua velha Dora, sua amada, estava novamente saudável.


Hoje, Zé Catito apenas se senta na varanda do velho casebre e toca sobre as dores de um coração incompleto. Na verdade verdadeira, ele não mais consegue cantar. O que sai de seus lábios são apenas murmúrios lamuriosos e chorosos repletos da amarga saudade que lhe tomou conta do coração.

Isso porque Dora, no dia em que acordou melhor, animada, com os olhos míopes brilhando tanto que até pão de queijo assou, se foi. No dia em que Zé Catito viu que todo o seu árduo trabalho valera à pena, Dora, de vestido florido e chapéu de palha, havia saído para ir ao centro da cidadezinha mais próxima, e nunca mais voltara.

Zé não entende o motivo do abandono logo depois de ter sido cuidada e curada por ele. Não entende como aquela velha de lábios murchos que tanto o amava o deixou. Na verdade, Zé Catito também não sabe mais se ela o amou de verdade ou se foi uma das muitas faces de mulher que os filhos tanto falavam.


E, sussurrando ao vento, proseando em silêncio, Zé permanece com sua viola no colo, sentado na cadeira de balanço que ocupa a pequena varandinha do velho casebre, enxergando fantasmas escondidos no vento. Seus olhos não ficaram livres da catarata, mas ficaram vazios do brilho que sempre haviam tido desde que conhecera sua eterna namorada. Fica ali, sentado, esperando que a polícia avise se encontrar Dora ou que - e de preferência - a própria Dora volte e lhe diga o que de fato aconteceu.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Algum texto qualquer - IV

Suas perguntas de duplo sentido me deixam... desconcertada. Sinto tudo e nada ao mesmo tempo. Sorrio, tenho vontade de chorar, fico rindo de alegria e de nervoso.

Suas perguntas são feitas para me matar. Você quer a resposta certa, mas eu não sei se quero dá-la. Você quer que eu me sinta pressionada pelas entrelinhas da sua voz, eu sei. Eu sei exatamente como você se sente.

Por trás do escárnio do olhar, fica uma mente trabalhando a mil por hora para proteger o coração que alça voo a cada nota - cantada ou não - que sai por entre meus lábios. Nós temos nossas piadas internas, nossos medos secretos, nosso sentimento encoberto, eu sei. Eu sinto. É a mesma coisa desse lado aqui.

Mas suas perguntas de duplo sentido me assustam. São mais profundas do que os outros imaginam, atingem mais fundo do que todos pensam. Elas são feitas para matar o medo que vive aqui dentro. Elas anseiam pelas respostas que vão calá-las para sempre.


Você sabe as respostas. Eu sei. Eu sinto. O que não sabemos é se estou pronta para proferi-las.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Excesso


Tem coisa demais na minha cabeça, palavras demais na minha boca. Tem muitas pessoas falando muito nada ao meu redor. Eles escutam o que eu escuto, falam com meus lábios e até mesmo leem meus pensamentos. A única coisa que eu consigo ouvir são seus urros, esganiçados, em coro. Elas falam muito, gritam, berram por atenção, uma profusão de vômito ao qual dão o mesmo nome que o meu. Tem vozes demais dentro de mim. Elas são altas, histéricas, suprimem a minha vontade e roubam a minha vez. Tem gente demais examinando meu coração, tem gente demais falando por mim.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

A irmã mais nova

Você sempre esteve um passo à frente, um degrau acima. E eu, a segunda melhor, a eterna vice. A irmã mais nova, a que sempre vinha depois.

É claro que meus passos eram mais rápidos e que minha respiração era acelerada. Ofegante, até. Mas isso era só para te alcançar. Você sempre estava com a mente mais aberta, com o coração mais acostumado ao mundo e a suas belezas imortais.

Eu rodava em círculos ao seu redor, tentando chamar atenção. Ansiando por um minuto sequer sob os refletores.

Mas você tinha tudo. E eu não era nada.

Você era o sol e a lua. Eu, uma estrela qualquer. Você era o girassol. E eu, apenas mais uma rosa vermelha numa plantação de rosas vermelhas: nada demais.

Entende, então, porque está aqui e porque beberá esse copo de desinfetante? Agora entende qual foi esse mal que tanto me fez? Entende a profundidade do meu ódio?

Eu fui sua mais fiel seguidora, sua melhor amiga, sua única confidente. E você só me recompensou com os restos das atenções. O que era demais para você, vinha para mim. E nada nunca foi demais para você. Você tinha tudo. E queria muito, muito mais.


Mas não se preocupe. Continuará sendo o centro das atenções durante seu velório e depois. Pelo resto da eternidade, você será lembrada como a filha maravilhosa que era. E eu, finalmente, serei o centro do amor de todos os que te veneravam. É bom para as duas, entende?

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Enquanto

Beije-me enquanto eu me derreto;
abrace-me enquanto eu me desfaço;
segure-me enquanto eu caio;
ama-me enquanto eu me estrago.

Permita-me saber que estás aqui;
deixe-me te sentir  junto a mim;
permita que eu me esconda em teu abraço;
preciso te ter ao meu lado.

Beije-me enquanto eu me derreto
e me desfaço
em mil pedaços pelo quarto.

Segure-me enquanto eu caio
e me estrago
em teus braços.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Izabella

Encarou seu reflexo no espelho e uma lágrima escapou. Talvez tivesse sido melhor se ela tivesse escutado a mãe e não o namorado. Enquanto ele se movia furiosamente em seu interior, Izabella só conseguia se segurar nos ombros magros e chorar.

Amaldiçoou o namorado, por ter dito que eles precisavam; as amigas, por terem dito que seria maravilhoso. Odiou a si mesma por não ter escutado os avós e odiou o próprio pai por tê-la proibido de sair de casa. Se ele não tivesse feito isso, ela não sentiria aquele desespero insano por desobedecer. Adolescentes...

Enquanto ele se movia, freneticamente, Izabella encarava o imenso espelho redondo pregado no teto. O sangue manchava os lençóis na altura do seu quadril, a luz turva que emanava do lustre lhe dava uma incômoda sensação de melancolia, seu corpo estava manchado pelos dedos famintos, seu rosto estava coberto de lágrimas e seu coração estava imundo de arrependimento. Os olhos castanhos se fecharam por não conseguir mais suportar a cena grotesca refletida no teto. Com alguma sorte, aquilo acabaria logo.

Depois de alguns instantes, Leonardo saiu de cima dela e deitou-se ao seu lado enquanto sua respiração se normalizava. As lágrimas não mais escorriam e o coração da menina já havia se conformado. Nada poderia ser feito pelo passado. Agora era só seguir em frente e não cometer os mesmos erros. E torcer para que a pergunta clichê não fosse feita.

Mas ela foi feita. Leonardo, agora Izabella percebia, era tudo o que sua mãe dizia e mais um pouco. Previsível como era - e não eram todos os meninos? -, perguntou:

- Foi bom para você?

Izabella virou sua cabeça e encarou os olhos do namorado. Ele a pressionara para pegarem uma suíte no motel, disse que um relacionamento precisava de sexo e que, se não fizessem, eles não iriam além e a relação estava fadada ao fracasso. A menina, tola que era, estava exatamente onde ele queria que ela estivesse.

Sua mãe estava certa. Os garotos queriam e sempre iriam querer a mesma coisa. Poderiam amá-la e jurar se casar, mas, no fundo, eram homens. E, segundo os conhecimentos das amigas, homens sempre teriam um ponto fraco no meio das pernas.

Isso ela entendia. Ele precisava do sexo para manter a relação. E ela lhe forneceria o necessário por amá-lo tanto. Izabella colocou um sorriso no rosto e encarou os olhos de Leonardo através do espelho.


- Foi perfeito. – Disse, ignorando o desconforto entre as pernas e o nojo que sentia de si mesma. Ele era sim igual aos outros. Par perfeito para ela, que também era igual às outras.
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