terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Amisso Religionis

Vossa Santidade papa Urbano VII,


É estranho como consigo enxergar-me – mesmo não enxergando nada mais - neste canto isolado do mundo e, ao mesmo tempo, no centro de tudo. Consigo ouvir os transeuntes lá fora rindo, consigo cantar junto com eles, em coro. Mas não consigo acompanhá-los. É impossível juntar-me à multidão. E eu não consigo atingir os mais fortes, não consigo ser como tais líderes que exercem tanta força e têm tanto poder nessa cidade - e fora dela, ao redor do mundo. Apesar de tudo - e por tudo -, eu tento. E, enquanto tento, perco minha fé, minha religião imposta. Enquanto luto para que meu tom de voz seja tão alto quanto o deles, contesto minhas próprias crenças. As explicações existem e não são tão inatingíveis assim. Não são obra divina sem explicação. Entretanto, não são, também, um absurdo demoníaco como querem fazer parecer. São dotadas de razão. Eppur si muove. E não há nada que me prove do contrário.

Vosso ouro pode comprar a mente de pessoas como Cremonini e Magini, mas não é capaz de comprar o tempo, o futuro. Ela se move, apesar de tudo; e meus sussurros sufocados não são nada perto do que ainda vão passar. O poder troca de mãos constantemente e não será diferente com papa algum. Ou com o legado que a santa igreja carrega. Ou com o império defensor de mentiras, injúrias, calúnias e enganação.

Ainda não disse tudo o que eu tinha para dizer. Ainda não ajudei as pessoas a encontrar tudo o que precisam encontrar dentro de si mesmas e não encontrei tudo o que eu desejo encontrar dentro de mim mesmo. Ainda sois vós quem detendes o controle e isso é frustrante. Mas a vida é maior do que vosso império e do que a visão teocêntrica quadrada que quereis disseminar por entre tantas mentes ignorantes e por tantas almas ímpias. É maior do que eu e do que as minhas extremas discordâncias. Se pensásseis que calar-me torna o santo pontífice Deus, não vos enganeis. Eu falei demais e apenas iniciei o assunto. Isso é só o início do vosso declínio. Posso enxergá-los tentando se reerguer enquanto escolho que confissões proferir. Posso ver um futuro onde a queda será incessante. Posso vê-los lutando contra o resto do mundo. Posso vê-los perdendo a guerra contra a evolução. A guerra - suicida - contra o tempo.

Tais imagens surgem a cada fração de tempo regular. No meio delas, estão os sonhos que nunca conseguirei realizar. Meu medidor de tempo que sequer saiu do pergaminho, as melhorias que eu poderia inserir no telescópio, o casamento de Virgínia, que Maria Celeste se tornou. Verdade foi minha insistência na carreira de santidade, mas, devido aos recentes acontecimentos, só posso lamentar a morte da minha filha dentro daquele ninho de cascavéis arrogantes.

Cascavéis essas que se fazem de santas quando visam o ouro e o prazer como nós, meros mortais. Que traem como o mais vil dos humanos e que mentem mais do que todos nós juntos. Vossa visão não ficou comprometida pelo fanatismo. Foi o fanatismo quem foi afetado pela visão de tamanho controle que detendes e também pelo poder que podem vir a possuir.

Todas as verdades são fáceis de entender, uma vez descobertas. O caso é descobri-las. E, Deus queira, que a verdade sobre vós, seres profanos cobertos pela máscara da santidade, seja revelada. Deus queira que também sejam condenados na fogueira dos homens. Deus queira que as pessoas possam abrir seus olhos e possam perceber tamanha cegueira imposta. Não será um caminho simples, eu sei, mas, no fim, vossa ruína é inegável porque a verdade é filha do tempo, e não da autoridade. Posso vê-los caindo. Posso ver as ruínas do castelo de São Pedro. Posso ver seus anjos e adornos ardendo no fogo eterno do inferno.

Para vossa desgraça, eu não me sinto obrigado a acreditar que o mesmo Deus que nos dotou de sentidos, razão e intelecto, pretenda que não os utilizemos. E, para vossa maior desgraça, também tenho voz. E, pasmem, ela soará em alto e bom som. Um dia. Num futuro nem tão distante assim, minha voz soará pelos quatro cantos do Vaticano. E do mundo.

Não sois vós cegos. Sois vós espertos e inteligentes. Cegos são seus seguidores, que não enxergam vossa esperteza. Astuciosos como coelhos, sabeis o que eu digo e sabeis bem que é verdade. Só ignoram, propositalmente, que a verdade não resulta do número dos que nela creem.

Só não querem perder o título de “centro do universo”.

Só não querem perder o controle da mente dos seres inferiores.

Só não querem parar de brincar de Deus.Seu humilde prisioneiro,
Galileo Galilei

Inspirado na história de Galileu Galilei e na música "Losing my religion" da banda R.E.M

*"Eppur si muove" - "Apesar de tudo ela se move"

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Intragável

É de noite, quando todos os seres normais se sentam para ver a novela das nove, que você aparece. Sua imagem, seu rosto retorcido de raiva entra novamente na minha cabeça enquanto as lágrimas finalmente saem.

Por que não consegui derramá-las na sua frente? Por que esperei tanto para chorar?

Tantas perguntas sem respostas, tantas respostas imaginárias que fazem mais lágrimas frias surgirem por não poder viver num mundo que eu mesma criei e com o qual eu tanto sonhei. Parece covarde, eu sei, mas a saída que encontrei foi o velho clichê do copo de bebida barata num bar qualquer. Não é nem de perto tão luxuoso quanto na televisão. Chega a ser pateticamente ridículo.

Uma mulher de vinte e cinco anos, seis meses e dois dias derramando suas lágrimas, mágoas e seu quebrado coração dentro de um copo de whisky que deveria ser ilegal de tão ruim e barato que é. Talvez eu não esteja fugindo da dor e sim de mim mesma, do meu erro. Quero esquecer. Esquecer você, nós dois, esquecer tudo o que pode ser ligado a nós. Esquecer que ela te tem enquanto fui eu que sempre te cuidei. E eu, que não bebo, estou aqui. Para ficar mais clichê é só dizer que minhas unhas são testemunhas de um crime sem perdão. Na verdade elas são, mas isso não vem ao caso. Ou talvez venha, mas eu não consigo mais pensar direito.

Talvez eu devesse ir embora, talvez eu devesse terminar de beber o resto da garrafa ou talvez eu devesse ir ao banheiro retocar a maquiagem. Talvez fosse tarde demais para fazer qualquer uma dessas coisas porque você acabou de entrar neste lugar. Veio me salvar. Que bela bosta.

Quando foi que invertemos nossos papéis? Era o contrário. Exatamente o contrário. Era eu quem vinha te buscar nesse mesmo boteco que só não é pior porque tem música boa. Lembra da última vez? Você estava enchendo a cara porque ela tinha te colocado para escanteio e eu vim socorrer meu melhor amigo que derramava seu coração num copo de alguma bebida que faria mal a qualquer um. Que, por sinal, tinha um péssimo gosto.

E eu saí da temida friendzone direto para o campo das rejeitadas, que é tão temido quanto. Eu disse que era patético. Tudo é patético. Você é patético por acreditar que ficar comigo poderia te fazer esquecê-la, ela é patética por te mandar para escanteio, você é patético por me mandar para escanteio sua mãe é patética por te colocar no mundo e eu sou patética por pensar nisso tudo quando deveria ir para o banheiro fazer o maior xixi do mundo até você desistir e ir embora. Merda.

Voltando ao meu monólogo, semi-consciente de você me pegando no colo, eu não sei o que você faz aqui. Eu já sabia que você tinha algum problema sério de cabeça. Meu filho, tem uma loirinha bonitinha e pequenininha querendo seu corpo nu e você está carregando uma bêbada de coração partido e unhas mal feitas. Você é patético por isso também. Só não sei se é mais patético por me trocar por ela ou por vir aqui ser meu salvador montado num carro branco. Por Deus, me solte e me deixe na calçada. Tenho certeza de que consigo entrar no bar e voltar, sã e salva, para o meu banco quebrado e meu copo meio vazio. Me deixe experimentar um coma alcoólico, por favor.

E não passe a mão no meu rosto enquanto diz coisas reconfortantes. Pelo menos é o que eu imagino que sejam. Desculpe-me por não conseguir processar as palavras que saem da sua boca. Meus pensamentos estão trôpegos demais para distinguir suas frases. E aposto minha vida que minhas pernas também estão trôpegas demais para andar sem cair de cara no chão e sair rolando pelas escadas do prédio. Obrigada por me privar disso. Eu acho.
--

Agora a luz do sol fere meus olhos e os seus estão fundos e com enormes olheiras embaixo. Não dormiu. Previsível. Você ficou a noite toda e ainda está aqui. E eu não ousaria imaginar o contrário. Como poderia se é isso o que sempre faz? Você fica. Sempre fica. Mesmo quando não mereço, mesmo quando sou a pior pessoa do mundo. E é quando seu celular toca e o nome dela é o que aparece na tela. Você atende, resmunga alguma coisa inaudível e, olhando para mim como quem pede desculpas, se despede dela com um "tchau, meu amor".


Ah, merda. Acho que vou vomitar.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

No fim, até Shakespeare paga o pato

Que você é inteligente, todos já sabem. De que tem a capacidade de ser muito mais do que é, todos têm certeza. De que você tem a plena consciência disso... Claro que tem! Com esse bando de gente gritando em seus ouvidos, fica difícil não escutar.

Mas, de vez em quando, acontece aquele tipo de coisa que te faz pensar... E muito. Talvez ninguém queira realmente entender, mas, como eu sempre digo, a capacidade irônica do ser humano é infinita. E fascinante.

Então, lá vamos nós de novo. Dissecando mentes pequenas, examinando a hipocrisia - proposital ou não.

As pessoas te colocam num pedestal. Sim, eu sei que é muito, mas você está lá. Envolvida pelo vidro inquebrável da idolatria quase que medieval. Ou medieval, se for considerar o nível de desenvolvimento do senso crítico de algumas pessoas.

Seu cérebro é rápido, brilhante, merecia ser estudado pelos mais renomados cientistas do mundo. Porque você é um gênio. E porque seus parentes estranhos têm que ganhar a competição de "família do ano".

Na verdade, a única coisa que você conseguiu fazer foi vencer o ensino fundamental e médio sem meter os pés pelas mãos e ter a mãe chamada na escola por motivos de notas. Detalhe: as brigas, fugas e o tão inesquecível "vai tomar no cu, professora" não entram no histórico. Menos mal.

O problema é que você fica naquele pedestal feito com o mais raro marfim simplesmente porque fez a maldita da sua obrigação quando ninguém mais fez por você.

- Passe de ano. - Eles disseram.

Você, como filha medrosa que era, passou.

- Sem recuperação. - Completaram.

Pronto. Um histórico sem notas vermelhas é o que eles têm.

E, mesmo por ter sido mandada, guiada, arrastada e obrigada a fazer alguma coisa, você é parente direta de Zeus ou algo do tipo. Vai entender...

Mas o problema não para por aí. Você ainda tem que ser viciada em livros, ter mais de cento e cinquenta títulos na estante e ler mais de um livro por semana. Agora você é o próprio Zeus. Ou algo perto, bem perto, disso.

- Gente, eu só passei de ano. - Você diz.

- Deixa de ser modesta! - Eles dizem.

- Para de ter vontade de ser elogiada! - Completam. - Isso é muito feio!

- Mas eu só disse que não sou nenhum Einstein da vida! - Eu realmente não sei por que você insiste em discutir.

- O QUE??? COM AQUELE TANTO DE LIVRO E TANTA NOTA BOA??? DEIXA DE SER MODESTA!

Desista, criatura. Eles venceram e você é o ser mais idiotamente retardado do mundo por dizer que não é um gênio. Se é que algum gênio consegue ser o ser mais idiotamente retardado do mundo... Perceberam a ironia? Eles não.

Não seja modesta. Ok. Você quer, pode e consegue. Na sua cabeça, você nem é isso tudo, mas discutir gasta energia demais. Então, só resta concordar: você quer, pode e consegue.

Assim como consegue dizer que Shakespeare tem uma frase que fala sobre o que sua tia acabou de dizer ou que Sidney Sheldon escreveu um livro sobre prisão feminina que, coincidentemente, é o assunto do debate familiar.

Só que você não pode falar essas coisas. Porque você é muito convencida e porque tem que ser humilde. Porque você não é isso tudo e não deve querer dar uma de intelectual. Porque você só conseguiu passar de ano sem recuperação.

- Ui, Shakespeare! - Ironizam. - Nossa, gente, ela lê Shakespeare e o Sidney Sheldon falou aquilo! Baixa a bola, mocinha.

Sua vontade é mostrar esse texto inteiro para eles. Fazê-los entender que nem eles entendem eles mesmos e suas ideias paradoxalmente distorcidas de acordo com a própria vontade.

Só que você seria convencida por mostrar algo que você mesma escreveu como se fosse a verdade do mundo.

E, mais tarde, talvez, será modesta demais por não ter mostrado.

E é convencida demais só por ter escrito esse texto.

Mas, talvez, será vista como um gênio por tê-lo escrito.

Ou como a pessoa mais convencida do mundo.

Eu disse... A capacidade irônica do ser humano é infinita. E, talvez, você não queira realmente entender. E dissecar mentes pequenas - o que, sem acaso, foi o que eu acabei de tentar fazer - não vale à pena quando até Shakespeare paga o pato.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Alguma crônica qualquer - II

Enxugue essas lágrimas que esse seu rosto vermelho e cheio de catarro me irrita. Para! Para de fungar. Ele não te quer, eu sei. E daí? Se afogar em chocolate vai mudar alguma coisa? Por acaso ele vai ter querer se você estiver dez quilos mais gorda? Não. Nós duas sabemos que não.

Lave esse rosto que essa cara de cachorro chutado me estressa. Não. Chega de soluços desesperados. Ele não te quer? Há quem queira. Quantas pessoas habitam esse projeto de mundo? Vale à pena chorar por um indivíduo que não presta? Não. Eu sei que não. E você também sabe.

Vem, eu te empresto meu corretivo e meu rímel. Pode usar a vontade, e use muito. Pode exagerar.  Vai ser difícil esconder esses olhos inchados. Não deixe as lágrimas escorrerem novamente. Ele não te quer? E daí? Amanhã passa, você se apaixona de novo e ele vai ser só mais um idiota.

Vem, minha filha, anda logo. Erga a cabeça, estufe o peito e se infle de orgulho. Ele não te quer? Há quem queira. Além disso, o mundo não vai parar para esperar seu coração partido se regenerar.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Epitáfio

E seu epitáfio será: Foi um grande pastor.

Não foi mais nada. Casou-se frentista e divorciou-se estilhaçado. Ela não o merecia e era o amor da sua vida. Amaldiçoou a família pela própria burrice e culpou-os pela própria fraqueza de nunca ter conseguido se remontar. Resolveu mostrar que era alguém e que era sim capaz de dar a volta por cima. Entrou na faculdade e se tornou pastor. Iria se vingar. Orgulhava-se de seu poderoso intelecto e da oratória invejável. O melhor da pequena cidade, o mais adorado da região. Ela se arrependeria por tê-lo chutado.

Não foi marido e nem pai. Depois do conturbado divórcio, afastou-se dos filhos pela tão obsessiva vingança. Eles o lembravam dela, o grande amor perdido. Queria esquecer. Livros e mais livros faziam-no se sentir seguro enquanto trancava seu coração. Aos poucos, foi se esquecendo de quem lhe amava. Jogou fora alguns instantes e amores importantes. Queria se vingar dela e da família que um dia o nomeou inútil. Nunca abraçou os filhos ou ajudou-os com qualquer coisa. Eles lhe lembravam ela. Se os ajudasse, ajudaria ela. E não queria ajudá-la. Porque a odiava. Porque a amava. Porque odiava a si mesmo por amá-la.

Não foi pai e nem avô. Assim como fizeram os filhos, sofreram os netos. Não os amou, não os reconheceu como parte do seu próprio ser. Eram sangue dela. Esquecera que também eram seu sangue e carne próprios. Ainda queria vingança e frustrava-lhe vê-la tão bem, tão feliz com os filhos e netos. Tanto lhe quis infelicidade que se esquecera de cultivar a própria alegria. E os familiares, também os filhos e netos, estavam certos ao chamar-lhe arrogante insensível. Afastou-se de todos para não precisar de ninguém. Sua vingança não era só dela. Era de todos os que ela amava. E esqueceu-se – talvez espontaneamente – que os que ela amava lhe amavam também.

A frase cravada em seu túmulo será: Foi um grande líder religioso.


Porque não foi mais nada para ninguém.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Perfeita Simetria

Um sorriso de batom vermelho e uma piscadela repleta de segundas, terceiras e quartas intenções. Muitas vezes é o suficiente e muitas, não. Depende de como será a próxima boneca. Depende do seu tamanho, sexo, idade e cor. Infinitas variáveis que são enfrentadas na hora em que aparecem, de improviso.

Elvira não se lembra de quando descobriu que as amava, mas se lembra de como começou a fabricá-las. As memórias e sentimentos da primeira vez que praticou seu dom permanecem vivamente talhados em sua alma. Afinal, a primeira vez a gente nunca esquece.


Era um dia chuvoso de natal e a milésima boneca que havia ganhado tinha a aparência real demais para ela não passar horas, dias, admirando-a. Tudo nela era de verdade. Feita em tamanho real, cabelo real, até os olhos eram assustadoramente humanos. Elvira encontrara seu grande amor.

- Custou os olhos da cara. - A avó havia dito. Elvira deveria tomar cuidado especial com ela, pois era francesa. E a garota concordava. Abella seria seu nome porque sua face alva e simétrica era a mais bela de todas. Desde então, sua sede por mais e mais beleza só se intensificou.


Enquanto relembrava a história, os olhos astutos buscavam a mais bela face dentre todas. Talvez conseguisse superar a modelo anterior. Outro sorriso surgiu quando Elvira se lembrou do último espécime. Uma negra alta de olhos cor de chocolate intenso e sorriso brilhante. Graças à ela, a beleza de Acácia seria imortalizada numa das mais perfeitas bonecas que quaisquer mãos algum dia haviam criado


Acúrio era o nome dele. Sua primeira criação. Por que um homem? Porque Elvira havia se cansado de bonecas. Queria um par para suas belas garotas. E precisava de alguém ligeiramente feio. De maneira alguma iria usar um deus grego para primeiro modelo e cobaia. Primeiro pelo motivo de que a primeira tentativa é sempre a pior e raramente dá certo. Não arruinaria a beleza. De forma alguma. E segundo porque ela realmente odiava o garoto da sua sala. É bem verdade que seu nome não era Acúrio, mas, depois de imortalizado, o nome de santo mártir seria o ideal para o menino que queria ser padre.

O boneco não deu muito certo. Na verdade, Acúrio foi um completo desastre. O erro de Elvira, talvez, fosse ter derretido a cera por cima da pele já rígida. Ou então ter deixado o interior intacto. O fedor ficou insuportável depois de um tempo. Acúrio havia apodrecido de dentro para fora e ela se viu obrigada a descartá-lo. Pobre Acúrio... O experimento que deu errado para que os próximos saíssem perfeitos.


Um sorriso maior tomou conta do rosto angelical. Elvira havia achado sua beleza fenomenal da noite. Ela sorria tanto que seu nome seria Beatrice. Não dava para imaginar algo diferente. A garota usava um top branco com uma saia preta que valorizava suas curvas e sua pele clara. Talvez a deixasse com as mesmas roupas. Talvez...


A completa ruptura com a piedade foi Acácio. O mais novo da longa lista de belos rostos. O pequeno bebê de sete meses era tão lindo que Elvira não conseguiu se conter. Esse sim durou. Ela já havia treinado algumas vezes para fazer com que o bebê ficasse para sempre em sua estante.

Com Acácio ela viu cada lágrima escorrer enquanto a cera derretida revestia a pele sensível dos pequeninos e gorduchos membros. Abriu-o depois e esvaziou seu corpinho para então encher de espuma. Ele lutou. Lutou pela vida, lutou bem mais que os adultos. Mas em algum momento entre os dois processos, ele desmaiou e Elvira não teve real coragem para se certificar se ele estava vivo ou morto. Apenas continuou seu trabalho. Era o que ela deveria fazer. Seu dever. 


Parou de andar quando viu outra garota se aproximar de Beatrice. Ela era ainda mais alva que a amiga e "Bianca" lhe veio à mente. Tão alva que doía as vistas. Seria um belo espécime também. Sem dúvida, duas aquisições únicas, perfeitas.

Seus passos recomeçaram. Os saltos a levavam até o meio da pista de dança diretamente para quem ela queria. A excitação em sua barriga lhe dizia que tudo estava mais perto. Bem mais perto e emocionante.


- Carola...

- Elvira, o que vai fazer? - Os olhos azuis estavam adoravelmente aterrorizados.

- Sou Galdina, a que domina a beleza. Vou dominá-la, Carola. Trabalhar cada aspecto do seu corpo até ele ficar perfeito. Perfeitamente belo e perfeitamente simétrico.

Elisa - agora Carola - engoliu em seco. A amiga estava completamente doida. Ela sabia que morreria. Sabia que Elvira a mataria. E não tinha como escapar.

Um grito histérico preencheu o quarto quando a mulher sentiu algo quente cobrindo-lhe a pele das pernas amarradas. Sua pele queimava e a dor era excruciante. Impossibilitada de movimentar-se, Carola gritava, gritava como nunca antes havia gritado.

Já estava inconsciente quando foi aberta para ser preenchida com espuma. Mas não morta. Ainda não.

Os olhos de Elvira subiram até uma das diversas estantes e ela encarou o rosto de Acácio. O anjo petrificado a olhava tristonho e, por um momento, os olhos de Galdina se encheram de lágrimas. Acácio, o inocente, o sem maldade alguma, assistia a tudo.

Ele havia visto a cera escorrer pelos membros de cada uma das vítimas depois dele. Havia visto o bisturi penetrar as diversas peles e havia visto as mãos ensanguentadas retirarem estômagos, fígados, corações, línguas... 

Acácio... Ainda se lembrava das risadas, dos sorrisos desdentados e da inocência infantil que ele exalava. Acácio foi seu mais amado companheiro. Seu pequeno anjo que merecia ser mantido intacto.

E era por isso que mantinha o boneco do irmão na sala de criação. Porque a beleza e a inocência deveriam ser imortalizadas. A qualquer custo.

Suas mãos foram aos instrumentos certos e Galdina começou a aperfeiçoar o rosto já belo. Mediu cada distância de um lado do rosto para fazer o outro exatamente igual. Numa perfeita simetria macabra.


Beatrice e Bianca haviam se libertado por um infeliz acaso. Ou feliz, depende do ponto de vista. Ironia do destino ou não, havia uma bituca de cigarro acesa no gramado da casa de Elvira que, por sinal, é de madeira. Na verdade era, já que o fogo consumiu cada canto do imóvel.

As três mulheres chegaram a tempo de ver as labaredas incendiando tudo o que um dia havia sido de Elvira. Ou Galdina, como preferirem. Os gritos femininos foram ouvidos muito, muito longe dali enquanto a cera que cobria o rosto do irmão se derretia à sua frente.


"...Acácio também se foi. Nada sobrou do meu maravilhoso trabalho. O que é mais estranho é olhar para dentro de mim e não me reconhecer em nenhuma parte. Não é o meu reflexo no espelho e não tenho vontade de sorrir novamente. Me sinto um zumbi. Meu coração queimou junto com as bonecas e minha mente se tortura com a lembrança de tudo o que foi perdido. Inclusive Beatrice e Bianca. Deixei elas irem. A noite "de garotas" foi cancelada, de qualquer forma.

Preciso me reencontrar, voltar a viver, voltar a sorrir. Tenho que fazer a diferença e não aguento olhar para todos esses rostos imperfeitos que me olham atentamente. Eu tenho que fazer algo para que a beleza renasça.

Preciso voltar a esculpir suas faces, criar a simetria perfeita, os seres perfeitos. Meus bonecos devem ser imortais, assim como sua lembrança será imortal. A beleza... Essa sim deve viver para sempre e acima de tudo.


Mas não adianta chorar a cera derretida. Só me resta recomeçar."

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

O fantasma de Saigon

As mães contam aos filhos a história de um fantasma que vaga pela cidade à procura dos restos mortais de um homem que foi vítima de um bombardeio em 1970. Segundo a lenda, os pedaços do sargento Aaron, de sobrenome desconhecido, foram lançados ao acaso quando a bomba atingiu-o em cheio. Desde então, Loan, sua namorada vietnamita, que morreu queimada no mesmo dia, procura os pedaços do americano para que ele possa ter, no mínimo, um enterro decente, já que não virou um fantasma, ao contrário da maior parte das pessoas.

As explicações para o sumiço de Aaron são diversas. A mais aceita é a de que, ao ver Loan morrer, o espírito, bem como o corpo do soldado, foi completamente destruído e seus pedaços foram lançados aos quatro cantos da cidade. Existe também a teoria de que Loan tem contas a acertar na terra antes de ir para o paraíso se encontrar com o amado.

A única coisa sobre a qual todos concordam é que Aaron sumiu. Tanto em corpo, como em alma.

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Saigon nunca me pareceu tão deserta, tão fria ou tão... Morta. Enquanto obrigava meus pés continuarem pelo caminho doloroso, imaginava como eu poderia dizer o que tinha de ser dito da melhor forma possível. Sem ressentimentos, eu queria, mas nunca cheguei a acreditar realmente nisso.

Cada passo, uma tortura. O frio me atingia de dentro para fora e o sol quente nada fazia para aplacá-lo. E nem poderia. Meu coração esmagado nunca mais poderia ser requentado. Ou reconstruído.

Naquele momento, eu só conseguia implorar para que meus pés não empacassem em algum lugar entre a covardia e a tristeza. Dizem que tempos difíceis pedem decisões difíceis e eu esperava que Aaron fosse capaz de entender o quão torturante havia sido tomar a iniciativa de dar um definitivo fim ao nosso amor.

Nós nunca poderíamos ficar juntos. Mesmo que não houvesse uma guerra explodindo em meu país, mesmo que os americanos não praticassem tantos atos de crueldade contra meu povo, mesmo que não fôssemos de países rivais. Ainda que todos esses obstáculos fossem quebrados, sempre haveria um mundo inteiro entre nós dois.

Nosso exército estava ganhando, é verdade, mas o horror da guerra nunca poderia ser apagado com uma vitória. Em sua raiva insana, os soldados americanos faziam de tudo para causar mais sofrimento do que o que eles sentiam, mais dor do que seus irmãos falecidos suportaram.

Não vou citar os diferentes tipos de atrocidades que eles cometiam porque não quero – e nem preciso - me lembrar. Mas a questão principal era que Aaron era diferente. Talvez ele pudesse ter se transformado no futuro, mas, naquele tempo, Aaron era um anjo. O meu anjo. O homem que me salvou dos seus próprios companheiros, que foi contra o próprio exército por mim. Meu herói.

Eu o amava. Amava-o com todas as forças que são capazes de existir no coração de uma adolescente vietnamita no meio da mais sangrenta guerra do seu país. Eu o amava com a incessante carência de uma mulher marcada por tragédias demais para suportar sem se despedaçar. Eu o amava com todo o resto de inocência que meu coração abrigava.

Entretanto, nunca fomos feitos para dar certo. Eu tinha consciência disso. Amar Aaron era um erro e planejar, sonhar viver com ele era inaceitável. Impossível, até.

E era por isso que eu obrigava minhas pernas a se mexerem mesmo quando meu corpo inteiro protestava devido às diversas lacerações que sofri desde o primeiro dia da queda de Saigon. Os cortes, resultado da tortura incessante dos americanos, ainda sangravam. E doíam como o inferno. Seria mais fácil ficar em casa esperando o próximo bombardeio, mas eu precisava protegê-lo. Eu precisava colocar um fim no que nunca deveria ter começado.

Minha mente já havia guardado todos os argumentos, todas as frases decoradas na minha cabeça. As últimas palavras haviam sido ensaiadas diversas vezes no espelho. Era o nosso último momento juntos.

Só que eu estava errada. Nosso amor havia sim nascido para morrer, mas não seria eu a sua assassina. O contexto mundial influenciava nossas vidas e nunca poderia ter sido diferente para nós dois. Fomos vítimas do infeliz acaso que sempre permeia uma guerra.

Estávamos há uns cinco metros um do outro quando o estrondo ecoou. O céu ficou cinza de repente e o sol, de alguma forma, se apagou. Poeira encheu meu campo de visão ofuscando, por um instante, seu sorriso branco.

E então eu vi os olhos azuis de Aaron se arregalarem. Eu vi seus lábios finos se abrirem num espantado “o”. Eu vi o sangue, ouvi os gritos, eu senti o impacto e voei para longe. Eu solucei por causa da dor e olhei para baixo apenas para ver meu próprio corpo em chamas. Eu olhei em seus olhos e disse “eu te amo” antes de vê-lo explodir em mil pedaços.


Eu perdi Aaron. E preciso encontrá-lo.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Antimatéria

Escrever é meu único escape. Enquanto meus dedos batucam furiosamente no teclado, meu coração se esvazia e eu consigo ter uns poucos instantes de paz. Um segundo ao menos de tranquilidade. Sem ter que temer me desmanchar.

Porque meu peito é uma bomba relógio e a escrita o atrasa. A qualquer momento pode explodir e levar consigo o que antes foi um imenso forte impenetrável, inatingível. Se o tempo acabar, tudo voa pelos ares e o autocontrole que tanto lutei para criar se desfaz.

Porque esse sofrimento me mata. Não confio em mim mesma quando minha mente vaga por tais caminhos tortuosos. Não confio em meus olhos para se manterem secos enquanto me lembro do que me faz ter vontade de chorar.

Porque eu sou feita de aço, mas só por fora. Uma casca dura e fria que protege algo com a consistência de uma maria-mole. O sabor amargo é como uma essência, o toque final no que seria um doce por demais enjoativo.

Então, escrever é minha única válvula de escape. Uma saída de emergência para todo o ar poluído que guardo aqui dentro. É o meu porto seguro, meu altar; a zona de conforto na qual eu não preciso temer explodir.

Porque eu sou uma partícula de antimatéria. Letal. Pronta para destruir tudo á minha volta ao menor sinal de perigo.

Pronta para autodestruição.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Algum poema qualquer - I

Por todas as insanas palavras que dos seus lábios saem,
por todas as várias vezes que minha frágil alma feriu,
por todas essas lágrimas que dos meus olhos caem
e por cada vez que, sem dó nem piedade, meu coração partiu.


Transferi toda a minha dor e raiva para um doloroso tapa
e espero, sinceramente, que lhe doa como doeu em mim;
que seja esse o nosso amargo, justo, rubro e doloroso fim
e que tu, destruidor de corações, vá ao raio que o parta.


Sua face vermelha agora guarda minha perversa marca. 
Seus olhos, belos, gélidos e azuis, não mais me atingem. 
Seus lábios, dedos e pêlos não vão mais tocar minha pele.


Eu, por fim, descobri que precisava de vergonha na cara. 
E não de um pseudo homem cujas atitudes me oprimem.

Então decidi por esquecer quem é só mais um verme.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Estava em seu lugar

Não era mais o mesmo, mas estava em seu lugar.
- O astronauta de mármore - Nenhum de nós

Seu corpo estava ali: pronto para o combate. Mas sua alma havia ficado em algum lugar pelo qual havia passado e feito um verdadeiro massacre. A ordem era matar toda e qualquer pessoa que se opusesse a eles e não era à toa que Hans era um dos melhores soldados do seu batalhão.

Em seu peito, o coração batia, mas nada mais sentia. Criou um invólucro de frieza ao seu redor para não enlouquecer. Poderia ser feito de aço, se quisesse. Poderia não vê-los sofrer. Poderia fechar seus olhos para nunca mais enxergar as aflições que ele mesmo causava.


Seu corpo estava ali: pronto para mais um combate. Seus olhos não mais enxergavam a dor, seu peito não mais sentia qualquer coisa, seu corpo apenas ia. Sem hesitar. Não pela falta de medo, mas pela inexistência de qualquer coisa a mais. Não era mais o mesmo. Mas estava em seu lugar.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

A eterna espera de uma alma desinteressada

O ato de esperar é uma coisa interessante. Você simplesmente fica parada, plantada feito uma árvore, no meio da calçada, olhando para o nada, enquanto espera o maldito do ônibus que sempre atrasa. Já pensou em sair mais tarde, mas não tem coragem de pagar para ver. Do jeito que sua sorte anda lá pelos confins do inferno, ele chegaria mais cedo e o próximo te deixaria esperando até o fim dos tempos. Então você simplesmente desce o maldito morro da sua rua sempre no mesmo horário, fica parada sempre no maldito do mesmo lugar esperando o mesmo ônibus que sempre atrasa. Que rotina mais interessante, não?

Não.

Uma vez ou outra, aparecem pessoas com ânimo o suficiente para te acompanhar na eterna espera que, obviamente, parece não ter fim. Algum preguiçoso que não quer ir a pé para a escola que fica há dois quarteirões ou alguma vizinha velha e fofoqueira que quer... Bem... Fofocar. E reclamar. Essas são as piores. Já chegam ao ponto no meio de uma frase sobre os filhos, netos ou qualquer outra coisa que realmente não te interessa. Fala, fala e fala até a garganta secar. E o ônibus, infelizmente, ainda não chegou. Sua companheira de espera - vulgo maritaca ambulante - engole um pouco de saliva e começa, dessa vez, a reclamar. Reclama do ônibus que não chega, dos carros que passam tocando funk na mesma altura dos gritos num Mineirão lotado, do cachorro que late do outro lado da rua, do cachorro que anda pela rua, da criança na frente dos irmãos mais velhos, da criança atrás dos irmãos mais velhos e, claro, do atraso do ônibus. Você? Apenas escuta, fazendo uma prece silenciosa para que o ônibus chegue logo ou, o que é mais fácil, para que um raio caia do outro lado da rua e ela vá lá reclamar com a calçada destruída ao invés de alugar seu ouvido.

Mas você logo se conformo e percebe - pela décima quinta vez no dia - que reclamar é um verbo - e ação - constantemente inserido no dia a dia dos seres humanos. Aposta consigo mesma que algum laudo médico já atestou que fulano morreu porque não tinha nada do que reclamar. Se não reclama em alto e bom som, reclama mentalmente. Como você mesmo reclama, enquanto escuta as lamentações de uma outra usuária do transporte público.

O ônibus finalmente chega e você penso que poderia ser pior. Não morreu de tanto esperar ou de ouvir. Seu dia ainda pode ser salvo. E então, no meio das suas divagações de alguém que usa fones de ouvido pra espantar as vozes estridentes, leva um susto com o barulho de não-sei-o-quê que bate em algum lugar toda vez que o ônibus passa por algum desnível no asfalto. O que acontece três vezes a cada segundo. E a motorista - Meu deus do céu! É uma mulher! - não sabe o que é dirigir devagar ou, no mínimo, com cautela. Resmungando imprecações contra carros mal estacionados, pedestres fora da faixa - e sabe-se lá deus o que mais -, a mulher dirige feito uma bruxa louca e desgovernada. Até parece você mesma, quando fico sabendo de uma promoção de sapatos. E, esperando não morrer dentro daquele imenso caixote azul - o que não seria nada elegante -, decide que tem que comprar um carro. Essa vez foi qual? A quinta em menos de uma semana? Já teria comprado cinco carros essa semana se tivesse dinheiro para isso. Mas não tem, então espera.

Espera o ônibus chegar para a vizinha calar a boca e você conseguir chegar ao trabalho - viva - para tentar juntar o dinheiro necessário para sobreviver no mundo sem reclamar. E, é claro, comprar um carro. Meu deus. Que rotina interessante, não?

Não.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Que me desculpem os puritanos

Tentei ser crente, mas meu cristo é diferente.
- O Rappa

Que me desculpem os religiosos, mas não consigo acreditar num Deus que cobra para salvar vidas; num Deus que manda carnês e que pede ouro e prata em troca de bençãos. Não consigo confiar num Deus que me quer sentindo dor, convivendo com cilício cada dia da minha vida. Não acredito nesse Deus que ama apenas uma parte e não o todo; ou nesse tal Deus que só ama quando vê dor, sangue e lágrimas.

Também não consigo confiar num Deus intolerante que despreza outras religiões e crenças com a mesma força que vocês desprezam maus hábitos. Ou num Deus que odeia apenas pelo gosto musical ou pelas roupas que lhe cobrem - ou não - a pele. E, muito menos, num Deus que perdoa assassinos e pedófilos com a mesma facilidade que condena homens que amam outros homens.

Que me desculpem os pregadores da vida correta, mas não acredito num Deus que quer servos que não erram quando ele mesmo os fez humanos. Ou num Deus que odeia as escolhas erradas quando nos ofereceu o livre arbítrio.

Também não acredito em quem fala de santidade demais, salvação demais, que são perfeitos demais. Não confio em quem nega sentir algo, em quem condena atos profanos com a mesma força que imagina fantasias eróticas inimagináveis.

Que me desculpem os puritanos, mas não acredito que sejam santos.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Depois do sétimo vem o oitavo

Joguei a aliança no lago porque me afogar seria dramático demais. Melhor deixá-la se afundar. Assim como nosso casamento acabou no fundo do mar. Ou como nós o afundamos. Na verdade, não me importo em culpar ninguém. Acabou. E ponto.

A questão é que você fez as malas e foi embora. É verdade que eu mandei, mas, como eu disse, não me importo mais com os culpados. Só me restarão lembranças e álbuns de fotos que eu insisto em guardar no armário. Logo terei que arrumar mais espaço, presumo.

Sem ressentimentos, eu digo. Não vou culpá-lo por não ser meu príncipe encantado. Não vou condená-lo ou processá-lo por não saber ser o homem ideal. Sinceramente? Já passei dessa fase depois do terceiro ex-marido.

Há quem diga que é hora de parar. De me aquietar um pouco. Há quem me chame de velha demais para encontrar o tal príncipe. Que seja o rei, então. Não vou desistir da minha felicidade. De forma alguma. Se não deu certo com o sétimo e a aliança de ouro branco foi parar no fundo do lago, que venha o oitavo. Talvez, ao lado dele, eu tenha o meu tão sonhado conto de fadas.
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