sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Tentei

Tentei não chorar quando seus braços fortes enlaçaram minha cintura pela última vez. Tentei conter o soluço sufocado contra seu ombro quando sua boca encontrou meu ouvido e me sussurrou promessas de saudade e ligações. Tentei respirar calmamente e dizer "adeus" com a voz firme e controlada. Mas eu também tentei não te amar... E, miseravelmente, falhei.

Tentei sorrir quando você acenou da porta que nos separaria definitivamente. Tentei acenar um "tchau" despreocupado quando você me olhou por cima do ombro. Tentei ficar bem ao te ver partir para longe de mim. Mas eu também tentei não chorar de madrugada... E, dolorosamente, falhei.

Tentei evitar esse tipo de despedida. Tentei ignorar essa coisa aqui dentro. E eu juro que tentei não mais amar. Tentei não te amar. Tentei me recompor e enxugar as lágrimas que teimavam em descer como se não houvesse uma mente que as comandasse. E descobri que não havia mesmo. Seu torpe comandante era - e é - um coração. Mas eu também tentei pôr a cabeça no lugar. E, apaixonadamente, falhei.

Tentei respirar fundo e me acalmar. Tentei não assistir o avião partindo pelo vidro fumê que cobre toda uma parede do aeroporto. Tentei assistir o maldito avião partir, mas sem lamentar. Tentei não sentir dor. Tentei tantas coisas que me dá medo. Tentei conseguir te esquecer. Tentei me livrar de você. Mas eu também tentei não sorrir toda vez que você me ligava. E, assustadoramente, falhei.

Onze vezes você

Primeiro a porta. Depois do seu nome, claro.

- Leonardo.

Viro a chave para a esquerda e então para a direita.

- Leonardo.

Esquerda. Direita. Já foram duas vezes.

- Leonardo.

Três. - Leonardo. - Quatro. - Leonardo. - Cinco. - Leonardo. - Seis. - Leonardo. - Sete. - Leonardo. - Oito. - Leonardo. - Nove.

Vamos... Falta pouco.

- Leonardo.

Esquerda, direita. Dez.

- Leonardo.

Minha voz ecoa na sala escura e vazia. O décimo primeiro "Leonardo" ainda dança em meus ouvidos confundindo minha mente.

Assim como você o fez.
Desviou-se do meu caminho, driblou meus detetives e não atendeu minhas ligações. Eu deveria ter desistido.

As luzes. Apagar e acender cada uma dez vezes, intercaladas com minha voz dizendo seu nome, como num mantra sórdido. Não. "Como num mantra sórdido" não. É um mantra sórdido. Talvez chamá-lo me faça perceber que, sem nenhuma resposta, você não está escondido em algum canto pronto para fazer comigo o que fez com inúmeras outras; pronto para terminar o serviço. Ou, como dizem os psiquiatras, isso só serve para reforçar ainda mais meu medo.

Ainda me sinto culpada. Todos dizem que a culpa não é minha, mas fui eu quem pediu seu número ao dono do cassino. Eu deveria ter deixado para lá quando engasguei ao ouvir sua voz grave ao telefone. Não deveria ter insistido depois de desligar sem dizer nem ao menos uma palavra.

Disseram que minha obsessão era doentia, mas a sua era mil vezes mais.

- Leonardo.
Pela décima primeira vez ao conferir a lâmpada da área de tanque. A última. É a vez das janelas. Uma de cada vez. Acompanhado pelo mesmo mantra macabro.

Já tinha algum tempo que eu te conhecia. Sabia quando acordava, quando ia para o trabalho e quando dormia. Não dizem que mulher ciumenta investiga melhor que o FBI? Mulher apaixonada também.

Foi assim que eu descobri tudo. O início da minha ruína. O motivo do meu medo, minha doença:

Você.

Enquanto confiro todas as gavetas da casa, me lembro dos corpos, do sangue, de todas as moças que passaram por suas mãos de precisão cirúrgica. Lembro que o policial falou dos lugares certeiros que foram cortados. Os nervos mais sensíveis e menos mortais. Tudo friamente calculado para sentir a maior dor possível no maior tempo possível.

E eu, tola que era, só fui descobrir tudo tarde demais. Eu já te amava, já tinha ido à sua casa e já tinha te dado meu nome. E sabia demais. Depois disso, foi só uma questão de tempo até me ver sendo perseguida por um serial killer digno de Law and Order SVU.

- Leonardo.
Eu poderia deixar de verificar a linha telefônica. Poderia ir diminuindo aos poucos, como o médico disse. Foco, força e fé. Fecho os olhos e concentro toda a minha fraca força num só pensamento:

- Eu não preciso disso.

O mantra, dessa vez, não é tão macabro. Eu posso me curar, sei que posso. Você não vai chegar aqui e o telefone vai funcionar perfeitamente.

As luzes dos carros da polícia, as vozes dizendo para chamar uma ambulância e que ela ainda estava, milagrosamente, viva. Só depois descobri que "ela" era, na verdade, eu e que eu não estava morta. Não sei qual destino seria pior.

- Eu não preciso disso. Ele morreu. Ninguém vai me atacar. O telefone funciona. Não está cortado. Eu paguei a conta.

Doía. Cada terminação nervosa do meu corpo doía como o inferno. As luzes passavam depressa enquanto meus olhos mal conseguiam se manter abertos. Alguém dizia que minha respiração estava fraca demais e que eu havia perdido muito sangue. "Por deus", eu implorava, "me salvem!".

Talvez morrer fosse menos torturante que ficar sentada no chão dessa sala escura lutando contra a vontade de pegar o telefone e ligar dez vezes para o meu próprio celular.

"Diminua um pouco. Não precisa ser de uma vez, pode ser aos poucos. Ao invés de dez, confira cinco. Gradativamente".

A voz do Dr. Hoffman surgiu na minha cabeça no meio das lembranças do seu sorriso perverso.

Certo. Aos poucos. Pego e telefone e disco o número do meu próprio celular. Cinco vezes é mais do que o suficiente dessa vez.

O brilho frio do bisturi desvia minha atenção para o ponto no meio das minhas pernas. O sorriso branco demais, frio demais está presente durante todo o "procedimento".

"Procedimento" é como você chama o que faz. "Pesquisa" é o que diz que faz. Eu seria a última "modelo", me prometeu. Dessa vez não cometeria o mesmo erro de antes. Você realizaria a "cirurgia" e eu viveria. Ao contrário das outras, essa seria um sucesso.

Antes que eu possa evitar, lágrimas grossas escorrem pelo meu rosto. É a terceira vez nessa semana que eu choro de medo quando deveria evitar senti-lo. Os soluços são altos o suficiente para que eu deixe de escutar o som do celular tocando ao meu lado. Eu preciso me acalmar. Me acalmar e terminar de testar o telefone. Cinco vezes. Apenas cinco.

O julgamento, a pena de morte, o olhar assassino quando eu testemunhei. A única vítima viva. De todas as cinquenta e duas mulheres, eu fui a única que não havia morrido. Sorte ou azar?


Enxugo meu rosto e me levanto. Agora existe uma mancha de lágrimas no tapete. De novo. Olho para o telefone e me dou conta de que o verifiquei dez vezes. Como sempre, nenhum avanço.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Algum texto qualquer - III

Quanto tempo faz desde a primeira vez? Desde a sua primeira vez? Cinco anos? Estranho como parece existir mais de um milênio de diferença entre nós.

Eu te ofereci o mundo e mais um pouco. Eu disse “vem comigo” e você preferiu seguir o regime familiar que sua mãe traçou para você e seus irmãos.  A esposa perfeita, o marido que sustenta a casa, filhos que seguirão seus passos. Você tinha paixão demais para isso e me mostrou exatamente como seria capaz de amar se te oferecessem uma única oportunidade. Aqui, nessa mesma sala de aula, há cinco anos.

Me diz uma coisa: como é que você guarda o tesão todo que tem debaixo das saias? Não vamos fingir que não sabemos de nada porque eu nunca fui do tipo que gostei de hipocrisia. Foi exatamente por isso que eu fui embora. Voltando ao assunto: como é que você faz para se controlar? Há cinco anos, quando você era uma virgem puritana, eu até entendia. É fácil fingir que algo não existe quando você nunca provou. Mas, depois que você deixa isso tudo fluir livremente, como aconteceu há cinco anos... Ah, meu amor, não tem como fingir mais nada.

Eu vi seu marido, conversei uns minutos com ele e, acredite em mim, eu sei que ele não é capaz de te proporcionar nem a metade do prazer que eu te dei e que você precisa.  Não me leve à mal, mas você, meu amor, merece bem mais do que “papai e mamãe” todas as sextas-feiras, depois que a criança vai dormir.

Mas ok, ok. Tudo bem. Eu entendo que foi a sua escolha. Você não quis deixar a cidade na minha garupa e agora está casada, com um filho pequeno para cuidar e um marido que não a satisfaz. Preferiu ignorar seus instintos e construir mais uma família exemplar. Essa cidade tem muitas famílias exemplares, não? A sua é só mais uma delas.

E sim, eu a odeio. Odeio esse seu ar maternal e essas suas roupas de mulher decente. Odeio seu marido de classe e o emprego respeitável que ele usa para te sustentar. Odeio seu carro sedã de cinco lugares e o diamante frio que ele pôs no seu dedo. Você sempre combinou mais com o fogo de um rubi. Odeio isso tudo que você criou e conseguiu. Odeio a arrogância que seu queixo erguido me passa, como se a sua vida fosse perfeita e eu fosse só mais um lixo.

Eu odeio o modo como você foi desperdiçada. Mas, depois de cinco anos longe, ainda sou apaixonado pelo modo como você me olha.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Miserável amor

Os olhos úmidos se encontraram com os castanhos e mais lágrimas desceram quando ele disse que estaria ali para ajudá-la. Ele não iria embora. Maria Elise não teria que criar uma criança sozinha ou correr o risco de acabar com a própria vida e com a do filho. Em poucos minutos, uma vida inteira passou diante dos olhos molhados. Ela se lembrou de cada instante e, ao sentir o aperto companheiro na mão, sabia que não seria igual. Ambos fariam de tudo para que não fosse.

Desde pequena, aprendera a nunca confiar em ninguém, a nunca se entregar e nem a se permitir repousar em braços alheios. Seu coração era deveras importante para ser entregue a outro ser. A mais árdua lição veio da própria mãe, que se permitira amar demais um homem que ela mal conhecia.

"Afinal", dizia ela, "nunca se conhece alguém bem o suficiente." As lágrimas sempre inundavam o rosto cansado ao contar a história dos infortúnios amorosos. "Seu pai disse que me amava e que ficaria ao meu lado". Uma risada amarga era proferida pelos lábios rachados antes que a voz, já rouca por conta do cigarro, continuasse: "Bastou apenas um positivo para o filho de uma puta me dar um belo de um pé na bunda".

O resto da história Maria Elise havia presenciado e não precisava de nenhuma narração interrompida por tosses histéricas para conhecer o fim. O pai sumiu, a mãe não aguentou a pressão de cuidar de uma criança sozinha e se afundou em drogas, bebidas e tudo que pudesse lhe dar o mínimo de dinheiro possível. Ou aquela maldita última dose que se repetia infinitamente.

A pequena menina, fruto de um relacionamento miserável, cresceu sem amor ou qualquer tipo de afeto. A mãe fora expulsa de casa quando os familiares descobriram a gravidez e sua mente se perdeu. O maior sonho da adolescente Maria Elise era conhecer a mulher sorridente que via nas fotos antigas. Às vezes, a sombra das drogas abandonava o olhar azul fosco dos olhos maternos e a voz ficava um pouco menos detestável ao dizer"eu te amo" para a garota. Mas palavras não valiam de nada. Nunca valeram.

E era por se lembrar de tudo o que já passara que agora chorava. Porque não queria oferecer um amor miserável ao filho. Mas também não queria perdê-lo. Queria se sentir capaz de amar do mesmo modo que ela nunca havia sido amada. Só que não sabia se teria condições, se seria capaz de dar-lhe tudo o que nunca teve. 

O médico que lhe atendera estava com os olhos tranquilos de quem já havia por aquilo diversas vezes enquanto Maria Elise se debulhava em lágrimas, sentimentos e catarro. Não era tristeza por não ter tido uma família, era medo de não ser capaz de construir uma com os tantos remendos que fez no próprio coração.

E então os olhos castanhos do namorado lhe sorriram e a mão forte apertou a sua. E Maria Elise acreditou em finais felizes e reconstrução de almas despedaçadas. Acreditou que era possível.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Algum texto qualquer - II

O salto dela pode quebrar, sair voando e arranhar o seu carro. O cabelo pode ficar enroscado no seu relógio, o batom pode ficar no dente dela e no seu rosto inteiro, sua mãe pode chegar, o pai dela pode te matar, o garçom pode ser um daqueles caras chatos que vão ver se está tudo certo de dois em dois minutos. O tempo pode estar quente ao ponto de fazer você feder, a calça pode rasgar quando você for se abaixar ou ficar molhada porque você se esqueceu da “homenagem antes do primeiro encontro”; o carro pode estragar, e ela pode perceber que você não escovou os dentes e disfarçou o bafo com uma bala de menta. Ela pode achar uma calcinha no porta luvas, junto com um DVD de filme pornô. Seu sapato também pode ficar encharcado porque você pisou numa poça enquanto ensaiava o discurso oficial para chamar uma mulher para sair. Mas relaxa. Nada disso é o fim do mundo. Pior seria se todo esse desastre acabasse em casamento.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Saudade antecipada

Merda. Deus sabe quantas vezes já pensei e repensei o assunto. Deus sabe quantas vezes segurei as lágrimas e quantas vezes sorri quando um medo alucinante tomava conta do meu peito. Deus sabe quantas vezes eu respirei fundo para impedir meu coração de disparar e as lágrimas de cair. Só deus sabe. Porque eu mesma não sei.

Já perdi a conta de quantos momentos embaraçosos passamos naquelas horas em que discutem o futuro."Que futuro?", me pergunto. Sabemos como vai terminar. Essa sombra do fim paira sobre nós desde antes do início. Mas somos idiotas, tolos esperançosos que ignoram o passado e futuro. Tornamo-nos a negação dos meus princípios e apostamos. Mergulhamos de cabeça num jogo perdido que se chama presente.

- No que tanto pensa? - Me pergunta e eu rio, amarga. Mais uma lembrança que me dói por dentro. Quando eu disse ser amarga demais para ser saudável e você retrucou dizendo que sabe me amansar e que gosta de me fazer doce. Infinitos não existem. Infinitos perfeitos menos ainda. Como fui acreditar que algo tão bom assim fosse durar?

- Em nós. - Abaixo a cabeça e respiro fundo mais uma vez. Espero que Deus não esteja realmente contando esses momentos melancólicos da senhora insensível. Percebe o que me fez? Tenho que lutar por controle das minhas próprias emoções! Antes de você eu apenas era fria e pronto. Sem nenhum tipo de esforço ou lágrimas. - Ou na falta de nós no futuro.

Você ri. Ri! A quem quer enganar? Ambos percebemos a dor que segue sua gargalhada. Será que seu sofrimento antecipado é tão grande quanto o meu? Deus queira que sim. Pode me chamar de egoísta, mas não quero sofrer sozinha.

Por um momento eu pensei que você fosse dizer alguma coisa. Por um momento eu realmente pensei que ia falar qualquer besteira para que eu me sentisse melhor e que iríamos fingir que funcionou. Por um momento eu quis essa cena de filme clichê na minha vida. São assim que os clichês surgem, oras. Por que não pode acontecer comigo? Mas você detesta clichês e esse é um dos motivos por estarmos juntos agora. Então, para acabar com todas as escritoras da Harlequin, você me puxa do sofá e me abraça. Ficamos um tempo de pé com os braços entrelaçados. Meu rosto teima em se esconder no seu peito e, mais uma vez, respiro fundo. Merda. Eu não vou chorar, não vou.

- Eu sei que você me ama. - Eu te empurro e te dou um tapa porque é mais fácil. Filho da puta arrogantemente gostoso. Vou sentir sua falta e isso dói. Dói antes mesmo de vir a saudade. Algumas tentativas frustradas de me abraçar novamente até que eu te jogue no sofá e me jogue ao seu lado também. Seus braços abraçam minha cintura e meu corpo se aninha contra o seu. Nosso olhos se encontram e então os lábios. Posso sentir a tensão em nossos corpos, o medo em nossas almas. Posso sentir a saudade consumindo nosso amor até que não exista mais nada. Mas isso acontecerá no futuro. Não agora. Agora eu quero te beijar.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Alguma crônica qualquer - I

É só mais uma daquelas coisas que eu não consigo entender. E nem quero. Pessoas desejam aquele amor de conto de fadas que no fim terá escrito "E viveram felizes para sempre" em letras entrelaçadamente irritantes. Como se uma alma ficasse presa à outra por toda a eternidade assim como as letras estão, no fim do filme.

Primeira coisa: Não é "para sempre". Certo, eu sei que é óbvio, mas... Ugh! Por que insistem em negar a existência de um fato tão crucial da vida humana? "Que seja eterno enquanto dure", por tudo o que é mais sagrado, não finja que dizer isso vai mudar alguma coisa. Vai acabar, minha filha, se prepare desde o início que dói menos. Se você não levar um chute no traseiro, alguém vai morrer porque é isso o que acontece: alguém morre.  Sempre.

Como se não bastasse ignorar a existência do fim, a criatura ainda insiste em chamar os que não concordam com ela de "insensíveis" e coisas que, no fundo, significam a mesma coisa para a mente limitada da candidata à Cinderela. Alguém lhe ensine o que é ser insensível porque a pessoa também não sabe que "insensibilidade" e "realismo" não são antônimos.

E é claro que todo conto de fadas tem um príncipe. Dã! Óbvio, né? Os que não têm um príncipe, têm um salvador milagroso como o caçador da chapeuzinho vermelho ou o porquinho inteligente que constrói a casa de tijolos. Porque meninas são sensíveis e tão frágeis que precisam de um Edward de estimação que vai salvá-la dos terríveis Volturi.

Admito que não sei quem os "Volturi" da questão são. Não se encaixa na família do tal príncipe ou no vilão que quer tê-la como esposa à qualquer custo. E, meu deus do céu, que espécie de adolescente de quinze anos de idade vai matar meio mundo para roubar a namorada do seu arqui-inimigo?! Se ele matar alguém por causa de mulher/menina/ameba ou sei lá o quê deveria ficar na cadeia ou numa clínica psiquiátrica. No mínimo. Sem falar que driblar a polícia, ministério público e a família de uma menina rica ou do viúvo milionário é muito fácil, certo? Só que não, minha filha.

Ou talvez eles sejam mesmo os vampiros ocultos que só estão esperando que o outro vampiro se apaixone pela humana pateta para tentar matar todo mundo. Então por que não matam logo o vampiro mais pateta ainda ao invés de dar a chance para o "bem" vencer o "mal"? Se os vilões da vida real fossem tão burros assim, não existiria bandidos, todo homem seria casado, todo mundo teria uma arma para fazer o papel de justiceiro e o código penal seria desnecessário. Tão desnecessário que nem existiria. Utopia dos corações desprovidos de razão, meu bem.

E temos que concordar que ninguém é tão bonzinho ao ponto de beijar uma pessoa morta só para ver se ela acorda. Quem em sã consciência vai beijar uma desconhecida morta? A não ser que curta necrofilia, mas isso não vem ao caso.

O "para sempre" e o "santo príncipe" não existem. Mas nós temos aquele ser asqueroso que muda pela Bela. Temos a Fera que, pelo verdadeiro amor, se transforma num príncipe. É, meus caros, tem aquelas imbecis que se apaixonam pelo serial killer e pelo assassino de aluguel. Tá. Talvez não ela não tenha culpa de se apaixonar porque ninguém manda no coração, mas ela vai atrás dele. Vira seu bichinho de estimação. Isso porque eles seriam uns anjos com uma menina apaixonada, teriam a linda ação de se apaixonarem de volta e contariam para a doce e sensível anta que recebe para matar outras pessoas. E eles, de forma alguma, iriam matá-la também. "Imagina! É um serial killer! Nunca me mataria!"

E, como se não bastasse, o tal assassino/príncipe/salvador-de-jumentas-em-perigo é o Harry Styles. É, eu sei. Nonsense também.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Admiro os suicidas

Sabe, eu admiro os suicidas. De certo modo, eles não desistem no meio do caminho. Eles se matam e não amarelam durante o ato ou até que seja tarde demais. Persistência, pelo menos, eles têm.

Admiro os suicidas decididos. Admiro as pessoas que tomam uma decisão difícil rapidamente. A maior parte das pessoas só consegue pegar a lâmina de um apontador velho e ficar brincando de desenhar na própria pele ao invés de dar logo um fim ao tormento. Admiro sua resistência à dor também, mas isso é assunto para outro texto.

Admiro os suicidas religiosos. "Por deus, eu morro. Porque Ele quis assim e um mundo melhor dependerá de mim e blábláblá". As consequências e se o mundo será mesmo melhor depois disso? Bom, eles não vão estar aqui para presenciar, certo? Admiro sua fé inabalável e incondicional.

Admiro os suicidas altruístas. São aqueles que se matam pelo bem de outra pessoa. Têm em si o valor da solidariedade. Todos nós concordamos que ser solidário é raro nos dias de hoje, então não vamos criticá-los.

Admiro os suicidas aventureiros. Já tiveram o suficiente deste mundo, já conseguiram tudo o que queriam. Hora de respirar novos ares numa nova encarnação ou no paraíso, talvez. Que seja. Admiro-os por buscar algum motivo para viver. Algo que realmente valha à pena. Por mais estranho e irônico que isso possa parecer.

Admiro os suicidas covardes. Estão cheios de problemas, o dinheiro acabou, tirou nota baixa na prova e por aí vai... Não querem enfrentar o mundo depois do fracasso e tomam a atitude que dá mais certeza de evitá-lo. Um segundo de coragem insana é preciso, admirável e é isso tudo o que eles têm. O último, mas ainda assim é um segundo de coragem insana.

Admiro os suicidas culpados. Aqueles que escrevem uma carta sobre tudo o que não mais suportam e pedem desculpas. Admiro esse tipo de suicida pela confiança que tem em si mesmo ao achar que só uma carta resolve a vida de quem fica chorando em seu túmulo. Queria eu ser autoconfiante assim.

Admiro os suicidas que criam álibis para o próprio suicídio. Talvez tenham medo do tribunal divino, sei lá. A pessoa se joga na frente de um carro e, talvez, sofrerá menos no inferno. O motorista - que, com sorte, estará embriagado - será, talvez, o maior culpado.

Admiro os suicidas curiosos, que só querem descobrir o que existe do outro lado da tal ponte pro outro mundo. Passam horas e horas divagando e procuram uma resposta definitiva. Talvez fiquem cansados de tantas explicações de tantas religiões diferentes e de tantas teorias de conspiração que, acreditem, até para isso existem.

Admiro os suicidas declaradamente fracos. Não aguentam as pressões do mundo e se matam. Para mim, pelo menos, faz sentido. Se for fraco, o mundo te esmaga. Aqui não tem espaço para fracos, baby. Esmague a si mesmo que dói menos. Ou não. Nunca pratiquei auto esmagamento, então não sei como é.

Admiro os suicidas oportunistas. "Saio da vida para entrar na história". Quer modo melhor de se promover? São inteligentes, pelo menos por um lado. Mas não me pergunte o que ganham ou se colhem os frutos de ser alguém famoso depois de morto porque eu realmente não sei. Talvez os mais famosos ganhem um camarim para o espetáculo da vida aqui de baixo, vai saber...

Admiro os suicidas que sentem saudades. "Tal pessoa morreu e eu quero me encontrar com ela". Admiro a coragem e, principalmente, a lealdade para fazer de tudo - tudo mesmo - para se reencontrarem. Lealdade também é um valor raro nos dias atuais.

Admiro os suicidas masoquistas. Ou "quase-suicidas". É daquele tipo que pula do terceiro andar e têm a burra certeza de que vão passar dessa para uma melhor. Todos sabem que não é alto o suficiente para morrer, mas, mesmo assim, insistem em pular. Covardes, talvez. É mais fácil quebrar as duas pernas, então admiro sua coragem (?) de arriscar. Vai que dá certo.

Admiro os suicidas frios. E, de certa forma, todos o são. Admiro quem põe a corda no pescoço e têm a frieza de empurrar a mesa de centro com o pé sabendo o que acontecerá depois.


Admiro os suicidas por sua natureza irônica e controversa. Por sua coragem de desistir, por sua audácia ao escolher o lado teoricamente mais fácil e menos conhecido. Admiro quem fecha os olhos e vai. Simplesmente vai.
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