segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Algum drama qualquer - VI

Chamava-se Walter ou Otávio? Quantos sobrenomes ocupavam espaço na sua carteira de identidade? Passava na frente do espelho e não reconhecia os olhos que lhe encaravam de volta. O que será que aconteceu?

Já não sabe com o quê trabalha e nem onde mora. Apenas encara a máquina de escrever e o papel com diversas frases inacabadas. Ele deveria fazer algo com aquilo, não? Finalizar a sentença, mais algumas palavras e um ponto final... Ou seria uma interrogação? Exclamação? Melhor ler tudo de novo para só depois decidir. Ou lembrar o que deveria fazer.

Não se encontra em nenhum corredor, a cozinha lhe é estranha, os porta-retratos na sala lhe sussurram lembranças desconhecidas. Suas mãos não eram raquíticas e enrugadas? Não havia uma patrulha na garagem? O que aconteceu? Para onde foi? Onde é que deveria estar? Lá fora, na chuva, ou num escritório fedido elaborando uma petição?

Não havia nenhum closet lotado com ternos da alta costura. Apenas casacos de pouca qualidade e um ou dois chapéus dentro de uma armário que fedia a mofo. O hospital não fica mais do outro lado da cidade. Ou trabalhava na biblioteca? Por que tão indeciso? Por que tão confuso? Para onde foi todo mundo?

Nada lhe é familiar. Sente-se deslocado. O papel ainda repousa sobre a mesa. Tem a vaga sensação de ter que terminar algo em certo prazo de tempo, mas o que? Quando? Para que? Não havia colocado o ponto final no fim da frase? Já havia digitado o temido "Fim"?
Onde enterrou os corpos? Em que beco esqueceu a arma? Qual policial quase lhe descobriu? Ou seria ele mesmo a vítima que jazia no beco escuro? Alguma testemunha que corria risco de vida?

Nada mais fazia sentido algum. Estava se consumindo em dúvidas, em perguntas eternas que nunca lhe trariam resposta ou redenção. Talvez, um dia, soubesse que fora o criador e que todos os seus outros eus eram personagens, mas, naquele momento, sua mente estava confusa demais para notar qualquer coisa.

As lembranças vinham como relâmpagos numa noite escura. Rápidas, pequenos flashes de claridade que duravam não mais que dois segundos. Mas já era algo útil. Davam-lhe, pelo menos, um ponto de partida para uma nova história, uma nova vida.

Se antes mergulhava num novo personagem, num novo livro, agora passou a ser o personagem, a participar do livro. Não era mais um escritor, era o narrador, o protagonista, antagonista e secundários. Era todos eles juntos num só ser. Cada capítulo, todos misturados, desordenados, confusos... Um exato reflexo da sua mente. As histórias não se completavam, mas se uniam num ponto e caminhavam para outro completamente diferente. Talvez uma consulta com o analista resolvesse o problema, mas... Não seria ele o analista?

Aquele era seu modo de não enfrentar a realidade de ser um homem abandonado pelo mundo. Mergulhava no seu trabalho simplesmente para não encarar o vazio que lhe encarava de dentro. A própria carcaça que abrigava sua alma era seu mausoléu, seu templo sagrado. Sua mente apenas lhe cedia imagens enquanto ele as colocava no papel. No notebook, na máquina de escrever, com a caneta em mãos... Qualquer coisa. Só precisava escrever. E esquecer. Separar uma história da outra, a ficção da realidade, a vítima do culpado. Apenas diferenciar um personagem do outro, uma história da outra e, se tivesse alguma sorte, redescobrir-se, encontrar quem realmente era.

Para isso ele tinha que escrever. No notebook ou mesmo à mão. Separar uma história da outra, a ficção da realidade, a vítima do culpado...

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Algum romance qualquer - I

Existem momentos na vida em que nós simplesmente esquecemos onde estamos e fazemos uma pequena viagem ao passado. Acontecimentos que nos marcaram, que nem tiveram tanta importância, mas que nos vêm à mente de uma hora para a outra. O que eu revivo agora foi um dos mais importantes da minha vida. Eu só não sabia disso na época.

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As luzes fortes e a fumaça artificial ofuscavam minha visão, mas, entre uma e outra, eu conseguia ver uma silhueta se mexendo no meio da pista de dança. Mais por instinto que por realmente enxergar alguma coisa, eu sabia que era ela. Lana, com seu corpo perfeito e sua alma calada, me enfeitiçavam há tempo demais, mesmo à distância.

Era verdade que já nos conhecíamos há um bom tempo, porém, nós dois nunca havíamos tido nenhum tipo de contato pessoal que fosse mais agradável que a implicância. Até agora. Não que a implicância que existia fosse ruim. Na verdade, se não fosse por ela, não haveria muita coisa. Desde o primeiro momento a gente havia visto aquele raio que vai de um para o outro, tínhamos aquela percepção de que provocar seria melhor que conversar. Algumas pessoas simplesmente despertam o pior em mim. Lana sempre foi uma delas.

– Lana... - Ela se virou para mim e sorriu. O sorriso de escárnio tão característico dela e tão somente meu. Nunca a vi sorrir daquele jeito debochado, como quem sabe demais, para mais ninguém.

– George... - Eu comecei a dizer algo, mas ela foi mais rápida e me surpreendeu, quase lendo meus pensamentos: - Sabe que não seria só por uma noite, não é? - Eu já conseguia imaginar as pessoas jogando na nossa cara que ódio e amor eram irmãos gêmeos. Viviam lado a lado, páreo a páreo. E, é claro, que eles avisaram.

– Sei. - Então ela pensava o mesmo que eu. Sentia o mesmo que eu. Existia uma certa tensão sexual entre nós. Medrosos que somos, disfarçamos, ignoramos esse fogo com as brigas sem sentido algum que sempre tínhamos. Mas nada dura para sempre e o instinto animal, querendo ou não, sempre vence.

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– No que está pensando? - Seus braços envolveram meu pescoço por cima do encosto do sofá e eu estava de volta ao hoje, ao agora, ao que realmente importava.

– Se eu dissesse, você não acreditaria... - Sorri e levantei minha cabeça até ver seu rosto por cima do meu e de cabeça para baixo. Ela ainda era dona dos olhos mais escuros e belos que eu já tinha visto, da boca mais saborosa que eu já tinha provado e do toque mais ardente que eu já tinha sentido.

– Por que não me faz acreditar, então. - O sussurro veio seguido de um beijo na testa. Suas mãos desceram e passearam por baixo da gola da minha camisa.

Um gemido me escapou por entre os lábios e eu me inclinei mais no sofá, trazendo sua boca para a minha. Suas mãos passeavam pelo meu peito enquanto eu aprofundava o beijo. Aquele ângulo era muito interessante. Agora eu entendia o motivo do homem aranha ter ficado tão estupefato depois do beijo de cabeça para baixo.

– Então... - Lana se afastou cedo demais e colocou as mãos em meus ombros me mantendo na mesma posição.

– O que? - Franzi o cenho. Eu conseguia ver meu próprio reflexo em seus olhos escuros.

– Não vai me dizer no que está pensando? - Suas sobrancelhas se ergueram e eu sorri.
– Depois. - Respondi e a puxei novamente para mim. Dessa vez ela não escaparia. - Nossos lábios se encontraram novamente e nossas línguas iniciaram uma batalha por espaço cada vez mais intensa.

Antes de Lana, o sexo era algo completamente sem sentimentos e... Superficial. Era prazeroso, é claro, mas, com Lana, tudo mudou. Seu prazer se tornou o meu, sua dor se tornou a minha. Amar alguém ao ponto de sofrer por ela é insensato. Que eu seja louco, então. Que sua vida se torne a minha, que seus beijos me sufoquem e que eu me afogue em seus braços. Algumas pessoas têm o poder de despertar tudo o que há de bom em mim. Lana é esse tipo de mulher.

Desde o dia na boate eu me vejo pensando nela o tempo inteiro. Estava certa quando disse que não seria só por uma noite. Seria por muito mais. Dois anos até agora e, eu esperava, por muitos e muitos mais.

Ouvi dizer uma vez que, quando a gente ama, simplesmente ama. Essa seria, na minha opinião, a melhor explicação para o amor. Vaga, é verdade, mas, para algo tão inexplicável, seria o ideal. Por que motivos mais eu me encontraria completamente enfeitiçado por uma mulher que me tirava do sério e que me irritava?

– Pensativo de novo? - Olhei para baixo e lá estava minha deusa sorrindo. Seu semblante cansado repousado em meu peito ainda tinha um vestígio de energia nos olhos negros.

– Uhuum. - Levei minha mão esquerda aos seus cabelos negros e enterrei meus dedos naquela maciez negra observando seus olhos se fecharem e seus lábios se entreabrirem num gemido satisfeito. - Eu me lembrei daquele dia na boate. Há dois anos.

– Não acha que está pensando demais ultimamente? - Uma sobrancelha negra se ergueu. - Pensei que já tivéssemos resolvido essa questão. Ou já está satisfeito?

– Tem razão. Já resolvemos. - Eu disse e me ergui ficando por cima dela. - E eu estou longe de ficar satisfeito. - Nossos lábios se uniram novamente.

...Há dois anos...

A luz do sol banhava seu corpo bronzeado no meio de lençóis claros. Seu rosto angelical repousava em meu peito. Ela estava certa. Nunca poderia ser só por uma noite.

– Lana? - Chamei esperando realmente que ela estivesse acordada.

– Huum... - Sorri e comecei a passar um dedo pelas costas descobertas.

– Uma só noite nunca será o suficiente...

– E você duvidou?

– Não de verdade.

– Mas existia uma fraca esperança. - Ela me olhou e sorriu com uma sobrancelha erguida.

– É. - Suspirei.

– Então vamos fazer um trato, George. - Ela se sentou e eu me distraí olhando seus fartos seios descobertos. - George? - Ela os cobriu com o lençol e meus olhos se encontraram com o profundo lago negro que eram os dela.

– Sim?

– Eu proponho um acordo. Continuamos com isso até que seja o bastante para um dos dois.

– Depende. – Entrecerrei os olhos. - Foi o suficiente para você?

– Não. - Lana ficou pensativa por uns instantes e então disse: - Está longe de ser.

– Então eu aceito.


sábado, 15 de agosto de 2015

Por você

Foi o aperto de mão mais íntimo da vida de qualquer ser humano. Daqueles que enchem os olhos de lágrimas e levam um arrepio morno ao centro da sua coluna. Nunca pensei que um toque guardaria tanto poder. Ver seu rosto enrugado, sua boca se mexendo, sua careta em choro estridente...

E o primeiro choro no meio da noite? Entrei em desespero. Fome? Cólicas? Frio? Por deus! O que seria?! Todo o trabalho, acordar no meio da noite, ter os seios rachados e dores nas costas de tanto abaixar... Tudo isso faz meu mundo mais bonito. Mais cor de rosa. Tão rosa quanto o meu ex-escritório, que agora é um quarto decorado por flores e ursos.

Mudou completamente a minha vida e meus motivos. Se antes era para ser feliz, agora é para te ver feliz. Seu sorriso é minha vida, sua voz fina, meu ar e seu abraço, meu santuário. Nele me perco, me completo. Em você me encontro, por você me divido ao meio. Seus beijos molhados, seus dedos gorduchos, suas bochechas cheias. Você me fascina. Por você mato, morro.

Por você, sou mãe.


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Ela (não) vai voltar

Inspirado na música "Ela vai voltar" da banda Charlie Brown Jr.

Estranho como nos agarramos a alguma música que, pelo menos por uma estrofe, descreve nossa vida. Como se as melodias e palavras melancólicas pudessem servir de algum consolo ou força milagrosa que nos faz abrir a porta e ir atrás da namorada que cansou das loucuras de um cara insano. E me vem à cabeça o velho dilema humano: a vida imita a arte ou a arte imita a vida?

Não era muita coisa. Só dez gramas de um pó branco límpido e libertador. Mas Alice não via assim. Para ela, era minha ruína, minha insanidade, nosso fim. E foi por isso que ela fez as malas, bateu a porta como se pudesse ser capaz de demolir todo o prédio de dez andares apenas com esse gesto e foi embora. Olhou para trás apenas para me lançar um olhar de desprezo e foi embora.

Depois tudo passou muito rápido e, ao mesmo tempo, como numa daquelas câmeras super lentas que mostram até a língua do carrapato encostar na pele para sugar o tão precioso sangue do cachorro. A velocidade dos acontecimentos mudando tão rapidamente que me fez vomitar no tapete da sala.

Num instante eu espalhava toda a cocaína pelo apartamento, tentando achar um jeito de convencê-la a voltar sem ter que me afastar do meu vício. E, no instante seguinte, o telefone tocava, eu atendia, a voz grave me falava sobre um acidente em algum lugar na rodovia MG 30 e recitava os ferimentos de uma vítima fatal. Toda a conversa não chegou a durar nem cinco minutos. Menos de cinco minutos que mais pareceram décadas. Uma partícula de poeira dançava na frente do meu rosto, a luz do sol de fim de tarde entrava pelas frestas das cortinas e atingia minha pele trazendo um calor que se transformou em gelo à medida que o homem falava e a música avançava. Rápido demais. Eu fui lento demais.

E eu entendia o que estava acontecendo.

Como num mundo onde tudo é mais devagar, me lembrei das últimas horas. A cocaína entrando pelas minhas narinas e alcançando os pulmões para então afetar meu cérebro, Alice entrando na sala vestindo só uma das minhas camisas, os gritos, as lágrimas, o cartão quebrado, a mesa de centro tombada, tudo espalhado e a porta batendo. Chorão caracterizando minha mulher de verdade com uma calmaria alta o suficiente para incomodar os vizinhos, o arrependimento, a vontade insana de ir atrás dela, a lembrança do engasgado "não me procure mais" ecoando em meus ouvidos.

Nos meus delírios ocasionados pela droga e pela dor, a voz rouca ecoava pelo meu apartamento e se misturava aos meus soluços, que seguiam seu ritmo como se aquilo fosse uma prece. Eu seria capaz de me agarrar a um simples verso?

Minha mente nem sempre tão lúcida fez ela se afastar, mas ela vai voltar...

sábado, 8 de agosto de 2015

O pote de ouro

Às vezes, acontece de duas pessoas não estarem na mesma sintonia. Na verdade, em noventa por cento dos casos elas não encontram um timbre comum. Como um violão desafinado, seus tons não combinam e ajustar-se um ao outro não é algo simples de se fazer. É como uma formiga que tenta ser abelha, mas não tem a característica fundamental para se sentir em casa.

Era o que acontecia com eles. Cada um, o perfeito oposto do outro. Cada um deles com suas individualidades que queriam dividir. Ela, com ele. Ele, com todas.

Não que os amores múltiplos dele já não fossem conhecidos do mundo. Não que suas idas e só idas não fossem comentadas pelas bocas, maldosas ou não. Não que o constante ar inconstante do seu sorriso não declarasse a todo o mundo que ele não era de ninguém. E não que ela já não houvesse sido avisada.

Ele deixou bem claro o que não queria. Não queria apelidos carinhosos, não queria filmes sábado à tarde e muito menos dormir de conchinha. Só uma noite, sem compromisso. Se fosse bom pros dois, poderiam repetir, mas não pelo resto da vida.

Só que, mesmo com todos os avisos e barreiras, ela fez o que qualquer mulher em seu lugar faria e se apaixonou. Como se funcionasse à base da psicologia inversa, seu coração teimou em acreditar que poderia mudar uma alma corrompida. Queria passar as tardes de sábado vendo filmes e queria encontrar o pote de ouro no fim do arco íris dos reflexos da luz dos olhos dele.

Como o previsível manda, ele cansou. E se foi. Para nunca mais voltar. E ela achou um absurdo ele nem olhar para trás enquanto que, para ele, partir era a coisa mais natural do mundo. Enquanto ele se diverte com as outras, ela procura o arco íris no meio da poeira que ele deixou.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Espera(nça)

Há dezoito anos, tudo era normal. Meu pai chegava em casa todos os dias, às vezes me abraçava, brincava um pouco com meu irmão, beijava minha mãe e então ia ver televisão ou ler algum jornal enquanto esperava pelo jantar. É claro que nem sempre era dessa forma. Às vezes eu estava no banho ou então na casa de uma amiga, mas os fatos rotineiros são os que ficam na memória e os que mais fazem falta.

E então, como que por um passe de mágica, num dia qualquer, ele não apareceu. E nem no dia seguinte. E nem nos próximos fins de tarde depois daquele primeiro fim de tarde. Sem explicação alguma, sem nenhum bilhete e nem aviso no jornal local. Nem mesmo as fofoqueiras de plantão típicas de cidade pequena sabiam o motivo. Nada. Apenas sumiu do mapa. Poderia ter morrido num beco qualquer, fugido com uma loira peituda... Poderia ter se cansado de viver nesse lugar pacato e ido para alguma ilha particular, talvez.

Talvez.

Essa palavra tem o poder de matar qualquer um aos poucos. Não saber o que acontece, não conhecer o onde, o quando ou o por quê... Nem mesmo o quê. Quer tortura pior do que ignorar? Acreditar.

Esperança não é um sentimento positivo. Ela não deveria nem existir. Se fosse boa, não existiria. Se fosse algo bom, não duraria tanto e nem seria a última a morrer. Ela iria embora logo, junto com todas as outras coisas boas, exatamente como elas.

As coisas, que já não eram fáceis, ficaram piores. Meu pai sumiu e algo se foi com ele. O que? Não sei ao certo, não sei nem se foi uma coisa só. Talvez uma parte de cada cômodo, de cada pessoa, objeto, coração. Essa coisa se foi com ele e, em seu lugar, deixou a torturante esperança e um pedaço minúsculo do que um dia foi uma presença imponente.

Sua ausência está em todos os cantos. No olhar morto da minha mãe, nas vagas lembranças do meu irmão, nas rachaduras das paredes, nos defeitos da tinta e nos buracos da poltrona que minha mãe insiste em deixar no mesmo lugar de sempre.

Por mais que tudo indique que ele esteja morto, por mais que a gente pense que ele não vai voltar, nada impede nosso coração de bater mais forte quando a campainha toca. O número do telefone mudou, mas quem garante que ele não descobriria o novo? Talvez tenha arrumado um computador e poderia mandar um e-mail... Quem sabe? Numa época com a tecnologia tão avançada e quando a informação é mais rápida que a velocidade da luz, o que nos impede de colocar uma foto antiga no facebook e esperar que alguém tenha-o visto?

E é isso o que corrói nossa alma. O que fez com que todos nós parássemos no tempo vivendo na mesma casa de sempre. Na mesma rua, com a mesma mobília esperando pela mesma rotina que não volta mais. Nada mudou. A televisão ainda é aquele trambolho gigante, os armários de sucupira são pesados e duráveis e as cortinas de pano acumulam poeira na sala de jantar. Paramos no tempo esperando que ele também tenha parado. Quem sabe? Talvez nosso pai apareça na porta usando calças boca de sino. Talvez...

Talvez a esperança nos dê um retorno e não continue nos matando lentamente.

Mas é só mais um “talvez”...

sábado, 1 de agosto de 2015

O sorriso

Você passa a vida inteira tentando apagar qualquer tipo de vestígio de vulnerabilidade sentimental. É capaz de bater a própria cabeça na quina de uma mesa, mas, emocionalmente falando, não consegue se aproximar de uma pessoa mais do que vinte metros.

É mais fácil ser sarcástica e irônica do que assumir seus sentimentos. É mais seguro ser mal educada e se passar por uma vaca perante todos do que simplesmente sorrir e correr o risco de receber um sorriso de volta... E se apaixonar bobamente, como uma menina de doze anos de idade.

É... Você evoluiu muito ao longo do tempo, não? Trancou seu coração à sete chaves, cadeado de diamante e feitiço contra intrusos. Transformou-se num iceberg capaz de destruir o mais forte dos Titanic's. Uma noz que, não importa quantas marteladas leve, nunca se abre; nunca se expõe. Aprendeu a não sentir, a não se importar. Virou o demônio em pele de anjo. Frio. Invulnerável. Forte como aço, mas só por fora.

Há uma parte macia, violável e completamente vulnerável. É aquela parte protegida pelas sete chaves espalhadas pelos infinitos cantos do universo, pelo cadeado de diamante e pelo mais potente dos feitiços. Ela está no centro do iceberg, rodeada por censores de presença e alarmes de incêndio. Aquela parte que nunca se vê, que nunca se mostra, que não era nem para ser notada sua existência.

Mas há também um ente super poderoso vagando por aí... Um ser tão avassalador que não merece ser chamado de mero humano. Ele é mais do que isso, mais do que qualquer um imagina.

Você luta contra ele, é claro. Você reforça suas defesas e se mostra inabalável. Mas só o fato de ter reforçado seu cadeado mostra que ele poderia ser quebrado. Não aprendeu tanto quanto julgava ter aprendido, não?

Ele apenas passou pelos portões de ferro e driblou os sensores de presença como um espírito. Como que por um milagre, encontrou todas as chaves escondidas nos infinitos cantos do universo em apenas segundos. Ele sorriu... O maldito sorriso que você nunca imaginou ver. O amaldiçoado sorriso que te faz sorrir também. Como fogo, ele derreteu o iceberg... Mas os alarmes de incêndio não soaram. Porque você já estava perdida novamente. Tarde demais para qualquer coisa. A noz se abriu por vontade própria e lá está o tão indesejado ponto pulsante.

É, minha cara, não tem mais volta... Seu aprendizado foi por água abaixo e suas barreiras nunca existiram. Eram apenas ilusões para que você vivesse confortavelmente iludida.
Sinta-se humana novamente. Sinta-se tocada como o ser fraco e vulnerável que é. Apenas um floco de neve que derrete em contato com a pele. Não é o demônio que pensou que fosse, que tanto desejou ser.

O sorriso... Aquele sorriso não sai da sua cabeça. Como se não bastasse encontrar seu coração, o endiabrado do homem afetou sua cabeça.

Mas, por ironia de tudo o que existe, abstrato ou não, ele é casado.

E faz você se sentir apenas casca.


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