segunda-feira, 27 de julho de 2015

Algum drama qualquer - V

Seu cérebro não fez mais sentido depois dele. Seus sentidos foram preenchidos e violentados com tanta fúria que seu coração pegou fogo. Depois, quando já havia sucumbido em cinzas, quando não havia mais nenhum resquício da sua humanidade, ele comeu o único pedaço de identidade que lhe restava e fez seus corpos se fundirem como se fossem álcool e água.

sábado, 25 de julho de 2015

Criatura

Acho que fui criada por alguma espécie genial de poder divino. Adão e Eva numa explosão infinita que deram origem a tudo o que todo mundo vê hoje: um universo. Ainda em expansão; que já passou por duas décadas de evolução. Um mito, um fenômeno, uma coisa indecifrável, incompleta, imperfeita. O início de um mundo que sempre gira ao meu redor.

Acho que fui criada por algum burro ser diabólico. Incapaz de ser entendida, indecisa. Imprevisível. Uma explosão que acontece simplesmente por querer acontecer. Sem motivos, sem razões ou emoções que façam sentido. Apenas a antimatéria se transformando em matéria.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

O cara certo

Aconteceu de novo. As lágrimas mornas molhando meus ombros e pescoço, as mãos pequenas fincadas nas costas da minha camisa e os soluços que partiam meu tolo e apaixonado coração. Partiam? Não mesmo. Meu coração já estava despedaçado demais por suas lágrimas para que eu sentisse qualquer coisa naquele momento ou em qualquer outro. Meu corpo já estava anestesiado. Eu havia me acostumado a ser o cara certo no cargo errado. Melhor amigo apaixonado. Clichê. E, como todo e qualquer bom clichê: é algo que não deixa de ser verdade.

Sim. Annie. De novo. Era sempre ela, não? Desde os meus dez anos de idade, Annie vinha com seus problemas, com suas dúvidas, com seus amores e desprazeres, fazer do meu ombro seu lenço. E eu, belo imbecil que sou, afago seus cabelos e enxugo suas lágrimas. Sendo coadjuvante no meu filme preferido. Como sempre.

Entretanto, dessa vez, era pior. Não era mais um badboy que ela conheceu na balada ou um jogador de futebol da escola. Era seu marido. Seus soluços eram tão silenciosos e doídos que eu tinha medo de tocá-la. E se ela se despedaçasse? Não era um trinco, um arranhão. Não era mais o diamante que fora lapidado até chegar à forma definitiva. Era minha Annie. O frágil cristal que, agora, chorava em meus braços.

A vontade de acabar com a vida do homem que a machucou era muito mais intensa que das outras vezes. Não. Matar não. Eu queria que ele tivesse uma morte lenta, tão dolorosa que faria seu coração de gelo derreter até não sobrar mais nada. Nem o pó das cinzas do inútil corpo. Eu queria fazê-lo sangrar até seu corpo secar e cuspir em cima do que restasse. Oh, deus! Como eu queria fazê-lo sentir o que minha loirinha do sorriso brilhante, nesse momento, sentia.

Mas eu não tenho conserto. Um pedaço de pau torto que nunca se endireitará. Não vou atrás do cafageste que prometeu cuidar da minha vida. Não farei com que o ser que destruiu meu bem mais precioso sangre até morrer. Porque ela o quis assim. Annie... De novo. Um anjo rodeado por demônios. O que um ser divino faz no meio do inferno, eu nunca soube, mas ela não queria pagar com a mesma moeda ou fazê-lo sofrer. Só queria o divórcio. Pelo menos isso.

Perguntei o que faria e seus olhos azuis chorosos me disseram para não fazer nada. Ele pagaria por tê-la traído, mas seria nos termos dela e não nos meus. Mais uma vez, engoli meu ódio, matei meu orgulho e deixei o amor falar mais alto. Não tocaríamos mais no assunto da traição e nem como havia sido ruim para ela encontrar o marido na cama com outra. Os pedaços do doce coração seriam novamente unidos e eu faria de tudo para que isso acontecesse logo.

Seu rosto se levantou do meu ombro e eu, por impulso, uni nossos lábios numa coisa só. Minha mão em seu queixo, a outra desceu das costas para a cintura. Não foi bem um beijo. Não no início. A surpresa havia deixado seu corpo congelado no mesmo lugar e com os lábios cerrados. Eu já estava quase desistindo quando as mãos delicadas vieram até o meu rosto e seus lábios se entreabriram. Deus! Era melhor do que eu havia imaginado em meus milhares de sonhos. Descrição perfeita? Nem que eu fosse o mestre Shakespeare. Nem em mil anos de vida escrevendo. Nem que Afrodite baixasse em mim.

Annie não disse nada. Apenas me olhou com um sorriso triste nos olhos. Por um momento, pensei que ela fosse usar o velho clichê de estragar amizades com romance, mas ela juntou nossos lábios novamente e eu comecei a voar. Aquela era Annie. A mulher que me mostrava o paraíso e me levava ao lago cocite, nono círculo do inferno, num só instante. Era por ela que eu mataria e só por ela eu enfrentaria o submundo inteiro. Patético. Mas sou um vagabundo qualquer que não toma jeito.

Ela se foi. Não com as lágrimas de antes. Agora havia um sorriso no rosto que me fazia promessas nas quais eu não queria acreditar. Mas Annie havia deixado meu corpo formigando e um sentimento angelical cravado no fundo do meu coração. Havia esperança, afinal. Para mim. Para nós. E eu, pau torto que morrerá da mesma forma, não consigo simplesmente ignorar. Não sei o que acontecerá. Não sei como será nosso próximo encontro, mas, dessa vez, eu faria questão de mostrar que era o cara certo e não apenas o amigo.

Ela se foi. Mas, como sempre, voltará.

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Primeiro:http://notasmentaisparaumdiaqualquer.blogspot.com.br/2015/04/contos-o-amigo.html

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Vazio

Olhando pelo vidro que ocupava uma parede inteira, as dúvidas rondavam sua cabeça como assombrações vingativas. Aquela tortura acabaria? Quanto tempo mais ficaria sem ter notícias?

Esperando ansiosamente por qualquer coisa, sendo privada de sentir seu toque, seu cheiro... Cassie estava enlouquecendo. O único motivo pelo qual sua mente ainda não havia sucumbido completamente à loucura era seu filho. Não desistiu por nenhum momento de tê-lo novamente. Seu pequeno Daniel voltaria aos seus braços. Não importava a que custo, ela teria seu filho de volta. Nem que para isso tivesse que chamar a guarda nacional.

– Cassie? - Os olhos azuis cansados fitaram o homem encostado no batente da porta entreaberta.

Bruce era alto e forte. Seus olhos castanhos estavam tristes e preocupados. A expressão temerosa no rosto do marido era um reflexo do que havia em seu próprio coração.

– Sim?

Ele suspirou. Sua esposa já não era a mesma. Ele mesmo já não era o mesmo. A ausência de Daniel fazia com que aquela casa parecesse ainda maior e vazia. Não sabia o que fazer com aquele vazio em seu peito ou com o olhar desolado da mulher que amava. Estava fazendo tudo o que podia para encontrá-lo, mas Deus sabia que parecia não ser o suficiente.

– Vem aqui... - Ele estendeu os braços e Cassie se afundou no peito másculo e nos braços fortes. Queria transformar toda aquela dor em algo bom, queria tirar aquela tristeza dos olhos da esposa e queria poder fazer qualquer coisa para mudar os últimos dias. O sentimento de impotência era justamente uma das piores coisas para se guardar no peito.

Cassie fechou os olhos e deixou-se ser sustentada pela força do marido. Aqueles braços que sempre a faziam se sentir segura e protegida agora a lembravam de que faltava algo. Alguém. Faltava a pessoa mais importante da sua vida. Faltava Daniel.

– Eu vou encontrá-lo, Bruce. Eu vou encontrá-lo!

– Nós vamos. - Bruce abraçou-a mais forte e enterrou o rosto nos cachos loiros. - Nós vamos encontrá-lo.

Era como se o inferno houvesse se transferido para a sua casa, como se o verdadeiro tormento houvesse se instalado em seu coração. Todos os dias sem fim, todas as semanas esperando... Pelo quê? Eles não sabiam nem o que esperar! Qualquer coisa. Um telefonema, uma carta, mensagem de texto, e-mail... Qualquer coisa que os levasse um pouco mais para perto do filho. Não sabia onde procurar, como, por quem perguntar. Não faziam ideia de nada. Do que lhe adiantava toda a influência que conquistara e que herdara dos pais? De que lhe serviria a fortuna? O que ela faria com aquela mansão enorme agora que seu menino fora embora? Onde ele estaria? Como? Com quem? E, o principal, por quê? O que alguém ganharia roubando seu bebê, despedaçando seu coração e destruindo sua família?

Já investigara todos os inimigos declarados que conquistara ao longo do tempo e passara para a fase dos amigos e conhecidos de amigos, conhecidos... Um último suspiro desesperado de uma mãe agoniada. Talvez algo em seu peito já estivesse se preparando para o pior, mas ela ignorava a voz interior que dizia que era impossível. Nada era impossível. Era só correr contra o tempo e...

Talvez...

Talvez ele estivesse bem e os sequestradores só quisessem um resgate, o que não era nada. Tudo era pouco. Qualquer coisa! Até sua própria alma em troca do bem do pequeno Daniel McKoy.

Daniel Mckoy Cruguer...

McKoy Cruguer... A junção dos dois nomes mais poderosos do país... Amaldiçoava-os com todo o ódio que lhe restava na alma. Tinha completa certeza de que era por ser quem era que o filho sumira. Um império de gerações nas mãos do marido e a liberdade de milhares de pessoas nas mãos da promotora. Não... Ela nem acreditava que um dia havia pensado que aquilo tudo, todo aquele ideal de mudar o mundo, daria certo. Como daria certo se o bem mais precioso que tinha havia sumido?!

Seu coração de mãe implorava por um telefonema e um pedido de resgate. Sua alma de promotora lhe dizia o contrário. Depois de três semanas... Não. Não era um resgate o que eles queriam. Mas a esperança é uma tortura que nunca passa. É a última que morre, de qualquer forma.

– Eles têm uma pista. - A voz vinda da porta atraiu dois pares de olhos completamente aflitos e ansiosos.

– Quem? - Foi Bruce quem perguntou. Cassie já saía da biblioteca com o intuito de falar com os investigadores e começar a fazer tudo o que estivesse ao seu alcance. Possível ou impossível.

– Ainda não sabemos. - Conversavam enquanto andavam, apressados, pelos corredores da mansão. - Um homem foi visto com seu filho comprando coisas num supermercado. Uma mulher disse que reconheceu o bebê, mas, na hora, imaginou que fosse um tio ou parente...

– E a lista de nomes que Cassie fez?

– Por enquanto nada.

Chegaram numa sala onde, no momento, era a base de investigações e Cassie já estava dando ordens. Só Bruce percebia a ansiedade e desespero que havia por trás da fachada de eficiência e frieza. Sua esposa era uma daquelas raras pessoas que pensavam com mais clareza em momentos de crise.

– Eu quero que chequem todos os dados da polícia com esse rosto. - Ela dizia para um dos agentes.

– Promotora, no carro onde o homem saiu!

– O que?- Os dois, Bruce e Cassie, correram até o computador que estava com a foto de um carro branco.

– Vejam. - A mulher apontou para a imagem.

– Um rastreador... - Um lampejo de esperança surgiu no coração devastado. - Procurem em todas as companhias de seguro e rastreadoras pela placa do carro. Comecem pelas da cidade e, se não der certo, aumentem a zona de foco. Quero a placa e o nome do dono do carro. Agora!

– E o endereço de todas as residências dele. E todos os locais que estão, de algum modo, ligados a ele. - Bruce completou. Os olhos azuis procuraram os seus e Bruce viu a mesma pontinha de esperança que havia em seu peito. Assentiu encorajando-a e estendeu a mão para que ela a segurasse. Buscariam conforto e coragem um no outro. Juntos até o fim. E mais além.

Cassie só queria que aquela mão forte que ele agora lhe estendia servisse como uma boia para trazê-la de volta à superfície. Como queria que aquela vã esperança fosse sinônimo de “vai ficar tudo bem”! Talvez fosse. Talvez aquilo significasse que ela teria seu pequeno Daniel em seus braços em breve. Talvez...

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– Bruce! Bruce! - Ele olhou para o lado e lá estava seu melhor amigo. – Acharam!

– Onde?

– Numa... - Bruce não esperou nenhum tipo de explicação. Apenas pegou o papel da mão do outro homem e saiu correndo.

– Avise a Cassie! - Foi a última frase que disse antes de sair na chuva torrencial. Encontraria seu filho. Finalmente.

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– Onde ele está? Onde?! - Cassie gritava para o guarda à sua frente e lutava para eliminar as gotas de chuva que caíam em seu rosto. Por que aquele homem não a deixava passar?! Por que não a deixava ver seu filho?! Por que a impedia de finalmente ter seu bebê em seus braços?!

– Pronto. - Um segundo homem apareceu no topo da escadaria e falou com o guarda.

Por que ele usava luvas?

Por que aquelas pessoas não saíam da sua frente?

E então elas saíram. Com máquinas fotográficas, pequenos plásticos transparentes... Ela já havia visto aquilo antes. Familiar demais para que ela fingisse que aquilo tudo teria um final feliz.

– Não... - Um arfar. Não mais que isso. Um sussurro que ecoou por sua cabeça como se fosse a confirmação do que tanto temia. Ela estava certa. Iria ter seu filho novamente nos braços. O pequeno Daniel fora encontrado...

E então todo o resto do mundo ficou distante. Tudo à sua volta emudeceu e a única coisa que ela pode ouvir foi seu próprio grito desesperado. A última pessoa saiu da sua frente e então os braços do policial já não eram fortes o suficiente para detê-la quando saiu correndo. As lágrimas que tanto controlara escorriam livremente por seu rosto, misturando-se com a chuva, mas não eram o suficiente para acabar com a dor.

Não viu Bruce a abraçando ou se importou em ficar ensopada. A única coisa que via era a única coisa que não queria ver. Seu filho... Seu bebê! Seu pequeno corpinho de dois anos todo molhado e frio. Tão frio quanto a morte.

A dor era demais para ser suportada. Não iria embora, não iria deixá-lo. Nem quando Bruce tentou afastá-la ou quando alguém disse que talvez seria melhor se eles fossem para casa. Ela abraçou o corpo sem vida com mais força contra seu peito e deixou que mais lágrimas rolassem.

Era como se sua alma fosse explodir, como se seu ser fosse tomado pelo tormento e desespero do mundo inteiro. Era como estar no inferno e sofrer por todos os seus pecados de uma só vez. Cassandra McKoy não queria mais isso... Não queria mais sentir...

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– Pegaram o assassino. - Os olhos de Bruce se afastaram da mulher deitada na cama e foram até o mordomo, parado na porta do quarto. - O prefeito disse que, graças a quem são vocês, ele pegará prisão perpétua ou pena de morte.
Ele apenas concordou com a cabeça e voltou a olhar Cassie. Seus olhos castanhos, assim como os azuis dela, estavam mortos. O médico achou melhor sedá-la e, mesmo assim, ela lutara com todas as forças para não dormir. Engoliu em seco. O que fariam a partir de agora? Como seriam suas vidas sem Daniel? Nunca voltariam a ser os mesmos...

Uma única lágrima escorreu por seu rosto. Ali, em pé ao lado da cama onde sua esposa descansava, Bruce sabia que nada continuaria da mesma forma. Mesmo com o assassino morto, Daniel não voltaria. Seu filho nunca mais riria quando ele o beijasse na curva do pescoço ou sairia correndo atrás do gordo e mal humorado gato Mustafá.

Mais lágrimas escorreram enquanto ele se lembrava dos últimos dois anos de suas vidas.

– Bruce...

Os olhos de Cassie estavam vermelhos e inchados de tanto chorar e Bruce não duvidava de que os seus também ficariam assim. Ele se ajoelhou ao lado da cama e enterrou a cabeça no pescoço da esposa.

Agora que as lágrimas haviam sido libertas, não havia mais como parar.

Cassie, por outro lado, não conseguia mais chorar. Não havia lágrimas e nem forças para continuar. Sentia seu corpo pesado e dormente, não sentia nada além de um intenso torpor que sua mente havia criado para disfarçar a dor. No fundo, sabia que aquela sensação era momentânea. Em breve a dor viria novamente. E seria ainda pior.


Sempre pensara que seria forte por Bruce e que ele o seria por ela, quando precisasse. Mas era mentira. Enquanto ele desabava, uma parte dela se partia. Não havia força alguma... Só vazio.

sábado, 18 de julho de 2015

Silencioso diálogo dos corações partidos

- Você precisa é de beber.

Olhei pr'o rosto da minha tia e não sei o motivo de não ter caído na risada ao ver sua careta. Talvez por causa do brilho de seriedade em seus olhos ou a sabedoria de quem entendia a história toda sem eu nem mesmo ter falado nada. Sua fala me fez enxergá-la de um jeito diferente; ela deixou de ser a irmã do meu pai para ser uma amiga.

Eu precisava mesmo beber?

Seria mais fácil me afogar em algumas latas de cerveja e deixar o álcool fazer todo o trabalho de colar um coração partido do que enfrentar a trágica realidade de ter uma alma aos pedaços.

Peguei um copo, uma latinha no freezer e resolvi seguir o conselho de alguém que já teve o peito feito em frangalhos mais de uma vez. Se aquilo não resolvesse, talvez não houvesse mais esperança alguma pra mim.

Seus olhos castanhos eram solidários e sinceros. Um convite claro a me abrir. Talvez um monólogo da minha alma necessitada por se esvaziar. Aquela mulher me entenderia. Sua experiência em ser abandonada pelo marido e em cuidar de dois filhos pequenos lhe davam a força e capacidade necessária para saber o que fazer em situações de crise. Ela poderia resolver qualquer problema e nada seria o fim do mundo para alguém tão forte. O que eu não daria para ser igual?

Abri outra latinha. Aquela já era a quarta. Consegui contar cada uma delas sem me perder. Aquilo seria forte o suficiente para mim?

As lágrimas começaram a escorrer e eu olhei para o rosto cansado da minha tia novamente. Seus olhos castanhos ainda me encaravam. Eram solidários e sinceros. Um convite claro a deixar tudo o que sentia sair. Ela não queria forçar nada. Sabia que, se eu tivesse que falar, falaria. E sabia que teria que ser aos poucos. Enquanto isso não acontecia, continuamos nosso diálogo silencioso de quem chora e de quem apoia apenas com sua presença. Ela não precisava dizer mais nada.

As lágrimas ainda teimavam em molhar meu rosto, mas minha voz não saía. Eu não conseguia falar. Não depois de tanto tempo em silêncio. Abri a quinta latinha e enxuguei o rosto. Mais algumas e, talvez, fosse o suficiente. Aquela mulher me entenderia como ninguém.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Fraqueza

Somos completamente pirados. Dois doidos desvairados que não conseguem se dar bem fora da cama ou num relacionamento normal. Que diabo de droga me deram?

Daqui a pouco você dirá que tem que voltar para casa, que sua esposa o espera e que você tem trabalho a fazer. E eu, como qualquer amante decentemente idiota, não o acordo. Não o lembro das responsabilidades de ser um homem casado. Quero prolongar esse momento, fingir que é inteiramente meu e que eu não tenho que dividi-lo com o resto do seu mundo.

Por que é tão complicado? Por que somos tão estranhos? Por que você é a minha fraqueza? Não consigo deixar de te querer ao meu lado mesmo que seja por dois segundos de uma vida inteira.

É claro que seria mais fácil simplesmente ignorar seus beijos, abraços, presentes e seus olhares maliciosos. Mas isso é só para os fortes e eu sou fraca. Tão fraca que sorrio quando te vejo dormir na minha cama. Me contento em apenas olhá-lo por alguns minutos. Que substância colocaram no meu café? Algo aqui está terrivelmente errado e não é seu celular vibrando desesperadamente com o nome da sua esposa na tela. Apenas ignoro esse pequeno detalhe. Detalhes... Quem precisa deles, afinal?

Por que me sinto feliz com essa fantasia? Eu me sinto como uma criança quando fico satisfeita ao imaginar um mundo feliz onde nós estamos juntos para sempre... Os lençóis brancos, os brilhos alaranjados do amanhecer iluminando seu corpo... Droga. Foco, garota, foco. Mas é impossível focar em te acordar e te mandar embora quando seus braços me prendem ao seu lado. Por que?

Sentir seu hálito na minha nuca, contemplar seus olhos cinzentos pelo desejo, seu sorriso irônico... Talvez seja por isso. Por ser fraca e não conseguir resistir. Por mais que eu diga a mim mesma para recusar, para não sucumbir, eu sei que não vai adiantar. Porque, quando você for, eu vou dizer "até mais" e não "adeus".

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Primavera alemã

Desde quando eu era bem pequena, Eva me mandou para viver em Munique. Mesmo naquela época, ela já sabia que eu correria perigo se ficasse perto demais da capital. Ou das pessoas que lá moravam. Conhecia a natureza de seu companheiro e nada impediria seus inimigos de me machucarem. Então, para me poupar, minha mãe me mandou para morar com uma família conhecida de seus pais. Isso não me impedia de saber que meu pai não queria assumi-la e que ele, provavelmente, nem se lembrava de que tinha uma filha. Talvez isso fosse bom, eu acho. Ninguém sabia se Adolf Hitler tinha limites.

Mas eu não conseguia simplesmente viver à margem de tudo. Não quando pessoas sofriam e uma guerra explodia por culpa de alguém tão “próximo” a mim. Juntei toda a audácia que acompanha a adolescência e fui até Berlin. Eu precisava entender as razões do meu pai. Só não esperava chegar tarde demais.

Era início de abril do ano de mil novecentos e quarenta e cinco. Alheia aos perigos que cercavam meu sobrenome com o fim da guerra, decidi que aquilo tudo tinha que parar. Eu já havia chegado à sede do governo alemão e esperava conseguir uma entrevista com meu pai o mais rápido possível. O que eu não esperava era que houvesse um homem no meio do meu caminho. Ainda me lembro de como os olhos verdes pareciam frios ao me ver pela primeira vez. Não sabia quem ele era, só sabia que não era alemão.

- O que faz aqui? - Ele perguntou assim que me aproximei.

- Vim ver o governante. - Ergui o queixo, convencida. A postura e o tom de voz firme indicavam sua profissão. O sotaque, sua nacionalidade. Quando foi que os soldados americanos chegaram? As coisas deveriam estar piores do que eu imaginara, então. Ou não. Não tinha mais ninguém por perto. Um soldado estrangeiro não deveria ficar sozinho por ali. Deveria?

- Adolf? - Ele riu quando hesitei. - Não vai me dizer que quer reclamar pela vida de conhecidos?

- O que quer dizer com isso, soldado? - Ele não pareceu se importar com a última palavra. Acredito que não estava disfarçado ou algo do tipo. Mesmo que usasse roupas comuns.

- Sinto muito, senhorita, mas não adianta. Muitos dos que interferiram morreram. A maior parte deles.

- Ele não vai me matar. - Ergui uma sobrancelha como se o desafiasse. Acima de tudo, eu era uma ariana. Seria um absurdo meu próprio pai me matar. Mesmo que ele mal me conhecesse.

- Por que não?

Porque Adolf Hitler era meu pai? Porque eu era a herdeira do Fuhrer? Por que minha mãe, uma espécie de concubina do ditador, me protegeria?

Dizer isso certamente não salvaria a minha vida.

- Isso não te interessa, americano.

O ódio em seus olhos surgiu como um raio quando fiz de sua nacionalidade um xingamento.

- Uma moça deveria saber que não se deve subestimar as pessoas. Muito menos os desconhecidos. - O soldado se aproximou de mim e só então percebi o quão maior que eu ele era.

Não consegui responder. Felizmente, ou infelizmente, vários oficiais alemães saíram do Palácio de Reichstag e ele me puxou pela mão.

- Aonde vai? O que está fazendo?!

- Te salvando.

Não sei o motivo, apenas fui para qualquer lugar onde aquele homem desconhecido pudesse me levar.

Droga. Eu não precisava me esconder. Era filha do fuhrer, não?

Mas algo em meu peito me disse para fingir ser uma cidadã qualquer. Mais tarde, descobri que o soldado Smith tinha o dever de matar qualquer pessoa ligada ao governo alemão. Mas foi só mais tarde que eu encontrei uma desculpa plausível. Naquele momento, apenas o segui sob o sol da tarde pela cidade morta em busca de abrigo.

- O que queria lá? - Phillip, esse era seu nome, perguntou. Estávamos sentados numa cafeteria mal cuidada – ou que havia sido destruída pelos nazistas - que ficava do outro lado da cidade. Ele olhava para os lados frequentemente e murmurava o tempo inteiro que algo estava errado. E eu concordava. Para uma época de guerra, tudo estava calmo demais. Talvez fosse aquela calmaria que sempre vem antes da mais cruel das tempestades. E era esse era o meu maior medo.

- O que todos querem nesse momento. - Eu podia ver meu reflexo em seus olhos que já haviam visto demais. - Um pouco de paz.

Olhei para baixo e examinei uma flor que havia caído dentro da minha xícara de chá. Rosa, delicada... Lembrou-me de quando eu era apenas uma criança e ainda vivia em Berlin. Adolf era apenas um amigo que minha mãe via de vez em quando e não o homem mais odiado do planeta ou o pai que não me conhecia. Naquela época, seus discursos eram de salvação e esperança para um povo desolado e não sobre a aniquilação de milhares de pessoas.

Ou talvez ele já tivesse tudo planejado. Talvez a alma corrompida do meu progenitor tivesse sido formada antes mesmo do seu nascimento. Não sei... E acho que nunca saberei.

Phillip sorriu ao me ver examinar a flor e colocou sua mão em cima da minha. Minha salvação começou ali.


Meu próximo encontro com Phillip foi na frente da entrada da chancelaria, que ficava no subsolo de Berlin, no dia trinta de abril do mesmo ano. Dessa vez ele estava fardado e sua expressão era ainda mais dura.

- O que faz aqui?! - Perguntas assim já estavam virando parte da nossa rotina.

Olhei à minha volta. Dessa vez, eu estava cercada por soldados americanos e soviéticos. Medo em sua forma mais pura desceu pela minha garganta e se alojou em meu estômago.

- O que aconteceu? – Perguntei, encarando a entrada do Führerbunker. Talvez eu soubesse que não estava preparada para o que ele diria. Talvez minha coragem tivesse saído dos confins do meu desespero por dias melhores. E havia, ainda, a possibilidade de que apenas o fato de Phillip estar do meu lado me dava forças.

- Os alemães disseram que ele se matou. E a mulher foi junto. Conseguimos alguns restos mortais. - Phillip me segurou pelos braços quando fiz menção de entrar no local. - Está louca?! Não pode entrar aqui!

- Eu preciso vê-los!

- Por que?!

Quase gritei que o soldado havia me dito que meu pai e minha mãe estavam mortos e que o mínimo que eu merecia era vê-los, mas me contive. Eu seria só mais um corpo não reconhecido para o restante do mundo odiar.

- Por favor. - O apelo foi pouco mais que um sussurro. Uma única lágrima escorreu pelo meu rosto. Algum tempo depois, Phillip disse que meus olhos azuis nunca estiveram tão desolados e foi por isso que ele me levou para dentro, porque não suportaria não me deixar entrar.

Não sei quanto tempo fiquei lá. E não faço questão da saber. Poupo a mim mesma dos detalhes sórdidos de ver meus pais completamente queimados e só seus restos mortais que os americanos e sovietes resgataram. Como se um tiro na cabeça e um pouco de cianeto não pudessem matá-los o suficiente.

- Ele viu que não sairia bem dessa. Escolheu o caminho certo. Com menos dor. - Phillip disse. - Em algum lugar por aqui, acharam a certidão de casamento.

- Certidão de casamento? - Olhei-o sem saber o que pensar ou fazer. Eu só conseguia sentir meu corpo meio morto, meio anestesiado.

- Eles se casaram pouco antes da hora em que os soldados ouviram o disparo.

Ficamos em silêncio por alguns momentos. Eu especulava sobre esse estranho amor que havia entre os dois. O que seria isso? Passei minha vida inteira ouvindo minha mãe lamentar por Adolf não pertencê-la por completo e, agora que pertence, estão mortos.

- Não podemos ter certeza se são mesmo Adolf e Eva. - Murmurei.

Se Phillip me ouviu, ignorou.

- Temos que ir. Os sovietes querem destruir este lugar.

Saímos do bunker e mais lágrimas inundaram meu rosto quando me lembrei do quanto minha mãe gostava das flores da Alemanha. Os campos de Berlin estavam lotados delas. O sol que nunca esquenta estava no ponto mais alto do céu e uma espécie de calor pairava entre todos. A capital alemã estava, finalmente, livre.

E eu?


Smith me levou dali. Disse que eu não poderia ficar na Alemanha sem ser morta em breve. Por mais anônima que Eva me manteve na infância, eu nunca escaparia tão facilmente. Não sei por quê, mas ele não me entregou ou me matou quando soube quem eu era. Apenas me deu apoio quando eu mais precisei. No meio do caos pós-guerra, conseguimos desembarcar nos Estados Unidos e arrumar uma nova identidade para mim. Agora eu sou Abigail Smith, casada com Phillip Smith. Nome de solteira: Abigail Schmit.

Só nos casamos dois anos depois. Dizem que situações desesperadoras unem duas pessoas e eu tinha medo de que fosse só por isso mesmo. Mas não era. Nossas almas foram feitas uma para a outra e é isso o que importa. Posso dizer que tenho um príncipe em armadura nem tão cintilante apaixonado por literatura e que vivi um conto de fadas de primavera distorcido.

Fizemos um novo começo. Numa terra em que flores desabrocham trezentos e sessenta e cinco dias por ano e que a primavera parece ser eterna. Chuvas torrenciais regam nosso recanto de amor e o sol aquece minha alma assim como Phillip o faz com meu coração.

Hoje, enquanto vejo minha filha correndo pelo gramado verde da nossa casa no campo, sei que aqui é o meu lugar. Berlin foi minha cidade por um tempo e é verdade que passei tempo demais em Munique, mas meu coração estava com meus pais. A capital alemã costumava ser o centro dos meus pensamentos para o futuro, mas vejo que não é mais. Vou me lembrar do dia em que conheci Phillip em toda primavera. Vou sorrir imaginando uma flor dentro da minha xícara de chá e sempre saberei que, não importa onde eu esteja, minha vida e felicidade sempre estarão junto dele.

E eu me lembrarei da minha mãe e do modo como ela também teve um romance de primavera. De certo modo, nosso destino foi parecido. Ela também se uniu para sempre ao homem que amava.


sábado, 11 de julho de 2015

100 palavras - X

Lágrimas escorriam enquanto a caneta rabiscava, furiosamente, o papel. Artigos científicos não adiantaram, livros de auto ajuda também não e, muito menos, os poemas. Já tinha certeza de que a subjetividade das ciências humanas não seria capaz de resolver seus problemas, então decidiu procurar algo mais direto. Páginas e páginas de cálculos e mais cálculos valeriam à pena se ele conseguisse desvendar o mistério do amor que assombrava seu coração. Já tinha todas as variantes, mas o foco principal ainda estava se perdendo no meio de números, equações, letras, sentimentos. E ele continuaria sofrendo até encontrar o x da questão.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Algum texto qualquer - I

Nesse ciclo vicioso e nada entediante, a gente sempre cai. E, enquanto cai, aprende; ou pelo menos deveria aprender. E enquanto nós aprendemos os outros se vão, é esse o custo de ficar um pouco mais sábio: se despedir. Porque nem todos estão juntos, nem todos evoluem no mesmo ritmo. Porque alguns são mais lentos e outros são mais rápidos. Alguns não aceitam e outros não entendem. Não por não querer, mas por não serem capazes de atos de tamanha solidariedade quanto se colocar no lugar do outro. E então chega o momento em que o “adeus” vira costume e os “olás” só são... “olás”. 

sábado, 4 de julho de 2015

De fé

"Eu tenho medo de cobras, já tive medo de escuro. Tenho medo de te perder."
- De fé, Engenheiros do Hawaii

Todo mundo tem algum lugar para o qual fugir, um porto seguro. Ou, pelo menos, todos deveriam ter algo assim. Um lugar onde nada nem ninguém tem importância. O celular não pega, televisão não existe e internet ainda não foi inventada. Nada disso faz falta. Um refúgio só seu e de mais ninguém. Um lugar onde realmente se sinta em casa. Aquele lugar para onde se pode correr quando as coisas ficam realmente feias e quando o céu ameaça desabar sobre sua cabeça. Sim, um refúgio para quando a tempestade chegar.

E é por isso que estou aqui. É por precisar fugir do mundo que eu me contento em deitar a cabeça em seu colo e ouvir os contos de fadas que já conheço de cor. O tom de voz calmo, as mãos macias passeando pelo meu cabelo... É o paraíso dos sonhos. Mas eu não durmo. Não quero perder nem um momento sequer. Mesmo que isso signifique lutar contra o incansável sono enquanto sua voz doce e firme me leva aos mais distantes bosques que ficam muito além do arco-íris.

Sempre que tudo parece difícil, quando o mundo se vira contra mim, quando a dor e exaustão se tornam insuportáveis... Você é o meu esconderijo, meu altar. Aquela que sempre me receberá de braços abertos, sorriso no rosto e coração mais do que disposto à me acolher. Aquela que me ampara. Basta apenas tocar a campainha que me recebe com tamanho carinho que sinto um aperto no peito. Um medo quase insano e agonizante de nunca mais poder te ver.

É verdade que fui, que vou, mas é verdade, também, que eu sempre volto. Por mais que eu tenha o mundo inteiro lá fora, por mais que eu tenha tudo o que quero e mais um pouco... É verdade que sigo em frente apenas para resolver as questões que tomam conta da minha cabeça - sempre fui curiosa - e responder dúvidas que nunca se findam. Mas, quando preciso de mais, quando sinto uma corda em volta do meu pescoço, quando não há luz e a tempestade rompe com minhas barreiras, eu tenho apenas você. Desse jeito tão incondicional e amoroso, com essa devoção sem amarras que me faz ter medo de te perder. Porque, quando eu mais preciso, eu só tenho você.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Motivos

A cada um de nós cabe uma angústia capaz de se alojar no peito e lá ficar, até se cansar. A cada um cabe a escolha de se entregar de vez ao desespero ou florescer à luz da aurora. Ou em qualquer hora do dia ou da noite, desde que não sucumba de vez ao sofrimento.

Seu peito se abre na tentativa de tomar para si um pedaço do meu eu e meus olhos se enchem, como se um oceano inteiro fosse pouco para tanta coisa que ficou acumulada no coração, durante anos e anos.

Depois de guardar angústias e curar feridas, algumas coisas boas me ensinaram a renascer.


E se eu me sinto linda em plena luz do raiar do dia, é porque finalmente encontrei você.
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