sexta-feira, 29 de maio de 2015

Mais uma gaveta de aço

Contando os passos, as horas, os corpos. Tentando ignorar o frio e o cheiro de formol que vem das gavetas de aço. Coração acelerado, pulso desgovernado e um aperto na boca do estômago que gela meu corpo inteiro. Já não sei se quero mesmo encontrá-lo aqui, para cessar a agonia infinita, ou se um necrotério seria o último lugar onde eu quereria te encarar. Imagino seus olhos fechados, os lábios roxos e os cabelos sem brilho, emoldurados pelo marfim eterno da morte e pela maca cinza e gélida, coberto pelo lençol branco com cheiro ruim.

Mais rostos desconhecidos, mais corpos sem identificação, mais uma centelha de esperança brotando em meu coração. Mais um lugar onde seu corpo não está, mais algumas pessoas que continuarão sem identificação. Entretanto, apesar de todas as histórias que todos os cadáveres poderiam me contar, uma só me importa.

E eu ainda não a encontrei.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Refúgio

Era um lugar frio, sombrio, escuro. Assustador. A névoa incessante levitava ao redor da floresta amaldiçoada que os pais usavam para fazer medo nas crianças mais novas. O tabu na roda dos garotos mal criados.

A entrada no local era proibida. Ninguém se atreveria a tentar descobrir o que aquela floresta abrigava. Nenhuma pessoa seria louca o bastante para ousar atravessar a densa vegetação. Ninguém sabia o que todas aquelas sombras abrigavam.

O medo pairava em suas redondezas e o desconhecido espreitava lá de dentro, pronto para atacar.

Mas eu nunca fui como os outros. Na verdade, gostaria de ser, mas não sou. Se eu vou lamentar por isso? Não agora. Não mais.

A questão é que eu, no auge do poder que todo adolescente guarda em seu íntimo, resolvi entrar. Decidi que iria me aventurar por terrenos desconhecidos à procura de aventura, de novas experiências. Sem medo, entrei na floresta proibida e descobri o que as gigantes árvores guardavam.

Era um lugar sombrio e frio. Assustador para quem visse de longe. Um sítio quase visto como o refúgio dos desesperados. Seu nome era invocado para afugentar crianças mal criadas. O tabu das pessoas que só acreditam no que é socialmente aceito.

Eu, como destemido aventureiro inconsequente que sou, me aventurei.

E foi lá onde finalmente me encontrei.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Pecado

As pessoas não são boas. Não que eu já não o soubesse antes, mas Meredith provou ser uma das mais cruéis espécimes do sexo feminino que eu já conheci. Como se já não bastasse ser uma mulher, Meredith também é uma pessoa perversa que não reconhece o bem que lhe fazem.

A quem quero enganar? Ela não é a vilã. É só mais uma vítima de sua própria fragilidade.
Vivia andando pelos becos imundos e sombrios de uma cidade corrompida. Vendia seu corpo a quem pagasse o suficiente para que ela tivesse o próximo café da manhã.

E eu, o maior idiota da face da terra, ignorei todos os motivos pelos quais uma pessoa vai parar na rua. Apenas olhei seus olhos azuis e pensei que uma criatura tão bela, apesar da sujeira, não merecia aquela vida. O maior erro que um ser humano pode cometer é deixar de pensar.

Vi o que mais ninguém via. Meus olhos foram enganados pela pele macia coberta de poeira e pelos lábios carnudos. Estava acabada, era verdade, mas ainda era bela. Seu rosto estava ferido por algum soco que levara e seu cheiro faria qualquer um com estômago mais fraco ter náuseas. Mas Meredith era mulher mais linda que eu alguma vez já vira. Eu acreditava em sua alma. Era tolo o suficiente para algo assim.

Fiz o que meu insano coração mandava e a levei-a dali. Agora sei que foi tolice, Meredith já havia sido corrompida pelo submundo, mas eu precisava fazer algo. Precisava ajudá-la.
Dei-lhe casa, comida, roupas e sapatos. Dei-lhe meu coração. Meu maldito, bondoso e ingênuo coração.

O primeiro ano foi tolerável. Ela se sentia deslocada, mas eu acreditava que era normal. Uma mudança como aquela não seria aceita de um dia para o outro. Apresentei-a aos meus parentes, amigos e companheiros. Lhe prometi proteção. Em todos os sentidos, lhe prometi absolvição. E, quando dei por mim, não havia mais volta. Eu a amava. Por deus! Eu amava aquela mulher loira que conhecia os mais intricados segredos do corpo humano. Aquela mulher que me incendiava com apenas um olhar havia se tornado dona do meu próprio coração.

De guardião à amante, do celibato à perdição.

Renunciei minha vida, minha escolha até então acertada. Abri mão da pureza e a segui até os confins do que me parecia o paraíso e hoje vejo que é o inferno.

Iríamos nos casar. Na mesma igreja onde eu antes celebrava minhas missas. Nos amávamos e estávamos felizes. Pelo menos eu estava.

Então Meredith sumiu. De uma hora para a outra. Como um sonho bom do qual somos obrigados a despertar, Meredith se foi. Só que não era um sonho e meu peito doía. O que eu havia feito de errado? Qual foi o meu pecado?

Encontrei-a no mesmo lugar de antes. Ela estava no mesmo beco fétido contando umas poucas moedas enquanto sussurrava que teria que arrumar mais um pouco para comer um salgado. E, por mais estranho que pareça, ela estava em casa.

Percebi que nada a tiraria de lá. Meredith já tinha a alma podre demais para que fosse libertada. O pecado a consumiu e seus olhos azuis nunca mais bilharam em nenhum outro lugar. Não por escolha, mas por já ser algo enraizado em sua natureza. O mal não surge de uma hora para a outra. Ele nasce e vai crescendo no coração dos mais fracos. Até tomar conta de tudo.

Mas ainda a amo. E a dor por vê-la em estado tão deplorável corrói minha alma. E o desejo arde como se fosse o próprio fogo do inferno. Não posso salvá-la, logo, não posso salvar a mim mesmo. Não posso retornar ao celibato e não posso mais ser eu mesmo.

Então, peço que perdoe-me, padre, pois eu pequei.

terça-feira, 26 de maio de 2015

100 palavras - Chocolate, cafuné e café

Não precisa me dar vestidos caros ou sapatos com o solado vermelho da Louboutin. Não quero dinheiro, bolsa de marca ou carro importado, só quero um bom cafuné nas tardes monótonas de sábado, é o suficiente pra quem, como eu, só curte uma boa massagem no pé.
Não precisa trazer café na cama todas as manhãs. Não quero que lave a louça do jantar, que esfregue a privada ou que arrume nossa cama. Pode deixar que o serviço doméstico eu faço. Mas, por favor, me traga chocolate e alguns livros para ler enquanto tomo café quando você sair para trabalhar.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Como neon

Foi tão rápido quanto um momento de luz ofuscante para então padecer em trevas infindas. Tão real quanto um futuro que, de tão desejado, não fez nada a não ser repousar no abismo dos momentos nunca vividos.

Foi tão intenso; um amor que me tirava o fôlego ao mesmo tempo em que me trazia à vida. Por ele eu morreria; por causa dele eu estava viva. E então a morte.

Aquele minúsculo feixe de luz invadiu minha vida e a fez mais bela. Por aproximadamente nove meses, eu me vi no céu. Bastou apenas um ponto pulsante na tela em preto e branco para que o mundo inteiro me sorrisse. É permitido a algum ser mortal se sentir tão grandioso assim?

E então o frágil cordão que lhe dava a vida também foi seu fim.

Acaso? Destino? Ou só o rumo para o qual todos os fatos me levaram? Resultado de escolhas erradas? Algum ser onipotente que teimou em mostrar que, para morrer, basta existir? Dúvidas, mais dúvidas e só uma certeza: a dor.

Imagino momentos que nunca terei, sorrisos que nunca verei, discussões que ficaram paradas no tempo inerte da minha imaginação. Aquele breve momento em que eu o vi. E sorri. Para então chorar. Por acaso vai acabar?

Um túnel sem fim, a sombra de um sorriso, o fantasma de uma felicidade que nunca terei, mas que bateu à minha porta e chegou bem perto de entrar e tomar conta do meu lar.

Relembrar de quando eu costumava planejar o futuro é inútil e doloroso demais para que meu coração suporte. E lá vamos nós de novo... Meus braços me rodeiam num abraço solitário, desamparado, e deixo com que o rio transborde. De novo. Por quanto tempo durará dessa vez? São apenas lembranças de algo que nunca existiu senão em meus sonhos; são lamentos por uma alma que nunca soube realmente o que é viver. Por alguém que morreu antes mesmo de nascer.

Não suporto abrir a última porta do lado esquerdo do corredor. Não suporto nem olhá-la. O prateado da fechadura delicada me derrota, o azul das paredes faz com que as lágrimas, que já não acreditava mais ter, voltem a escorrer.

A bomba de leite repousa em meu colo enquanto a moça com jaleco branco preenche a ficha de doação. O que não deveria ser doado. O que nunca deveria ir para aquele lugar agonizantemente claro e aberto. O lugar onde eu o perdi.

Susy – deve ser esse o seu nome - etiqueta o leite e me lança um sorriso que carece de alegria. Sabe por tudo o que eu passei. Lembra-se da minha história, mas será que entende minha dor? Não quero que entenda. Pior que ver a piedade, é enxergar o reflexo de mim mesma nos olhos de outra mulher.

Sobrevivo aos olhares caridosos, aos relatos parecidos e aos abraços tão desolados quanto eu. Mas as lembranças... Os sonhos, as expectativas... Estes me matam, me corroem como se um ácido corresse por minhas veias.

Já não resta nada.

Já não tenho nada a perder.

Como neon, "nunca mais" pisca na minha mente. O tempo inteiro. Sem nenhuma outra luz. Sem ninguém.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Além do amarelo da luz do sol

Eu vi o amarelo ofuscante da luz do sol e o azul do céu de um dia quente. Olhei para baixo, sorri para a proeminência embaixo do meu vestido. Era um menino. Eu já imaginava seus olhos azuis, seus cabelos tão negros quanto carvão. E poderia imaginar também a reação de Joshua ao descobrir qual o sexo do nosso bebê.

Verde, branco, amarelo, rosa. Nunca parei para prestar atenção no que as cores transmitem, mas hoje foi diferente. Tudo estava mais colorido, mais leve, mais alegre e vivo.

De repente, meu campo de visão mudou completamente. Azul escuro de um lado e laranja vivo do outro. No meio, a luz do sol fazia com que parecesse que eu estava num túnel e que, ironicamente, aquele era o fim. E era. Eu precisava alcançar a luz. O caminhão estava assustadoramente perto, próximo demais de mim.

Meus olhos se arregalaram e minhas mãos fizeram uma débil tentativa de proteger meu ventre. Em um único segundo, tudo o que eu mais queria se transformou no meu pior pesadelo.

Me senti sendo arrastada ao mesmo tempo em que minhas pernas falharam. Mas eu não caí. O ônibus me amparou dolorosamente enquanto a pior dor que eu já senti em toda a minha vida tomou conta de tudo. O caminhão se foi. O laranja brilhante deu lugar ao cinza quente do asfalto e então aquele vermelho escarlate escorreu, quase cremoso. Quase como se lamentasse por tudo.

O céu ficou embaçado enquanto eu pensava no que havia acabado de acontecer. Meu filho... Ele teria olhos azuis e os cabelos tão negros quanto os do pai? Sua voz seria melodiosa ou rouca? Seu sorriso seria meu pedaço do paraíso?

Rostos, cores, sons... Expressões de espanto, dor, pena...

Veio o desconhecido manto negro da morte.

E mais nada.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

100 palavras - Erros

Alguns cometem o erro de matar alguém; outros vão mais fundo, rasgam a pele do torso do seu oponente ao meio e ficam assistindo o sangue jorrar, sujando suas roupas e mãos. Seu pecado foi destruir uma alma, destroçar um coração e fazer lágrimas caírem dos olhos de alguém que te venerou. O meu erro, ao contrário do que parece, não foi amar. Foi fechar os olhos e me entregar. Alguns merecem confiança, outros – a maioria - se aproveitam dela. A diferença entre nós não é o nível de entrega, é o que cada um faz com o que recebe.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Os frágeis sonhos de Angeline


Assim como todas as outras meninas, Angeline sonhava em ser mulher. Já poderia imaginar-se usando os sapatos de salto alto da mãe e carregando as bolsas bonitas como as que a tia usava. Também sorriria como a mulher da novela e usaria roupas tão belas quanto as dela.

Já aos cinco anos de idade, a pequena e doce Angeline criou um mundo repleto de sonhos e anseios que realizaria quando chegasse a hora. Porém, enquanto esperava pelo momento certo, ela se contentaria em sentar-se ao lado da mãe e ficar horas observando-a se maquiar, arrumar os longos cabelos castanhos e borrifar os mais gostosos perfumes que havia no mundo. Era o jeito mais gostoso de aprender.

Mesmo com tão pouca idade, a menina já sabia que era privilegiada por ser quem era e por ter o que tinha. Seu pai, dono de uma enorme rede de supermercados, lhe dava de tudo e cuidava para que sua linda menina e sua bela esposa fossem tão felizes quanto se é permitido ser.

Angeline, por sua vez, fazia o que as crianças sempre fazem e sonhava com um futuro onde seu sorriso seria constante graças à felicidade que habitaria seu coração. Seu marido seria tão belo e atencioso quanto seu pai e seus filhos seriam uma réplica de si mesma. Ela cuidaria da casa e John, o garoto que conquistara seu jovem e inocente coração, trabalharia fora todos os dias. Os finais de semana seriam para a família e eles visitariam os avós de suas próprias crianças.

Como podem perceber, a pequena princesa Angeline criou um gigantesco paraíso onde viveria quando fosse mais velha e tivesse altura o suficiente para lavar as vasilhas.
Mas o destino é cruel e o acaso não perdoa os sonhadores. Se por obra de algo prescrito por um Deus ou por mero acaso, ninguém sabe, mas Angeline não cresceu. Não entrou na igreja vestida de noiva e nem saiu para jantar a noite. As longas conversas nas quais descrevia seu imenso castelo se transformaram em lágrimas que caíam em cima do seu pequeno corpo pálido, repousado dentro do caixão de madeira branca.

Tão rapidamente como vieram, os sonhos se foram.

Bastou um passo em falso próximo da escada para que o sapato, grande demais para seus miúdos pés, tombasse de lado e seu corpo se desequilibrasse e despencasse escada abaixo, rolando umas cinco ou seis vezes antes de cair e quebrar o pescoço no último degrau. O grito da babá foi ouvido por toda a mansão e os soluços da mãe eram intermináveis lamentos de uma alma destroçada.

Mal havia chegado, Angeline já se fora.

Em seu lugar ficou apenas um enorme vazio no peito dos que a amavam e mais de um milhão de sonhos que nunca seriam realizados.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Álbum de figurinhas

Semana passada ele foi embora. As marcas da mala de rodinhas ainda estão no carpete da sala; na verdade, eu acho que nunca sumirão. Se não do carpete, da minha memória, porque vê-lo levar o meu livro preferido – que, na verdade, era dele – foi um tanto quanto... Desconcertante. E real. É... eu acho que ganhei mais um adeus. Não que faça muita diferença, minha vida é um álbum de figurinhas com fotos de todas as pessoas que foram embora. Por enquanto, acho que ele tem umas setenta folhas preenchidas, mas eu ainda não escrevi a palavra “fim” na última página.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

100 palavras - Falta


Seu hálito morno povoa meus cinco sentidos como se deles fosse o único dono. Espalhado pelos quatro cantos do meu corpo, seu toque quente consegue me fazer sofrer todas as vezes que vai embora e deixa o vento frio da noite de outubro batendo nas minhas costas nuas. É como se o eco da sua voz rouca soasse por todos os labirintos do meu cérebro enquanto sua falta me envolve, me abraça e me sufoca. E eu me agarro à ela como se fosse uma presença constante, tão constante quanto eu queria que fossem os seus beijos cálidos da madrugada.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Crônica - Heróis brasileiros

Eu estava me decidindo sobre qual o tamanho do pacote de açúcar comprar quando ouvi os gritos do pessoal que estava no bar. A primeira coisa que pensei foi em achar uma saída de emergência, mesmo que fosse improvisada ou algum lugar para me esconder. Meus olhos arregalados foram do balcão para o balconista quando percebi algo de diferente na sua postura e em seu rosto. Ele sorria. Como assim ele sorria? Não estávamos sendo vítimas de um ataque terrorista? Assalto? Tiroteio? Que espécie de masoquismo era aquele?
Quase tive um enfarto, pela segunda vez no dia, quando um monte de homens veio berrando e correndo na minha direção. Certo. Não era um ataque terrorista. Nenhum deles parecia ter bombas escondidas embaixo da roupa – a maior parte nem usava camisa – ou estava pedindo desesperadamente para que Alá o mandasse ao paraíso das mil virgens.
Assalto coletivo? Mas para quê tudo isso para assaltar apenas um jovem estrangeiro magricela? Podem levar o açúcar, se quiserem. Só não me matem.
Foi tarde demais que entendi o que se passava. Percebi que eu, um africano no meio da selva carinhosamente chamada de Brasil, estava no meio de um bando de machos que choravam feito crianças pequenas porque seu time de futebol havia ganhado alguma coisa. Algo grande, presumo. Eles não ficariam tão desesperados assim se fosse pouca coisa. Ou ficariam? Não sei. Mas enfim... A questão é que não entendi o motivo de tanta emoção. O que eles ganhavam com isso?
Um dos meus erros foi perguntar isso ao velho que segurava um terço passando os dedos pelas contas furiosamente. Ele me olhou como se não entendesse meu falho português. Repeti a pergunta e o velho apenas continuou a olhar para a imensa TV grudada na parede. Tentei novamente, mas, dessa vez, perguntei que título o time dele havia ganhado.
- Não ganhou. – Respondeu para meu completo espanto. – Ainda não.
- Como assim?
- Zezinho fez um gol. Agora é só manter o placar que a gente... – Foi interrompido por mais gritos. Dessa vez furiosos, os homens começaram a xingar o juiz e sua mãe. Isso tudo porque o outro time fez um gol. Ainda não entendi o que a mãe do homem de camisa amarela florescente tem a ver com isso, mas deve ser algum ritual deles.
Fiquei assistindo aquele espetáculo de mau gosto até o final, quando um moleque do cabelo estranho chutou a bola e, antes mesmo dela entrar no gol, todos estavam pulando e berrando novamente. Consegui sair do meio daquela loucura toda e fui para minha casa na esperança de dormir um pouco mais confortável que da última vez.
Depois de algumas tentativas frustradas de entrar em algo parecido com coma profundo, – sofrer de insônia é torturante – fui para a minúscula sala e liguei a TV. Enquanto preparava meu chá de raiz de alface, – meu mais novo companheiro – ouvi o comentarista dizendo algo sobre o herói brasileiro que ganhou o torneio mundial de futebol.
Herói?
Por ganhar um torneio de futebol?
Por fazer um mísero gol?
Eu acho que não.
Com o perdão previamente recebido de toda a população adoradora do futebol, onde é que foi parar o cérebro dos brasileiros? Talvez embrulhado numa bola multicolorida ou no salário de um dos seus “heróis”.
De onde eu vim é raro ter água limpa para beber. Fui um dos poucos privilegiados que conseguiu sair de lá e procurar uma vida melhor. Quando chegava um médico na cidade, havia quilômetros de filas de pessoas para serem atendidas com equipamentos mais precários que o fusca amarelado que foi abandonado na esquina daqui de casa. As pessoas se matam por comida e aqui os homens reverenciam um magricela qualquer que ganha cinco milhões de dólares só para chutar uma bola que também custa um absurdo.
Vi a tal entrevista do herói. Quando o repórter disse “Zezinho” me lembrei na hora do homem do bar. Então era aquele moleque de cabelo estranho que era chamado de herói? O que ele faz além de brincar de bola e ganhar milhões por mês? Qual a relevância para a sociedade? E ainda, cá para nós, seu português consegue ser pior que o meu.
Futebol aqui é coisa séria, eu sei. Mas colocar a paixão no lugar da necessidade é insano.
Comecei a pesquisar sobre esses heróis brasileiros. Se é que podem ser chamados de heróis essas pessoas que só ganham dinheiro e aparecem na televisão e na revista de fofoca. Quanto ganham para ficar numa ilha (ou castelo) só para tirar fotos? Qual o sentido disso? Alimentar os bolsos de outras pessoas que estão ainda menos preocupadas com o resto do mundo? Não faz sentido. Não para mim.
Outra coisa que não faz sentido é o jeito como as pessoas esquecem tudo facilmente. O político que prendeu milhares de pessoas na ditadura é o mesmo que ganha as eleições para presidente logo depois. O acusado de corrupção é eleito governador. Brasileiro tem a mania irritante de reclamar de ser feito de capacho quando praticamente implora para que isso aconteça.
Não sei não... Mas a definição de “herói” dos brasileiros está um tanto quanto exótica. Para não dizer estranha, inversa e, que me perdoem os primos dos cavalos, burra.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

100 palavras - E me sinto ótima

Depois de tanto tempo vagando por diferentes corpos, se declarando para vários olhos e procurando diversos sabores, você não tem mais o direito de pedir perdão. Mas meu coração te perdoou. Quando viu que se dividir em mil cacos é inútil, quando acordou de manhã e se esqueceu da solidão que o acompanhava nas noites em que você não estava lá. E eu só percebi agora que aprendi a me esquecer de sentir falta do seu corpo quente ao lado do meu pela manhã que se estendia até de tarde. Agora eu vejo o sol nascer. E me sinto ótima.

domingo, 10 de maio de 2015

Eu não tenho nenhum diário

Boas garotas vão para o céu por escreverem seus pecados num diário com capa florida. Ou de coração. Elas seguem à risca o risco feito no chão para indicar o caminho que devem percorrer ao longo da vida. Estudar, namorar, casar, ter filhos... Bordar, fazer tricô e crochê. É... Pode ser uma vida tranquila. E feliz, para quem encontra a felicidade transando uma vez por semana na mesma posição e sem nenhum orgasmo até o fim da vida.
Eu? Bem... Estou longe de ser uma boa garota e mais ainda de descrever meu dia num diário cor de rosa antes de dormir. A noite é uma criança e eu a aproveito como gente grande. Sem me importar com as dores em lugares inusitados ou com a ressaca na manhã seguinte. Nada que um bom banho relaxante não resolva. E não, não acho que vou ao inferno por isso. Enquanto garotas boas escrevem num diário, eu sussurro meus pecados no ouvido de quem quer que esteja disposto a me ouvir.

sábado, 9 de maio de 2015

100 palavras - Deslize


Entre discussões sobre Elton John e Billy Idol e filosofias torpes envolvendo Cobain e suas letras, vejo seus olhos brilharem como estrelas no meio do infinito espaço sideral. São claros como o céu num dia ensolarado, mas ficaram turvos desde aquele beijo que me deixou acordado a noite inteira. Colocamos a culpa no álcool, mas nós dois sabemos que não foi por causa dele que acordamos nos braços um do outro no dia seguinte. Mas, por mim, tudo bem. Não serei eu quem contará ao seu marido preso sobre o nosso pequeno deslize no dia do seu aniversário de casamento.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

100 palavras - Sem ter que me preocupar com o vazio

Hey, não vá embora sem olhar para trás como tem feio todas as noites desde o mês anterior ao mês retrasado. Não quero me despedir de novo, como tenho feito desde então. Por favor, sinta a vontade de ficar aqui por, pelo menos, uma madrugada inteira. Por um instante, se permita sentir a coragem de querer ficar. Me deixe sentir seu calor por mais algumas horas, só por algumas horas, por favor. Quero sussurrar frases dóceis em seus ouvidos, me aninhar no calor dos seus braços e adormecer, sem ter que me preocupar com o vazio que encontrarei de manhã.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Quebraste a cara, Edvaldo!

Ingrato! É isso o que tu és, Edvaldo! Por desperdiçar tudo o que te ofereci, por renegar meu amor e por usar meu corpo. Entreguei-me completamente a ti e aos teus caprichos. Até engoli tua semente para proporcionar-te prazer! E como me paga?! Indo comprar café e desaparecendo da face desta maldita terra!

Maldito sejas tu, Edvaldo! Que sumiste da minha vida sem mais nem menos pensando sabe-se lá Deus que depravações encontraria em São Paulo! Encontraste uma mulher mais nova que eu? Retiraste mais uma moça inocente da casa dos pais e encheste-lhe com a tua maldita cria? Fez-lhe o mesmo mal que fizeste à mim, Edvaldo? Responda, seu filho de uma égua!

Acha que foste fácil alimentar dois filhos sozinha? Pensas que me virei feliz da vida para pagar as consultas médicas?! Não me olhe com essa cara de cachorro pidão, seu calhorda, que não me convenço mais pelos teus olhos brilhantes ou me deixo levar pela tua lábia! Vá te foder!

Mas já te entendi, Edvaldo... Pensou que eu ainda fosse aquela moça inocente e apaixonada de cinco anos atrás... Pois é com imenso prazer orgástico que vejo-te quebrar a cara. Para esta casa é que não volta! Não vais viver e comer às minhas custas nem te aliviar em meus lençóis. Vá dormir na rua, volte para São Paulo, viva com teu irmão... O que quiser! Mas não ponha nem a ponta do dedão do pé na minha casa! Ou te mato, Edvaldo, juro que te mato à paneladas! E não me procure mais. Nem à mim e nem aos meus filhos.

Vá à puta que te pariu, Edvaldo!


quarta-feira, 6 de maio de 2015

Ok, eu admito: não chamei mais ninguém


Festa? Quem disse que era uma festa? Ah... Eu disse. Bom... Não tem festa. Tinha, mas eu cancelei. Por que eu não te avisei? Não quero responder. Droga, claro que eu posso não responder uma pergunta. Dane-se a ética, quem liga pra ela? Eu não.

Então, já que não tem festa, a gente poderia... NÃO! Não vá embora! Fique aqui comigo! E daí se não tem convidados? Podemos fazer uma festa particular. Só nós dois, juntinhos, uma música agradável... Como assim? Mas é que... OK! Eu admito, não chamei mais ninguém. É que eu queria te ter só pra mim.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Algum drama qualquer - II

Enquanto vou dedilhando minhas frases e provando o gosto das linhas que digito na velha máquina de escrever que é minha mente desorganizada, faço combinações diversas, inversas, reversas. Distopias utópicas de um mundo que quase existiu.
O problema é que são só ilusões. Só lembranças de uma alucinação que eu tive sobre nós dois. Aquele tipo de coisa que faz a gente sonhar acordada e chorar por não ter vivido. Como um livro bom demais para ser apenas um livro.
O problema é que poderia ser realidade. Uma vida inventada e controlada por mim mesma, tendo nós dois como protagonistas. Aquele tipo de coisa que me faz sorrir com a ideia de que nada é impossível. Como um livro, que é bom demais para ser só um livro.
E enquanto vou sonhando acordada com tudo o que poderia ter sido, você apenas observa o cinza da cela e o ferro das grades que encarceram alguém que tentou me matar. E, de certo modo, conseguiu.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Somos o oposto do que deveríamos ser


Apenas venha até mim e tome o que realmente quer. Ambos sabemos que todas essas palavras amargas apenas tentam mascarar o imenso desejo que arde por todo o seu corpo gostoso. Seus olhos passeiam pelo meu peitoral enquanto sua língua explora seus próprios lábios carnudos. Seu corpo te trai, minha cara.
Vamos, Satine, não fique acanhada. Já fez isso tudo antes, certo? Apague logo esse fogo que nos consome. Pra que hesitar? Fingir ser frígida não vai nos levar a lugar algum. Pare de reclamar e venha ser minha. 
Isso... Boa menina. Se aproxime mais um pouco, tire esse olhar assustado do rosto e sorria do jeito sacana que me enfeitiça. Você não é santa, muito menos eu. Por que o medo? Só porque descobriu que se apaixonou? Bom... Nisso damos um jeito depois. Apagaremos primeiro o fogo do corpo.
Não espere por palavras doces, não sou assim. Sabe bem disso. Eu lhe avisei, Satine... Disse-lhe para não se apaixonar por mim. Mas não tem jeito, não é mesmo? Você nunca ouviu os conselhos de ninguém.
Precisamos um do outro. Preciso senti-la, Satine. Seu rosto, sua boca, seu peito, seu corpo... Suas mãos. Leve-me ao paraíso e nem pense em desistir no meio do percurso.
Admita que é tão podre quanto eu. Admita que seu corpo anseia pelos prazeres que posso lhe proporcionar. Somos iguais, meu amor. Não adianta negar. Está no brilho do seu olhar, no jeito como entreabre os lábios para que eu a beije, na respiração arfante, em suas unhas cravadas na minha pele.
Eu sei que existe algo mais profundo, eu sei que você me ama, mas eu não consigo amar nada mais além do seu corpo. Talvez eu seja o insensível por isso e você não tenha amor próprio algum por me aceitar. Não sei, e não quero nem pensar.
Somos podres, Satine. Somos sem vergonha, defeituosos, impuros. Somos completamente errados. Somos diferentes, inversos, o oposto do que deveríamos ser. Mas somos perfeitos. Ao nosso modo, somos perfeitos um para o outro.

domingo, 3 de maio de 2015

Algum drama qualquer - I

Tão estranho não te ter mais aqui do meu lado... O espaço vazio na cama me deixa com um sentimento perturbador, desconhecido. Algo que, mesmo não trazendo lágrimas aos meus olhos, me deixa a impressão de que perdi você.
Impressão? O quão fundo é o buraco no qual me encontro para subestimar tanto assim sua própria decisão? Te perdi. E nada mais pode trazê-lo de volta.
Não é como quando você saía para viajar. Naquelas circunstâncias, eu sabia que iria voltar. Agora o vazio é mais profundo do que qualquer um possa imaginar. Uma ferida em minha vida que, eu sei, custa a sarar.
Não vai voltar. Não me deixou bem claro? Falou, com todas as letras, que não iria se arrepender ou me ligar nas madrugadas frias e solitárias. Não mais me esquentará.
E eu, tola que fui, não me opus.
Não lhe implorei para que ficasse, não me ajoelhei aos seus pés ou chorei rios de lágrimas para que não me deixasse. Talvez o orgulho tenha falado mais alto, mas a verdade é que nunca, em hipótese alguma, admiti precisar de alguém além de mim mesma.
Tentei me convencer de que tudo daria certo e que amanhã faria só mais um mês. Como uma débil cura para sua falta, tratei de colocar um travesseiro ao meu lado toda noite. Meu mais novo vício: dormir abraçada ao seu cheiro. Até comprei o perfume que costuma usar. Não é a mesma coisa - a combinação do que o seu cheiro natural e esse perfume formam é infinitamente mais prazerosa -, mas de um pouco já me serve. Já me ajuda a lembrar de como era dormir ao seu lado.
Oh! Insano arrependimento. Por acaso não ansiei tanto por ser dona do meu próprio nariz? Até sair cedo da casa dos meus pais, eu saí. Construí minha independência e... O que ganho em troca? Um patético “adeus” e, o que é mais desonroso ainda, um travesseiro perfumado.
Disse que iria embora sem nenhum tipo de arrependimento e eu, mais do que tola, apenas assenti. Minha cabeça se mexendo em concordância enquanto meu coração se despedaçava e minha mente girava. Mas, como eu disse, amanhã fará um mês. Pelo menos é no que eu quero acreditar.
Sim. Fui ao fundo do poço no início, mas agora consigo respirar algo diferente de água. Não o tão sonhado ar puro, mas a poluição já faz parte de nós, certo?
E sempre fará.
Em todos os rostos te procuro; em todos os trejeitos te encontro.
Ansiei tanto por ser livre, e agora só quero que você me prenda novamente em ti.
E, enquanto não faz um mês, te desejo, sinto sua falta, choro toda noite e te encontro nos lugares mais estranhos. Mesmo que, no fim, você só esteja em minha mente que, aos poucos, enlouquece.

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