terça-feira, 28 de abril de 2015

Divagações de um dia qualquer - I


Me pergunto se foram os ideais que mudaram ou se mais pessoas começaram a persegui-los. Me pergunto se a mudança pela qual todos nós passamos tenha sido mesmo positiva. E me pego pensando, de vez em quando, se os tempos de calmaria não são tão propícios à criatividade. Me sinto diferente, como se um século tivesse se passado. E não passou nem sequer um ano. Mas eu já me senti assim antes: adulta demais para ser como as crianças e criança demais para pensar de acordo com o meu tamanho. Uma rainha deslocada, sem lar em seu próprio reino. Eu sei que mando em tudo aqui dentro, mas sinto que não sou mais tão bem vinda assim. Minha cabeça rejeita o que meu coração também insiste em negar: é hora de crescer. Não dá mais pra evitar.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Pense em mim


Pense em mim como alguém que sempre vai estar lá quando você precisar. Sou como a luz no meio da escuridão, quem é capaz de explodir no meio do tiroteio apenas para te salvar. E quando tudo estiver confuso e frenético demais, eu sou o silêncio no meio do desespero, o lar para onde você pode correr quando sentir que está difícil demais de caminhar. Posso te carregar, se você se cansar. Deixe que eu ilumine o seu caminho, me deixe ser seu protetor. E fique embaixo de mim quando as paredes ruírem, deixe-me explicar porque eu morreria por você.

domingo, 26 de abril de 2015

Conto - Últimas palavras

Independentemente de terem sobrevivido ou não, são heróis. Heróis por livre e espontânea pressão. Mas ninguém lembra seus nomes ou conhece suas diferentes personalidades. Ninguém quer mesmo saber disso. O que importa é que eles foram até o campo de batalha e venceram. Lutaram para que alguma coisa grandiosa destruísse o mundo em nome da paz. Nada mais.

Numa parede qualquer, há um quadro com o seu nome gravado. Alguma medalha empoeirada que algum dos parentes guardou numa gaveta raramente aberta. Recebeu o título de herói por salvar a pátria amada. Mas sua alma se foi.

No geral, só duas possibilidades de destino existem para os soldados que sobrevivem ao inferno: ou morrem lá, ou vivem para contar história e morrer em outro lugar. Meu avô sobreviveu. E contou histórias inacreditáveis até o último segundo. Até não aguentar mais. Frederick Jenkins viveu a maior parte dos seus noventa e cinco anos apenas existindo e contando histórias. Ele precisava falar para não enlouquecer. Desde que voltou da guerra, ouvi dizerem, nunca mais foi o mesmo. Ria, brincava, amava, contava piadas, mas não do mesmo modo. Algo faltava nele. Algo que lhe fora arrancado pelas pessoas que o mandaram à batalha enquanto seu filho mais velho ainda crescia no ventre da esposa.

Senti isso em minha própria pele quando ele começou a falar, pela última vez, de como foram os anos passados em campos de batalha. Era como se a lucidez houvesse abandonado de vez sua cabeça por alguns instantes e tudo o que ele pudesse ver fosse o lugar assustador onde esteve. A espera pela morte certa, a esperança inexistente de dizer um “eu te amo” ao filho antes de sucumbir, ver diversos companheiros e oponentes caírem ao chão antecipando o seu próprio destino... Todos os pelos do meu corpo se eriçaram com a emoção que havia em suas palavras de moribundo. E o pior: ser o culpado por aquilo. Não que a guerra fosse culpa dele, a guerra é culpa, meu avô me disse uma vez, dos "cuzões" que sentam seus rabos em cadeiras confortáveis e assistem, de longe, a chacina, intocáveis em todos os sentidos.

Nunca vou me esquecer dos olhos cheios de uma emoção fervorosa que se transformava em lágrimas não derramadas enquanto as palavras saiam de sua boca. Como se ele e os comandantes do circo do terror estivessem frente a frente. Todo o ódio firmemente controlado, vinha à tona bem na minha frente. Nunca imaginei que por trás daquele homem distante e às vezes melancólico pudesse existir tanto ódio por uma atitude imposta que, mais tarde descobri, destruiu sua vida, suas noites de sono e, em parte, nossa família.

Meu avô contou das noites sem dormir, dos pesadelos, das lembranças amargas, dos corpos mutilados, ensanguentados, da saudade, da dor, do desespero que não poderia existir, dos psiquiatras, médicos, enfermeiras, da angustia, do peso das armas, do barulho dos tanques, do som desesperado da morte, do cheiro, do gosto do gatilho pressionando seu dedo... Cada detalhe assustadoramente visível em minha mente. Eternamente gravado em sua alma já esgotada.

Descreveu também, com imenso pesar, as crianças e mulheres que encontrava no caminho. Da dor nos olhos das mães desesperadas por dar um pouco de comida aos filhos, das doenças que os assolavam, de alguns que comiam a carne dos corpos espalhados pelo chão... Sua esposa, minha avó, poderia ser uma delas.

Para o velho Jenkins, quem viu o que ele viu, não merece viver tanto. Mesmo o pior dos homens não merece um sofrimento tão grande. Conviver com os horrores de uma guerra pelo resto da vida é quase tão ruim quanto estar lá para ver de perto. A única coisa que havia mudado era que o perigo não era mais físico, mas sim psicológico.

“Depois de um tempo a gente até se acostuma com aquilo tudo e chega a desejar que o mesmo aconteça conosco. Algo na morte nos acalma. É melhor participar do que assistir todo o espetáculo de camarote.”

Obviamente, o velho Fred não teve essa sorte. Sobreviveu para contar tudo o que viu. Imagino o que aconteceria se ele não conseguisse colocar tudo para fora... Talvez sua alma quebrada ficasse completamente destruída se meu avô não tivesse alguma válvula de escape. Se no início ele não conseguia nem falar sobre o que viu, em seus últimos dias ouvi a amarga ironia sair de seus lábios o tempo inteiro, até enquanto dormia. Ele sabia que chegava perto do fim. E isso o alegrava.

Meu avô se foi, mas, por mais estranho que possa parecer, não fiquei triste. Pelo menos não tão triste quanto eu pensei que ficaria. Fiquei ao seu lado em seus últimos dias, eu estava lá para ouvir suas palavras cansadas, para ver seus gestos exaustos e ver o brilho em seu olhar meio morto. Vi de perto o quanto ele desejava por isso. O quanto precisava de um descanso. Quanto tempo mais ele aguentaria passar sozinho, com suas próprias memórias?

Mesmo com todas as histórias, todos os momentos juntos, a primeira coisa que recordo ao ouvir seu nome é da última vez que ouvi sua voz.


“Eu já morri, meu neto. Há anos, minha morte foi sentenciada e aconteceu enquanto eu atirava em algum dos meus semelhantes. Foi mais lenta e dolorosa do que qualquer pessoa pode imaginar. E, honestamente, jovem Fred, eu não quero que alguém me entenda. Não quero que tudo o que eu vi seja visto por mais ninguém. Não lamente por mim. Apenas fique feliz por eu ter encontrado, finalmente, a paz.”

sábado, 25 de abril de 2015

Reabilitada


Hoje eu juntei suas memórias
Escolhi dentre nossas histórias
Aquelas disfarçadas de fim

Hoje eu vi imagens aleatórias
Me vi dentro da velha escória
De quem te amou mais que a mim

Hoje eu tive uma vontade imensa de sorrir
Quase gargalhei em frente ao espelho
Conversei comigo mesma intensamente
Fui psicóloga e paciente.

Hoje eu joguei no canto do quarto as cores escuras
Desisti de me fantasiar de luto
Esqueci de me queixar de tudo
E desejei um ótimo dia ao mundo.

terça-feira, 21 de abril de 2015

200 palavras - Série Elas - Juno

Descabelada, Juno encarava as paredes brancas acolchoadas. Seus olhos azuis estavam amedrontados, como se a qualquer momento eles pudessem entrar novamente para fincar-lhe mais uma agulha em alguma parte do seu corpo. Era só o que eles faziam ultimamente.
Ela sabia porque estava ali. Sabia porque usava uma camisa de força e o que todos pensavam sobre isso. Só que Juno não era louca. Ela apenas era diferente da maior parte das pessoas. Isso não é um crime. É?
Os olhos azuis examinavam cada fresta do cômodo, cada botão em cada bloco macio da parede. Seus braços tentavam a todo custo se mexer, mas era inútil, eles haviam apertado a camisa com muita força.
Queriam seu sangue puro, raro, seus olhos azuis, seus cabelos loiros e sua pele corada. Eles queriam seu ser, queriam possuir seu dom da beleza para guardar em seus bolsos e vendê-lo a quem pagasse mais. Eles queriam ser ela.
Por isso diziam que ela era louca, que suas ideias não eram tão sãs. Usavam artifícios e jogos impuros para convencê-la de que não era melhor que ninguém e de que ela não era a encarnação de uma deusa grega mais poderosa que todos eles juntos.

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domingo, 19 de abril de 2015

Ausência


Lágrimas frias como a neve escorrem pelo meu rosto enquanto observo as cordas serem, aos poucos, soltas.

Dizem que, quando uma pessoa está prestes a morrer, sua vida inteira passa por seus olhos em poucos segundos. Foi assim para você? Porque é assim para mim. Em todos os momentos da minha vida, você esteve comigo. Sempre ao meu lado. Não estou morrendo, não fisicamente, mas me lembro de tudo. O simples ato de lembrar me mata. Me lembrar de cada palavra, cada gesto, risada, cada lágrima...

A vida tem um jeito perverso de brincar com o que dizemos. Você me disse uma vez que eu sentiria sua falta se, por acaso, partisse. Como sempre, estava certa. Mas nomear o sentimento que acompanha sua ausência como saudade seria subestimar o lugar que ocupa na minha vida. Um substantivo tão simples carece de intensidade para definir a desolação na qual se encontra meu coração neste momento.

Sob o sol escaldante, rodeada por pessoas enlutadas, eu sinto frio. Um frio que só piora enquanto o caixão desce. E dói saber que você, que é a única que pode aquecer minha alma, nunca mais voltará.

Mas, assim como “saudade”, “dor” também carece de força para definir o estado decadente no qual se encontra a minha alma. A lembrança da sua voz, o cheiro do seu perfume no carro, suas roupas no armário e até sua decoração no quarto me atormentam, me seguem onde quer que eu vá.

Mas apagar seu cheiro, queimar suas roupas ou excluir de vez seu gosto não me serviria de consolo e nem diminuiria minha dor.

Consolo... Quem se atreveu a nomear algo que nem sequer existe? Uma utopia de almas desesperadas por um alívio que nunca encontrarão. Não há nada que possa apagar as lembranças, enxugar as lágrimas, esconder sua imagem ou abafar sua voz. Nada que me faça esquecer. Assim como nenhuma palavra pode definir meu tormento, nada pode levar a agonia do meu peito. Nenhum “tapa-buraco” ou nova lembrança. Seu silêncio grita e sua ausência me emudece.

Não ter nada para falar, nada que eu possa fazer, leva minha mente aos limites da sanidade. Aos poucos, vejo a mim mesma enlouquecer de saudade. Apenas mais uma que veio de lugar algum indo na direção de lugar nenhum. Observar a terra cobrir seu corpo faz com que novas lágrimas escorram e a ferida não cicatrizada, mais uma vez, é cutucada.

Quantas vezes mais eu passarei por isso? Meu coração vai se cicatrizar ou esse tormento se tornará constante? Por quantas vezes mais esse buraco em meu peito dará sinal de vida e arderá ao ponto de me fazer ansiar pela morte? Quem sabe não nos encontremos, então?

Não te ver, não ouvir sua voz me guiando ou sentir seus braços ao meu redor, me assusta e me apavora.

Me diz, o que farei sem você? Com que pernas caminharei? Que conselhos seguirei? Que mãos enxugarão minhas lágrimas agora que as suas não podem mais fazê-lo?

A resposta é óbvia demais para o meu próprio bem.

Andando pelo cemitério, levo minhas mãos à minha própria face e enxugo as lágrimas que já escorreram. Tolice. Outras tomarão esse lugar. Agora sou só eu.

Assustador... Mas, mais do que isso, é torturante.

Não precisaria me consolar, ou me fazer algum favor. Era só estar aqui. Só estar viva. Sentirei sua falta como um pássaro engaiolado anseia por voar. Desejarei sua presença como um tubarão precisa da água do mar.

Mais do que em vídeos e fotografias, você estará em minha alma. Marcada a ferro quente e mais profundamente que uma tatuagem. Em meu peito, em minha memória, na minha cabeça e em meu sentimento.

Porque, mais do que qualquer outra pessoa, eu te amo, mãe.

sábado, 18 de abril de 2015

Longe de ser exata, mais ainda de ser absoluta

Não sou um número primo, muito menos inteiro. Não chego nem perto de ser absoluta. Sou quase fração irredutível, uma dízima periódica. Longe de ser dois mais dois, talvez eu seja sete dividido por nove ou quinze dividido por treze. Sem raiz exata, impossível de ser potência, mas ainda existe a possibilidade de ser multiplicada ou somada.
Não sou uma ciência exata, sou um conjunto de quases. Inequações sem nenhum conjunto de resultado. Não sou inteiro nem metade. Sou dividida em pedaços. Mas, aqui, o que vem primeiro são as raízes, depois o que multiplica e só então o que diminui.

Não venho com manuais ou fórmulas. Não sou compatível com Baskhara, talvez Pitágoras: é provável que você precise de um dos meus lados para decifrar o outro, talvez o maior. O problema é encontrar meu ângulo reto quando são todos agudos ou obtusos. Nada de meio termo, mas nunca absoluta.

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quinta-feira, 16 de abril de 2015

O novo anjinho do papai


Chegaram em casa com uma coisa pequena e gorda, embrulhada em panos amarelados e floridos. Disseram que a coisa enrrugada era linda e muito, muito amada. E me mandaram chamá-la de irmãzinha enquanto a vestiam com roupas de ursinho e lhe enchiam de mimos.

No início eu até que gostei do sorriso sem dentes que ela abria sempre que me via. Eu até que dei gargalhadas das caretas que ela fazia enquanto mamãe a obrigava a comer a papinha gosmenta e amarelada. Mas o papai disse que ela era o seu anjinho.

Por que ele deu o meu apelido para ela, eu não sei. E nem me interessa. O que me interessa agora é quanto tempo ela sobrevive com a cabeça enfiada na privada.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Jeisy


Jeisy anda pelas ruas da cidade onde mora, conquistando olhares, colecionando corações despedaçados, distribuindo sorrisos ofertados por sua máscara.

Todos a possuem, mas ninguém a tem. Ela é do mundo, mas não pertence a mais ninguém além de si mesma e das próprias fraquezas e ambições. É como todas as outras garotas dessas tantas esquinas da vida, se julga tão dona de si mesma e da sua falta de inibições que se perde todos os dias.

Contorna os olhos castanhos de preto, usa maquiagem para disfarçar as sardas e escova o cabelo ruivo para que sua aparência seja mais forte que seu coração. Se odeia ao acordar, mas idolatra a imagem que criou de si mesma. A Jeisy das seis da manhã é sensível e ainda sofre da doença dos corações partidos. A outra, a da noite, não se importa. É forte e decidida, fria.
Não é feia, mas precisa ficar deslumbrante para apreciar os olhares que recebe toda noite. Só a parte exterior tem que bastar, já que Jeisy não quer nada que possa lhe deixar vulnerável como uma borboleta na chuva, não quer nada que a faça se sentir nua, desprotegida. Amar uma vez só é o suficiente.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

O sofrimento humaniza

Não vai matar se a sua humanidade escorrer por suas bochechas. Vai doer, mas não é como se isso fosse ruim. Pior seria não sentir nada do que não consegue demonstrar. Não, você não precisa olhar ao redor para saber se tem alguém olhando. Eu estou aqui, mas você também não precisa esconder o rosto de mim. Não precisa se envergonhar. Eu juro. Não há nada de errado em chorar, eu sei como seu coração é forte e do que é capaz de fazer em tempos de glória. Chorar não vai mudar minha visão ou diminuir meu amor por você.

sábado, 11 de abril de 2015

Aqui, agora


Há muito pouco tempo, não sei como me imaginava aqui, agora. Só sei como não me imaginava: aqui e agora. Desse jeito, nesse momento. Feliz, talvez, mas não tanto assim.
Se meu eu de agora conversasse com meu eu do passado, acho que eu não conseguiria me reconhecer. O sorriso em meu rosto não é mais o mesmo, meus pensamentos não estão menos objetivos, mas meu coração anda mais leve, acredito que é capaz de voar se minha cabeça não fizer questão de segurá-lo.

Eu não planejava, mas estou aqui, agora. E isso faz um bem danado à minha alma.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

De algum futuro distante

De algum lugar num futuro distante...

Caro leitor do passado,

Assim como todas as conquistas do mundo, tudo começou com um sonho que parecia mais uma utopia. O ideal da paz mundial estampado em todo lugar por onde eu passe e o peito cheio de orgulho com a frase “Nós conseguimos!” estampada nas testas, blusas, bolsas... Vencemos a guerra contra a discórdia. E nem  mesmo precisamos guerrear.

Mentira. O mundo se transformou num completo caos onde se misturavam meio ambiente, violência, economia, evolução, conservadorismo e mais coisas do que você pode imaginar. Mas, no meio da crise, de alguma forma milagrosa, o trem voltou para a linha certa (ele estava nela, por acaso?) e não mais corre perigo de descarrilar. Pelo menos é o que os novos governantes dizem nos comerciais.

Agora, temos sorrisos estampados em rostos belos, cumprimentos cordiais e almas felizes. Nada de brigas, discussões, o trânsito é tranquilo, preços são justos e o crime foi, oficialmente, banido. O mundo perfeito, tão sonhado pelas pessoas do seu tempo, foi conquistado. É tão anormal viver sem nenhum tipo de tristeza que as pessoas ainda não se deram conta do dano que isso nos causa. Ou perceberam e não querem admitir. A arrogância humana sempre foi o pior inimigo de qualquer entidade. Apesar de todos saberem disso, ninguém se importa. Parece que nos transformamos em robôs, que só fazem o que mandam e não pensam muito para isso.

A morte? Ela está aqui, à espreita, espiando as pessoas mais velhas. Morrer de velhice é tão comum que as pessoas nem mesmo choram quando seus avós, pais, tios partem. Já passaram tempo o suficiente ao seu lado, eu acho. Acredito que arrumarão um modo de banir de vez os rituais funerários também. Não ter reação ao perder algo ou alguém... Me pergunto onde é que foi parar a natureza humana no meio desse bando de robôs de carne e osso sem lágrimas.

Antes, o mundo estava em equilíbrio. Com os dois opostos coexistindo, as pessoas sabiam dar o devido valor ao melhor deles. Conhecer os dois lados da moeda, o amor e o ódio, o feio e o belo, o azedo e o doce, faz com que tenhamos uma visão mais ampla de tudo o que implica escolher um ou outro. Mas nós cometemos o pecado de esquecer.

É verdade que a criminalidade não mais existe, que a violência foi extinta. Muitos não sabem nem qual o significado dessas palavras, mas... Talvez o custo tenha sido alto demais. E nós não temos como pagar.

Porque o homem pode tudo, quer o mundo, mas não assume os próprios erros. E ele sabe disso. E, como o ser humano é um bicho imbecil e confiante demais para fazer bem ao mundo, ele simplesmente estabelece metas para cumprir. Como um vendedor de carros. Sem pensar no que pode acontecer, a única coisa que importa é conseguir. Depois que alcançar a meta do mês ele simplesmente vai procurar algo ainda mais alto, sonhar ainda mais além do nada que ele pode controlar.

Sem violência, todos satisfeitos com todo mundo, sem brigas, sem mortes sem sentido... Esse é o nosso mundo hoje. Mas falta algo. Pode chamar de “a incrível capacidade de nunca se sentir satisfeito” ou qualquer outro nome que queiram atribuir ao caráter egoísta e insatisfeito do ser humano que nos persegue ao longo dos séculos. Com todos completamente satisfeitos o tempo inteiro, sobra espaço para... Para que? Ninguém mais procura pela felicidade ou persegue seus sonhos. Os sorrisos não são mais tão felizes quanto os que estampam imagens antigas, os olhos retêm toda a indiferença de uma alma acostumada a ter tudo de mão beijada. Somos uma manada de seres que apenas sobrevivem.

Sim. Conquistamos o universo e acabamos com os grandes problemas do mundo. Estamos tão satisfeitos que nos transformamos em seres que apenas existem, como amebas: fazem o que devem fazer e pronto. Não sentimos. Acabou o amor, a felicidade, se foi todo aquele fervor e vontade de conseguir algo mais. Rostos apáticos que não dão valor à nada, pois já têm tudo. Almas inertes fingindo não ver o mal que causaram a si mesmas. Se é que ainda podem ser chamadas de “almas”...

Caro leitor do passado, seu mundo caminha na direção do meu. A “evolução” que ele conhecerá é melhor em sonhos, acredite em mim. Carros que voam, juízes e advogados sem trabalho, economia estabilizada e mais outros muitos anseios que seu povo tem acompanham a ruína do coração da espécie. Provocam a morte do que deveria existir dentro de nós.

Nosso cérebro evoluiu, mas a vontade de nos tornar algo melhor e a felicidade ao consegui-lo morreu em algum lugar, não muito além do seu tempo.

Por favor, não faça como nós. Não deixe isso acabar.
Jenna Stuart

terça-feira, 7 de abril de 2015

Eu também quero

Você me enganou de novo, não? Me diz, como é despedaçar o coração de alguém? É boa a sensação? Porque, se for, também quero sentir. Te deu prazer, rendeu-lhe alguns orgasmos? Muitos? Que espécie de perversidade existe em ser você? Que espécie de ser humano é? Me diga, eu quero ser fria assim também.

domingo, 5 de abril de 2015

Mulher

É caça e é fera;
olhos vermelhos, 
brilhantes,
negros como a noite.
Feita de doçura 
e de raiva.

É menina 
e é monstro;
lábios carnudos,
presas sujas de sangue.
É feita de vida 
e é a encarnação da morte

É bela e é amarga,
vulnerável, 
invencível.
Delicada e letal.

Feita de seda e de carne,
boneca de porcelana 
e de aço.
Mulher.

sábado, 4 de abril de 2015

Tudo bem

Tudo bem meu amor. Eu só queria passar o resto dos meus dias ao seu lado. Eu só queria sentir seu cheiro ao acordar e ouvir seu “bom dia” sonolento ao pé do ouvido que me arrepia da cabeça aos pés, logo de manhã. Bem... Parece que você não quer, mas tudo bem. Eu tenho alguns meios para te convencer.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Contos - O amigo

Ela tinha seis anos, dez meses, três dias e havia acabado de se mudar para a rua onde eu morava. Seus olhos azuis brilhavam mais que o sol e seus cabelos loiros dançavam com o vento morno do meio da primavera. E que azul era aquele? Talvez fosse a blusa da mesma cor dos olhos que realçava as íris mais lindas que eu já havia visto em toda a minha vida. Só mais tarde percebi que reparar na roupa de uma mulher, mesmo que ela fosse só uma criança, era sinal de um problema muito sério.
Annie... A voz doce e infantil me disse seu nome e eu quase babei ali mesmo. No auge dos dez anos de idade, era meio estranho e nojento babar por uma menina mais nova, mas eu já não me importava em ser motivo de chacota para os meus amigos pelo resto do ano e mais um pouco da eternidade. A única coisa do mundo com a qual eu me preocupava havia acabado de perguntar como eu me chamava. Pisquei confuso e ela riu. Caramba... Tinha como aquilo piorar?
Filha única, princesinha do papai... Um diamante raro e intocável protegido por todos os lados. O sonho de qualquer pivete mal criado imundo. O meu sonho. Ver toda aquela atmosfera de beleza, limpeza e inocência fez com que eu, o mais novo de cinco filhos, mudasse radicalmente. Tomar banho virou parte da rotina e não só mais uma ordem burlada, os palavrões foram extintos do meu vocabulário quando Annie disse que os pais não gostavam de palavras feias. Eu queria conquistar a patricinha do final da rua antes mesmo de saber o que significava a palavra “amor”.
E, de certo modo, deu certo. A garotinha do sorriso encantador se tornou minha melhor amiga do mundo inteiro. E eu era seu protetor. Não me importava com o que as pessoas diriam ou se os meus irmãos iriam rir da minha cara, eu só estava ali para quando ela precisasse. O perfeito irmão mais velho sem perceber que eu queria ser mais.
O tempo foi passando e a nossa amizade se tornou ainda mais intensa e verdadeira. Se fôssemos irmãos, não seríamos tão unidos.  Famílias completamente diferentes e, mesmo assim, nos dávamos tão bem... Ela esteve do meu lado quando meu pai morreu e eu enxuguei suas lágrimas quando o primeiro namorado a deixou, mesmo desejando ir até o sujeito e quebrar-lhe a cara. Acho que foi naquele dia que eu descobri o que era depender de outra pessoa para ser feliz.
Aquele foi o primeiro de muitos outros. Annie tinha a mania chata de se apaixonar pelo cara errado. O mais revoltante era ela não perceber que eu, o cara certo, estava mais perto do que ela era capaz de perceber. Passei minha adolescência vendo-a pular de amor em amor, trocando suas paixões e despedaçando seu coração. Cheguei a acreditar que a minha loirinha de sorriso encantador não fosse uma garota de um parceiro só para o resto da vida e isso me desolava.
Ser seu amigo era um bônus. Olhando pelo lado masoquista da coisa, se todos os amores iam embora depois de um tempo, o que eu tinha com Annie era mais duradouro que um simples romance. Eu não era o namorado, mas também não era só seu amigo. Eu era O amigo. O cara que enxugava suas lágrimas e ouvia todas as histórias por ela vivenciadas. Loucura? Acredito sinceramente que sim.
Mas meu mundo realmente ruiu quando veio a notícia de que ela se casaria com um Mauricinho engomado por quem se apaixonou. Depois de tantos erros, tantas lágrimas, tantos amores errados, eis que um deles é o motivo do sorriso mais lindo do mundo. Finalmente chegou o cara certo e não era eu. Algum dia, por acaso, fui? O menino sujo e despenteado, o playboy de sorriso arrogante e atitude presunçosa, o vagabundo que toda patricinha quer. Por que, eu me pergunto, Annie não me quis? Transformei-me em cada um dos homens que ela admirava, segui seus passos, comprei as mesmas roupas e adotei as mesmas atitudes... E eis que o cara certo era um sujeito completamente diferente dos outros. Diferente de mim e de tudo o que eu quis ser.
Ah! Como eu queria ser a razão daquele brilho intenso em seu olhar! Como eu queria ser o alvo de seu sorriso e o homem a quem ela entregou seu coração! Por mais afundado em minha própria dor que eu estivesse, nunca poderia dizer que aquele ser angelical vestido de branco entrando na igreja não estava feliz. Mais do que feliz, Annie estava realizada.
Não. Não gosto do cara ou apoio esse disparate. Eu a amo! Como poderia sorrir quando a mulher que eu amo se casa com outro? Simples. Eu sorri por ela, por que é impossível para mim não fazer o que ela quer. Não sei se a convenci, mas foi o que eu tentei fazer. Por um instante. Sorri quando vi a felicidade em seus olhos. Mas Annie é assim... Todo mundo sorri só de vê-la fazendo o mesmo.
 - Cuide bem dela. – “Cuide bem da minha vida” eu queria dizer.
É bem verdade que eu tinha meu lugar de honra como padrinho, mas eu não queria ficar ali, plantado, como um mero coadjuvante que é obrigado a fingir que está tudo bem em não ser o mocinho. Minha vontade era ser o principal, o protagonista e não só o secundário que torce pela morte do mocinho, mas não faz nada por isso. Mais para público que para ator. Patético.
O problema é que eu sou um vagabundo qualquer e não tomo vergonha na cara. Sempre fui assim e não será agora que mudarei. Continuarei assistindo meu filme preferido e até participarei quando necessário. Enxugarei suas lágrimas e escutarei o que tiver a dizer. Eu estarei aqui por Annie mais do que por mim. Na patética esperança de, algum dia, ser o cara certo e não só O amigo.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Espelho, espelho que sou eu

Disseram que tudo iria dar certo. Disseram também eu seria capaz de dominar o mundo se soubesse usar minha própria beleza. Ah, merda, disseram que eu iria governar um dia e me chamaram de princesa.

Então, eu me pergunto, por que demônios bato a cara na porcaria de uma parede invisível sempre que vou me aproximar de quem quer que seja que apareça na minha frente? Por que fiquei presa nesse quarto? Sem saída, eu passo os dias a ter vislumbres de diferentes pessoas que analisam seu próprio rosto procurando por algum defeito.

Mas só uma delas escuta meus gritos desesperados. Só uma delas me vê presa nesse mundo que é só um reflexo do que há lá fora.

E ela sorri.

Sorri porque tomou o meu lugar como rainha, sorri porque sua vaidade não permite ter concorrentes, sorri porque está feliz por ter me trancado num espelho.

E ela adora me ouvir dizer que ela é a mais bela de todas. É como se ela tivesse esperado a sua vida inteira para ouvir esse falso elogio.

Nos livros, eu fico deitada num caixão de vidro esperando um príncipe me salvar. Aqui, eu fico presa, esperando o mundo acabar.
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