segunda-feira, 30 de março de 2015

Desculpa

Desculpa. É que eu também tenho algumas crises sem sentido. Na maior parte do tempo eu não ligo, mas, às vezes, eu sinto dores por baixo dessa máscara de calmaria. Desculpa, mas eu não sou aquela pessoa revestida de ferro por quem você se apaixonou. Não consigo ser mais tão invulnerável.  Tem muita fibra aqui dentro, é verdade, mas lágrimas ainda escorrem dos meus olhos e os gritos que os vizinhos escutam, muito provavelmente, são os meus. Eu sei, na maior parte do tempo consigo ser um ser calmo, equilibrado e racional. Mas eu não consigo ser eu mesma sempre.

sábado, 28 de março de 2015

Melhores memórias, piores ressacas

Luzes multicoloridas dançam na frente dos meus olhos quando me viro de lado. A luz do sol machuca minha vista e qualquer movimento parece ser capaz de destruir meu cérebro. Noite passada... Caramba, acho que pedi alguém em casamento. E esqueci as chaves, tivemos que arrombar a porta do meu apartamento. Lembro que você tirou uma foto minha nesse momento, enquanto ria e dizia algo sobre as melhores memórias serem das piores ressacas. Bom... Minha cabeça latejante não concorda. Nem a minha conta bancária zerada. Juro solenemente nunca mais beber em... Dois dias. Depois eu juro de novo. Ou não.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Apenas mais uma

Quão baixo alguém pode chegar? Seria algum tipo de castigo por tudo de mal que já fizera aos outros ou apenas a vida lhe oferecendo mais um infortúnio? Luis Fernando Emediato disse que “podemos ser, às vezes, cruéis, impiedosos e injustos. Nunca imaginamos que um dia o veneno pode voltar-se contra nós." A senhorita Slenski finalmente entendeu o significado da frase. De líder de torcida popular pela maldade, à renegada e desprezada pela escola. Foi assim que a abelha rainha, Brittany, viu seu grande e belo mundo desmoronar quando conheceu o que a vida tem de pior.

Mas estamos nos apressando. Vamos começar pelo início.

Brittany Slenskin tinha 17 anos quando se perdeu. Ou quando roubaram sua própria vida de suas mãos bem cuidadas. Líder de torcida cobiçada por metade da escola, a jovem loira de olhos azuis viu seu pequeno reino escolar ruir quando contraiu AIDS.

É verdade que o vírus que destrói o sistema imunológico é cruel ao levar, aos poucos, toda a vitalidade que emana do rosto do portador, mas os seres humanos conseguem ser piores ainda...

Mesmo que poucas pessoas desconfiassem do ocorrido, notícias ruins movem o mundo. Ainda mais quando se está no colegial. Como centro de todas as atenções, sua sentença foi pior do que o que era comum.

Tudo começou com indiretas e conspirações, eventuais murmúrios a respeito da doença ainda não confirmada. Brit se viu alvo de olhares enojados e não foi sem nenhum tipo de surpresa que percebeu o afastamento dos amigos. Não todos, é verdade, mas nada nunca seria da mesma forma.

Quando, de algum modo desconhecido, os colegas souberam que a doença havia mesmo atacado Brittany, seus amigos - que haviam se transformado em desconhecidos - passaram a ser inimigos. E os inimigos nunca deixariam por menos: se tornaram ainda mais cruéis. Julgamentos de vagabunda, piranha suja e puta foi só o início do tormento. Logo, seu sofrimento deixou de ser apenas psicológico e passou a ser, também, físico.

Quem disse que era melhor ver um amigo se tornar inimigo do que desconhecido não fazia a mínima ideia do que falava. Entrar na sala de aula e ouvir uma “ex-amiga” dizer para tomar água numa garrafinha para não contaminar o bebedouro fez com que algo dentro de si quebrasse. E a cada nova "piada" ela perdia mais um pedaço de si mesma.

“Aguente firme” eles diziam. “Você é maior do que isso, Brit”... Mas ninguém sabia como era sufocante aquela dor. Nenhum deles entendia o que era saber que seu corpo poderia definhar e sua vida se esvair a qualquer momento enquanto se via cada vez mais sozinha. Por mais que tentassem ser cordiais e educados, ninguém – amigo ou não – entendia o que ela sentia.

Nas horas vagas, que eram cada vez mais freqüentes, Brittany pensava no futuro que um dia acreditou que viveria. O fim do ensino médio, a faculdade de moda, seu namoro com Derek viraria noivado e então o casamento... Os filhos que teriam... Quando esses pensamentos lhe ocorriam, ela soltava uma gargalhada amarga. Como se casaria com Derek se ela lhe provoca asco? Ao contar sobre a doença ao namorado, Brittany esperava um abraço. Não precisava de palavras de conforto, mas queria apoio e não um careta de nojo e a acusação de que ela o havia traído.

- Essa história toda de virgindade! – Ele disse. – E eu acreditei! Que nojo de você, Brittany! – Ele saiu da sala antes que ela pudesse sequer explicar que não havia contraído a doença através do sexo.

As provas da verdadeira natureza humana vieram com o tempo. Cada dia mais uma dose agonizante e dolorosa... Cada vez pior... Até chegar o momento em que Brittany não mais suportava e só esperava pela morte de seu corpo. A da alma já viera mais rápido que a doença.

Agressões não só emocionais e psicológicas, mas também físicas. Por um breve momento ela acreditou que esses diversos danos finalmente acabariam com a dor de se ver num corpo sem alma, mas se enganou. Ao invés de virem com a morte, eles só a atrasaram e prolongaram seu sofrimento. Seria justo algo assim? Mesmo que se arrependesse de todos os seus pecados, poderia Deus lhe castigar com tamanho sofrimento? Era certo?

Bastava Brittany entrar no refeitório para que as pessoas se distanciassem e outras saíssem do lugar. Na sala de aula, sua carteira ficava isolada das demais. Mesmo que os professores tentassem contornar a situação e ensinar sobre a doença aos outros alunos, de nada adiantava. Chegou o momento em que Brit desistiu e escolheu ficar mais afastada. 
Mesmo que algumas poucas almas boas tentassem se aproximar, seu coração já estava tão ferido que não permitia. Tinha medo de se quebrar mais um pouco, medo dos danos que poderiam lhe causar. Mesmo acreditando que nada mais poderia piorar, Brittany, de forma nenhuma, queria pagar para ver.

Quanto mais seu corpo ia definhando, mais Brittany sofria. Não por dores ou por danos da doença, mas por solidão. Cada vez menos pessoas iam vê-la e até mesmo a família se sentia deslocada. Seus pais diziam que era por falta de tempo, mas ela sabia que era estranho demais vê-la num estado tão decadente. A visão de pessoas tão fracas e debilitadas mexe com o espírito. Nem mesmo ela suportava se olhar no espelho e se lembrar de quem um dia foi. As olheiras fundas, o rosto magro com grandes sulcos, os cabelos loiros perderam o brilho e os olhos nunca mais expressaram algum tipo de emoção. Nem mesmo chorava. Lágrimas seriam inúteis e ela já não se importava em sentir autopiedade.

Foi numa tarde chuvosa de uma terça-feira, tendo como culpada uma simples gripe que pegou na praia, que seu último suspiro foi ouvido. Nenhuma alameda ou organização não governamental recebeu seu nome. Nada que lhe homenageasse e a fizesse repousar para sempre na memória das pessoas. Nada muito especial e significativo. Brittany apenas se foi. Uma das muitas pessoas que passam por esse mundo e que ficam na mente de poucos por pouco tempo. Mais uma que faz parte da grande maioria que leva sua dor consigo sem comover ninguém além de si mesma. Uma vítima do acaso - ou seria destino? – que recebeu todas as condolências e amores dos hipócritas que foram ver seu jovem corpo no caixão.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Cartas de quem já esteve aqui

Confesso que ainda abro aquela velha caixa de sapatos uma vez por semana. Sento-me na cama e contemplo a superfície amassada do papelão, tentando tomar coragem para jogá-la na lareira e assistir tudo virar fumaça. Mas eu confesso também que nunca consigo.

Acaricio todas as memórias que vivem ali dentro, brincando com os papéis e objetos que insistem em dançar na minha cabeça, por entre meus dedos. Um velho frasco de perfume, algumas fotografias envelhecidas pelo tempo, um marcador de página que tem a forma de um pinheiro... Confesso que ainda não consegui rasgá-lo, mas eu prometi a mim mesma que faria.

O velho diário que virou caderno de rascunhos esconde risadas e melodias que, se eu tivesse ousadia o suficiente, soariam pelos quatro cantos da casa. Embaixo dele, moram os envelopes pardos e papéis de carta decorados com a caligrafia elegante de alguém que praticamente nasceu escrevendo lágrimas nos olhos de quem se julgava incapaz de sofrer. Confesso que leio cada uma delas antes de dormir, pelo menos uma vez por semana. Nada mal, para quem as lia todo dia. Talvez eu consiga jogá-las de vez na lareira. Talvez meu sofrimento queime junto com a tinta da sua caneta.

terça-feira, 24 de março de 2015

Olga

Olga via as pessoas andando pela sua janela e as odiava por isso. Detestava-as com seus passos e sapatos simplesmente por conseguirem fazer o que ela não podia. Elas eram tudo o que ela mesma queria ter sido e, por força do destino, não foi. E nunca mais seria capaz de ser. Era inveja o que corroía seu corpo como se fosse ácido.

Amargurada, Olga se transformou numa mulher de poucos amigos, que colocava a culpa de sua solidão nas pernas inertes, incapazes de lhe sustentar. Passava os dias na cama, praguejando contra o mundo e contra um Deus que lhe impediu de andar.

Até que ele apareceu, para fazer a instalação da TV à cabo, e seu mundo todo girou. As coisas se sucederam rápido demais e, quando se deu conta, queria ser capaz de dar a ele tudo o que tinha. E mais um pouco. Olga não poderia mais andar, mas poderia transformar toda a sua vida para que o homem fosse capaz de amá-la de volta.

E foi o que fez. Se transformou num ser amável e educado, parou de amaldiçoar o mundo inteiro e focou no que lhe importava: conquistá-lo, amá-lo.

Pena que ele era casado.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Ex-robô

Cansei de arrumar meus sentimentos, colocá-los em ordem alfabética. Tudo tão organizado e programado que em algum momento eu deixei de senti-los para começar a pensá-los. É mais fácil assim, é verdade, mas eu cansei de pensar. Imaginar o que pode acontecer, ensaiar cartas frias de despedidas e acordos tácitos sobre como será a vida... Olhando pela janela do robô que eu sempre quis me tornar, cantar alto lá fora é melhor do que só ver o tempo passar. Cansei de fingir não sentir saudade quando o que eu mais quero é que o fim de tarde me traga você.

domingo, 22 de março de 2015

Perdida entre sombras de uma casa vazia

Fantasmas me perseguem
por qualquer lugar em que eu ande,
em qualquer móvel que eu toque.

Quando meus olhos se fecham,
seu rosto sempre é o protagonista
que eu vejo em meus sonhos,
mas, quando acordo,
do outro lado da cama
encontro apenas ausência.

Me encolhi em minha própria sombra,
vaguei pelos buracos da penumbra
me lembrando das marcas dos seus sapatos,
de quando tudo ainda era luz
e eu não sabia o significado
da dor que em ausência se traduz.

sábado, 21 de março de 2015

Tudo o que eu não quero fazer

Não se aproxime de mim. Nem pense em atirar novamente no meu peito, não tente me convencer que de que você merece meu perdão. Foi você quem envenenou o ar que existe entre nós, não se atreva a pegar os meus cacos do chão. Deixe-os aí, caídos, sem precisar depender de mais ninguém.

Não brinque comigo, não corra atrás de mim e nem espere que eu beije suas pegadas de fogo. Você vai olhar para trás e não vai me enxergar. Mesmo que minha cabeça exploda e que meu peito arda como o inferno, eu não pretendo cair outra vez.

Fácil

Foi tão simples te mandar embora e fechar a porta sem olhar pela janela para saber se a chuva estava estragando seu penteado de quem acaba de acordar. Foi tão fácil enfiar na minha cabeça que eu não precisava dos seus olhos nublados passeando pelo meu corpo molhado. Foi tão fácil arrumar outros de você espalhados por aí...

Mas aí você apareceu dizendo que ainda queria a minha amizade. E a minha bênção como madrinha de casamento. Você chegou com uma mulher que mais parece uma menina. Pode não ter sido a intenção, mas meu coração se despedaçou em ciúmes.

E meu ego entendeu tudo como um desafio. Apesar de tudo, eu ainda precisava provar a mim mesma que poderia ser seu mundo. Eu precisava saber que era melhor que ela, que te faria mais feliz por mais tempo.

Mas eu não era. E nem nunca fui. Você merece alguém mais constante que eu, mais pé no chão e menos cabeça nas nuvens. Ela é isso tudo e mais um pouco.

Entretanto, eu ainda quero que a porta se abra e você chegue, reclamando da chuva lá fora. Você vai se casar e, mesmo assim, me tem em suas mãos.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Da janela do quinto andar

Em algum lugar entre o asfalto e as estrelas, em algum mundo entre meus pés e as poças de água, eu te encontrei. Não surgiu de repente. Nem esteve aqui o tempo inteiro. Talvez tenha sido uma mistura das duas coisas, talvez, com o tempo, eu tenha percebido você me olhando da janela do quinto andar.

Sua pele deve ser branca, mas a cor pode ser só o efeito da sua condição de fantasma. Não consigo vê-la direito, mas sei que está ali, olhando para a rua enquanto eu corro pela avenida nem tão movimentada assim.

Seus olhos me acompanham, seus cabelos seguem a direção do vento e as outras pessoas continuam em seu próprio caminho sem ao menos te enxergar. Com o tempo, foi me contando uma história que ninguém seria capaz de entender.  Passou pelos problemas com o peso, pela depressão, falou-me da sua família e da escola, onde ninguém nunca quis te conhecer.

E chegou ao limbo dos suicidas, à parte que ninguém faz questão de saber como aconteceu. Falou sobre a liberdade do voo e sobre a dor excruciante da queda.

Agora, todos os dias, você sorri como se todos os fantasmas sorrissem o tempo inteiro.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Auto conservação

Dizem que somos amigos, que eu deveria protegê-los do mesmo jeito que sou protegida, mas eu quero – e preciso – esmagá-los.  É um dos muitos pré requisitos que eu tenho que cumprir para seguir em frente, para ser aceita, para crescer. E não me arrependo de cumpri-los, não posso me arrepender. Não posso chorar e nem pode doer. Se isso fizer parte do meu aprimoramento como um deles e se for necessário para que eu seja como os heróis que me servem de exemplo, não vejo problema nenhum em seguir as ordens superiores e guiá-los na direção da sua própria morte.

sábado, 14 de março de 2015

Ninguém avisou que tinha que ler em grego

Calma... Respira. Não precisa bater a cabeça na mesa. É só um livro e ele não vai te engolir. Vai acabar com o seu cérebro, na verdade, mas vamos deixar isso para o fim do curso. Leia novamente o parágrafo, a página, o capítulo... Você tem que entender o que esse monte de palavra estranha quer dizer.

Calma. Respira fundo, segura na mão de Deus e vai. A mesma entidade que te ajudou a ler José de Alencar deve te ajudar em Kelsen. Confie no poder da leitura divina. Ainda tem Maquiavel e companhia... Mas relaxe. Uma tortura de cada vez.

Só que não dá certo e Kelsen ainda é uma incógnita em forma de palavras desconhecidas e frases complicadas. É só um livro. Mas é só um livro que você não consegue ler! Talvez seja melhor pular para algum livro mais fácil. Eles não teriam indicado Pedro Bandeira?

Não. Ronald Dworkin, então. Quem sabe dá certo? Ele pode até servir como uma preparação para o Kelsen. Mãos à obra.

...

Quem foi que saiu do terceiro ano do ensino médio achando que sabia ler mesmo? Pois é. Também não sei. Você acabou de descobrir que é um analfabeto que escolheu um curso que é dado em grego. Com alguns toques de latim e, se bobear, hebraico e mandarim.

Depois de Machado de Assis, José de Alencar e companhia, eis que surge um escritor mais maluco. As palavras são em português (a maior parte, pelo menos), mas o sentido que elas fazem não faz sentido algum.

domingo, 8 de março de 2015

Nathália

Suas pupilas ficaram maiores quando ela viu o rubi cravejado por diamantes dentro do cofre. Em menos de um segundo, todo o esforço que teve para pesquisar, treinar e desenhar a planta da casa em sua memória havia valido à pena.

Pegou a joia como se fosse feita de pétalas de dente de leão e colocou-a dentro da bolsa preta, cuidadosamente. Fechou o cofre e arrumou as coisas para que nada ficasse fora do lugar. Suspirou, satisfeita, e deu o trabalho por encerrado.

Seu coração parou quando luzes vermelhas começaram a piscar e um alarme sonoro ecoou em seus ouvidos. Estacou, sem saber o que fazer. Havia verificado todos os alarmes, todas as entradas e saídas. Tudo estava desativado e... Bom, pelo visto, ela havia deixado alguma coisa escapar.

- Corta! - As luzes do estúdio se acenderam e seus olhos fitaram o diretor. - Maravilhoso! – Nathália agradeceu o elogio, soltou os cabelos ruivos e foi andando até o camarim. Mais um dia de trabalho bem feito e mais uma cena gravada para o filme mais esperado do ano.

Enquanto trocava o figurino preto pela saia verde e pela camisa branca, sorriu. Estava um passo mais perto do Oscar, afinal.

sábado, 7 de março de 2015

Crônica - Ciclo vicioso

“Indignados. Esse é o retrato da população brasileira atualmente.” Essa frase não é minha, você já deve saber, afinal, viu a cobertura de diversas manifestações pela TV. Em tempo real, ao vivo e em cores. Com o traseiro em cima do confortável sofá que sua mãe pagou em vinte e quatro prestações. Foi para o facebook esbravejar xingamentos a respeito de um projeto de lei que falaram ser ruim e por vinte centavos que você nem vai usar, afinal, ganhou um carro do papai. Vinte centavos que viraram trinta e cinco.

Cadê o escarcéu todo? Do que adiantou ficar no sofá assistindo a tropa de choque espirrar pimenta em quem segurava uma rosa? São todos uns inúteis, não? Quebraram a cidade inteira pra nada. Seria melhor ter feito como você, vendo tudo passar na TV. Não é da sua conta mesmo.

Mas o preço da gasolina que vai todo para o bolso da Dilma te interessa. Afinal, a Petrobrás é do governo e o governo é o presidente. Sabe que o petróleo caiu de preço pelo mundo inteiro e que o dinheiro da gasolina tem o objetivo de sustentar uma Petrobrás quase falida? E você sabe que não é a presidente a diretora da S/A? O que é uma S/A, por sinal?

Mas isso não tem nada a ver com quem é ou não culpado, não é? Você quer transparência e justiça. Quer que o seu bolso também fique cheio, e não só os dos deputados.  Quer ter mais dinheiro que o seu vizinho e quer consegui-lo com o aumento do bolsa família. Já te ensinaram a trabalhar?

Eu sei, eu sei, você quer o bem comum, quer educação e saúde.  E também quer que toda a população tenha direitos iguais. Quer justiça, quer poder ir à parada gay na avenida paulista. Você quer não ser julgado pela sua opção sexual e nem pela sua cor, mas xinga a menina do vestido curto de puta e no terreiro do lado da sua casa só tem macumbeiro. Aliás... O que é macumba mesmo? No seu trabalho sobre política brasileira não tinha isso. Só falava do impeachment do Collor e da morte de Getúlio Vargas.

Bons tempos aqueles, não? O Brasil vivia num governo limpo, honesto e justo. O mesmo por 40, 50 anos. O nome disso é ditadura, por sinal. Onde os cidadãos são privados de exercer a cidadania. Pessoas morreram para você poder anular seu voto hoje, meu amigo.
É, meu querido, é fácil brincar de ser ativista apresentando um trabalho de uma escola que nunca foi um direito seu de verdade.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Sem saída

É uma daquelas coisas sem explicação, sem culpado algum além do destino e sua mania irritante de brincar com as pessoas. Ou do cupido. É quando simplesmente acontece e pronto. Mais nada. É um fato e o melhor que todos fazem é engolir. E fim. Sem saída. Cabe a nós esquecer as cartas que provam que um dia nos amamos, jogar fora os presentes de dia dos namorados, aniversários e tentar apagar os últimos meses das nossas memórias. Nossa função é seguir em frente quando a vontade, mesmo que momentânea, é a de matar um ao outro afogado na banheira.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Pela última vez

Clarice abriu os olhos e viu toda a sua vida passar, como num filme de baixo orçamento e muito mau gosto. A tela da sua mente era velha e gasta, meio cinzenta e meio sépia. Talvez pelo seu vício em filmes antigos, talvez pelo pavor que nublava seus olhos claros e vidrados.

Enquanto sua respiração ofegante embaçava o vidro do espelho quebrado, o homem encarava o medo em seus olhar como se estivesse em êxtase. E, se formos parar para analisar a personalidade e o histórico do assassino, ele realmente estava. A raiva que habitava seu olhar era infinitas vezes pior do que a obsessão que ela sempre via quando ele entrava de madrugada em seu quarto.

Os olhos azuis apavorados encararam o vazio enquanto a faca cega feria a frágil pele do seu rosto. É verdade que já quis morrer, mas não daquele jeito, não pelas mãos de outra pessoa além de si mesma.

Aquele homem havia surgido há dois anos, para ser seu pior pesadelo. Sua mãe o amava desde a primeira vez que haviam se visto e ele a tocava com suas mãos imundas desde dois meses depois disso. Era errado, ambos sabiam. Mas a menina não era capaz de dizer nada por se sentir culpada e amedrontada. Ele poderia matá-la se ela se atrevesse a abrir o bico. Ou pior, poderia matar alguém que ela amava.

Foi por isso que decidiu fugir. Por não conseguir mais aguentar viver com aquele monstro que era obrigada a chamar de pai. Não suportava mais o sofrimento que era ficar em sua própria casa e sumir dali era a decisão mais sensata a se tomar.

Pegou um ônibus velho, deixou um bilhete para a mãe e seu urso de pelúcia favorito para o irmão mais novo. Com toda a coragem que restou em seu corpo, se embrenhou pelos caminhos escuros da madrugada até a rodoviária e, o que viesse depois disso, ela resolveria mais tarde.

Dois dias se passaram e Clarice estava sentada numa pequena lanchonete de beira de estrada. O lugar era feito de madeira escura e velha e as lâmpadas mal funcionavam, deixando o luar envolvê-la numa penumbra macabra. Tentaria pegar uma carona até a cidade mais próxima e, de lá, um ônibus para a capital. Só então se sentiria livre de verdade.

Mas suas esperanças foram destruídas quando a figura do padrasto surgiu na entrada da lanchonete. Parecia que as influências do seu carrasco iam mais longe do que ela imaginava. De alguma forma, ele conseguiu encontrá-la e a raiva que via em seus olhos conseguia ser mais forte que a obsessão que lhe acompanhava até seu quarto de madrugada.

Ele pegou-a pelo pulso e levou-a até o banheiro. Não disse nada, nenhuma palavra saiu dos lábios secos. Ele apenas pegou a adaga que estava em seu bolso, cortou a frágil pele do seu pescoço, abaixou suas calças e a fez dele, ferida, destruída, uma última vez.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...