sábado, 28 de fevereiro de 2015

200 palavras - Série Elas - Marieta

O enfeite de cabelo caiu, mas seus olhos continuaram fixos na lente. Marieta precisava ter toda a atenção voltada para a sua missão: seduzir os clientes. Sua imagem era o que venderia a linha de lingerie.
Com seus olhos azuis escuros, lábios pintados de um vermelho meio alaranjado e 57 quilos em 1,75 de altura, havia conquistado o amor de fotógrafos, inveja de mulheres e desejo de homens ao redor do mundo. Já fora fotografada de todos os modos possíveis: vestida, nua, com peruca, sem qualquer tipo de adorno... Se bobear, até do lado avesso.
Agora, aos 35 anos, era a sua despedida dos flashes. A última sessão de fotos antes de Marieta conseguir, por fim, usufruir de todo o dinheiro que ganhou desde os dezessete anos de idade.
Caribe, Paris, Noruega, Suécia, Finlândia... Conheceria o mundo, voaria, navegaria e correria por todos os aeroportos, mares e estradas ao redor do globo. Viveria. Feliz, contente e, acima de tudo, livre.
Precisava comprar as passagens logo depois de mostrar o dedo do meio p’ro mundo. Mas, antes de tudo, precisava mesmo era se levantar da cama e ir para a escola, porque ela nem era tão bonita assim para ser modelo.
Bianca Pontes


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Se já esteve aqui

Se já esteve aqui, sabe como sou, conhece minhas ironias e duplicidades. Se já esteve aqui, entende que tenho alguns chiliques e manias, conhece meus sonhos, anseios, meu peito. Se já me viu passar por aí, sabe que ando meio correndo, sem parar para descansar. Sabe que penso enquanto corro e que me desligo das diversas vozes na minha mente apenas para conseguir me concentrar.

Então, seja atencioso, educado e paciente. Seja duro quando for preciso e maleável se assim parecer melhor. Seja compreensivo, se já me conhece. E seja verdadeiro, eu não preciso que mais ninguém minta pra mim.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Foi me perdendo que eu me encontrei

Sei lá. Acho que me perdi no meio de violões, livros, canetas, lapiseiras e cadernos. Acho que me encontrei num show qualquer e me apaixonei em alguma rede social desconhecida. Talvez eu tenha simplesmente inventado um novo jeito de ver o mundo enquanto misturava ficção, direito, música, poesia e palestras; real e virtual – que não deixa de ser real. Me perdi entre tantas páginas rasgadas, frases rabiscadas e músicas inacabadas. Com passos tortos e trôpegos, voz desafinada e mente meio desencontrada, acho que foi me perdendo milhares de vezes que eu finalmente me encontrei numa dessas esquinas de algum reflexo.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Sintonia

Caminha lentamente pelo meu torso
Passeia por minhas marcas de nascença
Examina as pintas do meu dorso
Contorna com a língua minhas fendas

Percorre com carinho todos os meus traços
Faz eu me derreter em seus abraços
Sente o gosto do meu fôlego
Compartilha do meu timbre rouco

Me confunde com tantas sensações
Explora com a boca meu umbigo
Se perde em minhas cavernas

Esvazia meus pulmões
Transforma voz em gemido
Se encontra entre minhas pernas.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Pedido desesperado

Onde demônios foi parar aquele maldito pó de pirimpimpim que era capaz de fazer tudo? E o de fada? Máquina de teletransporte, chá de sumiço, Kurt Evans? Nada? Damn. Eu deveria ter deixado algum plano B rascunhado para o caso de você nunca mais voltar.

Estrelas cadentes são reais mesmo? Talvez, se eu tentar... Quem sabe? Alguma mandinga, macumba, simpatia... Alguma vela pra algum santo qualquer, será?

Meu deus. Acho que me desesperei um pouco. Pensei que pudesse viver sem você, mas eu sempre penso errado demais. E sempre ponho os carros na frente dos bois, meto os pés pelas mãos, penso depois de gritar. Admito: eu não deveria ter te chutado da minha vida tão rápido, mas você disse que sempre voltaria por mim, lembra? Onde eu estivesse. Você prometeu, lembra?

Vamos, cumpra a promessa, por favor. Volte logo para casa e esqueça que eu falei todas aquelas besteiras sobre não te amar.  Eu não só te amo, como preciso de você para me sentir novamente eu, entende? É melhor que entenda mesmo porque eu não consigo me entender. Só sei que quero te ver abrindo a porta da minha casa e me obrigando a te aturar para sempre.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Se puder, sem pudor

Eu quero que venha usando renda preta, salto alto e cinta-liga. Pode trazer as algemas de veludo que eu arrumo o chicote. E o lubrificante. Batom vermelho, olhos marcados, cabelo preso para que eu possa soltar e puxar. Também use aquele perfume que eu adoro, ele me deixa louco quando cheiro seu pescoço.

Eu quero que venha por inteiro, pronta para dominar, ansiando por ser dominada. E pode vir sem medo, sem nada além de você mesma. Venha com tudo o que tem e deixe tudo o que é desnecessário na sua própria casa. E venha, se puder, sem pudor.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Forjeador

Era uma vez um homem solitário, melancólico, que vagava pelo mundo procurando por algo que o completasse, que trouxesse sentido à sua vida e que o fizesse se sentir humano depois de... Quanto tempo mesmo? Não sei. Já faz tanto tempo que eu nem me lembro mais. Mas enfim...

Era uma vez um homem sem alma.

Seu nome se perdeu – ou se misturou – com mais milhares de outros. Alguns parecidos, com a mesma letra inicial. Outros eram tão opostos como água e fogo. Alguns se anulavam, outros se completavam. Alguns eram tão marcantes que faziam com que ele se esquecesse do último. Mas nenhum deles foi capaz de fazê-lo se lembrar do primeiro. E, talvez, único.

Seu sobrenome nem merece tanta atenção. Acredito – e ele também – que nunca chegou a ter algum. Ou, se chegou, surgiu e se desintegrou tão rapidamente que até mesmo a mais remota lembrança é inexistente.

Seu reflexo também é desconhecido. Talvez ele nem mesmo saiba o que é um espelho. Sua própria figura – interna e externa – é tão misteriosa como a mais misteriosa e desconhecida de todas as coisas. Não como um vampiro – vampiros sabem o que são -, mas como... Como algo desconhecido até pela mais sábia das criaturas. E talvez, acredito eu, ele nem mesmo tenha uma imagem de si mesmo.

Nosso homem – ou não será mulher? - sem nome, sobrenome ou imagem definida, está sentado numa imensa mesa de uma gigantesca sala de jantar. Seu alimento, caçado há apenas alguns minutos, repousa na louça antiga que ele resolveu colecionar. É um hobbie seu que foi de um dos muitos nomes que conseguiu ao longo da sua existência. Ou será que ele, em algum momento, existiu?

O ser desprovido também de gênero ou sexo ainda tem as mãos sujas pelo líquido transparente que escorreu dos olhos da garota que encontrou há pouco. Ao entrar em contato com o âmago do ser que agora lhe serve de alimento, o homem – ou mulher – sem alma, ficou sujo por essa substância que gosta de chamar de sangue. Não um sangue comum, é claro, mas uma espécie rara, que só os raros conseguem arrancar. Alguns chamariam de lágrimas, mas ele não faz as pessoas chorarem. Ele faz almas sangrarem. Mais do que isso, nosso ser sem alma anda pelo mundo mutilando espíritos completos, transformando-os em cascas tão vazias quanto ele mesmo.

Ele se alimenta desse sangue, desse centro de poder que existe dentro de cada um de nós. A pequena esfera acinzentada e brilhante é o que repousa na porcelana antiga que lhe serve de prato. Ele acredita que, servindo-se de seres humanos, poderá se transformar novamente em um. Talvez ele queira para si sua alma de volta, talvez ele se contente apenas com uma substituta, mas uma das poucas certezas que eu tenho é a de que ele deseja se encontrar. Mais do que isso, ele precisa preencher o vazio que alguém, um dia, deixou ali, dentro de seu peito.

“Alguém”... Ironicamente, ele se lembra dos nomes das pessoas que foram capazes de fazê-lo se esquecer de si mesmo. Mas os nomes não são importantes para a nossa história. O que os donos desses nomes representam é que nos interessa.

Era uma vez uma criança que, ainda no ventre da mãe, soube o que é sofrer. Junto a sua progenitora, chorou pelas sarjetas e becos escuros, frios, imundos. Ligados um ao outro, conheceram o inferno da fome. Era apenas um feto que não fazia ideia de que seria um grande erro nascer. Na sua certidão de nascimento, na área destinada ao seu nome, constava apenas uma palavra. Palavra essa que, como eu disse antes, foi esquecida.

Era uma vez uma criança que não foi aceita pelo próprio pai. Ela aprendeu desde cedo a se esconder no escuro, a se encolher embaixo de marquises, a se transformar em sombra em plena luz do dia. Aprendeu que não se pode confiar em ninguém, nem mesmo em seu próprio reflexo.

A criança nômade, que buscava os lugares mais quentes e com mais alimentos, sabia quem era e conhecia seu lugar, apesar de tudo. Tinha princípios que seguia à risca, regras próprias que conhecia e poderia recitar na ponta da língua. Mas ainda era uma criança. E, como tal, ainda era capaz de ter esperança e de acreditar.

Tanto que chegou a acreditar que tinha direito à felicidade quando chegaram perto e demonstraram solidariedade. Pela primeira vez em toda a vida, sentiu o cheiro de roupa limpa, água quente banhando seu corpo e a maciez de dormir numa cama com colchão macio. Na verdade, nunca havia dormido numa cama e achou que flutuava por entre as nuvens quando soube como era a sensação de lençóis limpos roçando em sua pele.

O casal bem vestido levara-o para sua própria casa e chegou a chamá-lo de filho. Por algum tempo, acreditou mesmo que tinha uma família. Mas foi só por um curto intervalo de tempo. Intervalo esse que durou até que as pessoas, que estava se acostumando a chamar de pai e mãe, fossem enterrados no quintal da mansão para onde fora levado.

Haviam sim formado uma família. Mas a terceira parte dela não era importante para os outros parentes. Talvez fosse culpa da sua cor, ou dos maus hábitos que tinha à mesa. Ou então, quem sabe, não fosse seu cabelo que não agradava?

De sarjeta a travesseiros de pena. De banquetes à comida de abrigos para órfãos abandonados pelo mundo. Confuso, perdido, mais uma vez sozinho.

Era uma vez um adolescente que se esqueceu de quem era. Desde então, nosso protagonista aprendeu a ser vários em um só. Se transformou em diferentes pessoas para sobreviver em diferentes lugares, convivendo com diferentes personalidades e costumes. Se dividiu em dois, quatro, mil. Fez o trabalho de todos, roubou de muitos e se perdeu como a grande parte do resto do mundo. Foi levado pela maré do submundo, dormiu em areia movediça e, quando se deu conta, já estava roubando a alma de pessoas para conseguir achar a sua própria essência corrompida e amassada.

O que nosso protagonista é incapaz de perceber é que as pessoas que deitam em seu prato de porcelana antiga não são mais pessoas depois que são engolidas por seres como ele. Ficam perdidas, confusas, sozinhas. Esquecem-se de quem são e vagam pelos becos escuros e sujos, procurando o próprio reflexo inexistente.

Muitas vezes são confundidas com mendigos, drogados, bandidos e foragidos. São comparados a nada e viram pó com mais frequência do que nosso protagonista é capaz de imaginar. Mas a culpa, talvez, não seja só dele. Nosso protagonista sem rosto, nome ou sobrenome, só está fazendo o que seu instinto manda. Só está querendo salvar a si mesmo ao invés de se afundar mais em suas próprias ruínas.

Nosso protagonista não vive. Só sobrevive se alimentando de almas como ele. Até quando? Não sei. Ninguém sabe ao certo. O que eu sei é que ele, muito provavelmente, não vai parar de se procurar em cada par de olhos diferentes que encontrar pela rua.

E era uma vez uma multidão de pessoas solitárias, melancólicas, que vagam pelo mundo procurando algo que as complete, que traga sentido às suas milhares de vidas e que as faça se sentirem humanas depois de… Não sei. Já faz tanto tempo que eu me esqueci. Enfim…


Era uma vez uma multidão de pessoas sem alma.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Por toda a eternidade

Marina desistiu de aguentar os infortúnios e tristezas que deixam seu coração quebrado, de se cortar para ver se a dor do peito se transmite para os pulsos. Desistiu de lutar contra quem é mais forte e deixou as ondas do mar lhe levarem para passear pelas profundezas aquáticas por toda a eternidade.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Poesias - Aurora Boreal

Veio de repente
De noite
Na hora mais escura da madrugada

Veio silenciosa
Ligeira
Quando meus olhos mais insistiam em se fechar

Forte,
Me fez fraca
Imbatível,
Me fez refém do desconhecido.

Espalhou suas cores pelo céu negro
E trouxe sorrisos para rostos tristes,
Esperança às almas vazias
Deu um pouco de calor ao coração frio.

Veio de repente
Silenciosa

Preenchendo tudo que era vazio.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Hábitos estranhos

Toda noite eu apalpo o lado vazio da cama, imaginando te encontrar. Meus braços se agarram ao outro travesseiro e eu me encolho, com frio. Detesto admitir, mas sinto falta do seu calor.

E eu ainda coloco duas canecas de café em cima da mesa de dois lugares. Antes de tomar o primeiro gole, acordar de vez e me dar conta de que a outra cadeira vai continuar vaga para sempre. “O seu para sempre vai durar apenas algum tempo”, me dizem, mas aquele romance idiota continua insistindo em dizer que alguns infinitos são maiores que outros. Dane-se toda a baboseira adolescente. O meu sofrimento e eterno, de qualquer maneira.

Eu também tenho a mania de ficar mais atenta sempre que escuto seu nome e pergunto aos nossos amigos, como quem não quer nada, o que você faz desde que me deixou. São coisas estranhas que eu me pego fazendo. Mas é que eu ainda não me curei totalmente da minha ressaca de você.


De todos os hábitos que não perdi, guardo o mais deprimente para o final da tarde. Toco suas músicas preferidas todos os dias, mas elas nunca serão capazes de me tocar do mesmo jeito que você.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Crônicas da faculdade - Só mais uma coisa não explicada

Um dia sem aula. E na sexta-feira! Poderia ter algo melhor para um estudante do primeiro período? Com a sexta livre, você teria tempo de sobra para as festas, cinema, bar e deus sabe-se lá mais o quê calouros gostam de fazer em seu tempo livre.

O problema é que nada é perfeito. E a merda começa quando você vê uma matéria a menos no quadro de horários. Mas... Como assim? Então você pega o comprovante de matrícula pela décima oitava vez e confere se tem mesmo sete disciplinas. E tem. Por que diabos pensou que seria diferente? Na ânsia pela faculdade, você leu aquele maldito papel umas quinhentas vezes por semana e decorou cada linha. Certa de que sabe contar, afinal, passou os últimos catorze anos da sua vida aprendendo a sequência numérica do um ao nove, conclui que o erro é da instituição. Incompetentes!

Então lá vai você até a secretaria/central-do-aluno/inferno. É claro que, no primeiro período, a coisa mais surreal e inebriante que existe é pegar uma senha, sentar numa das cadeiras acolchoadas e esperar uma vida inteira para ser atendido. Nos períodos seguintes você percebe que era idiota e não sabia, mas ali, naquele momento, você é a pessoa mais feliz e a aluna mais aplicada do mundo simplesmente por fazer papel de idiota. Na verdade, ao longo do curso inteiro, a única coisa que você faz direito é papel de idiota. Mas isso não vem ao caso agora.

- Boa noite.

- Boa noite. - Um sorriso completamente retardado acompanha o rosto de um retardado, certo? E adivinha quem é o retardado. Sim. Você. Parabéns pelo auto conhecimento. E, um conselho de quem já foi (talvez ainda seja) uma retardada: aceita que dói menos.

- Em que posso ajudar?

- Ah sim! É que... - Abre a bolsa/mochila/coisa-que-guarda-coisas-inúteis, tira um mundo de papéis, comprovantes, quadro de horários, planos de aula, calendários e tudo mais. - Aqui diz que eu tenho sete disciplinas. - O "aqui" tem que ser o maior contrato de matrícula do mundo e a atendente, pacientemente ou não, espera que você encontre em que página está o negócio. - E aqui... - Mais uma pausa. Onde enfiou o maldito quadro de horários? Não acredita que colocou de novo na bolsa! Um sorriso amarelo, o barulho do zíper se abrindo (novamente), mais papéis remexidos e... Voilá! - Só tem aulas para seis das matérias.

A atendente permanece calada. Você também. Ela te olha e você acha aquele momento, no mínimo, estranho.

- Você quer mudar alguma matéria? - Ela, finalmente, fala algo. E você, infelizmente, acha que ela enlouqueceu. Ou que é incompetente por não entender sua dúvida idiota.

- Mudar? Não! É que falta uma matéria. Aí eu queria saber se o horário está errado ou se cancelaram a disciplina ou...

- Ah! Não, meu amor. Não é nada disso. - A mulher ri e você tenta acompanhar, mas não entende a piada. - É que a matéria que “falta”, metodologia científica, é virtual.

- Ah... - Você não engana ninguém com essa expressão completamente perdida. Muito menos a atendente.

- O material é postado no portal e você vem à faculdade apenas para fazer as provas.

- Aah... Sim. - Começa a se levantar, mas outras dúvidas surgem. - E onde são essas provas?

- Na sua sala. No horário da aula que é vaga.

- E quando são?

- Tudo está no portal, no plano de ensino que seu professor postou. Boa noite. - Bela dispensa você levou, ãhn?

- Sim... Obrigada.

- Por nada.

“Por nada mesmo”, você, muito provavelmente, pensou.

Vamos, criatura, admita que você entendeu nada do que foi “explicado” e que só saiu daquele lugar para evitar mais constrangimento. Como entrar no portal é a incógnita do ano e você nem fez questão de perguntar. O jeito é enfrentar o problema quando ele chegar, erguer a cabeça e andar, afinal, a pose de "dona do pedaço" deve continuar. Você não entende nada de nada, mas vai continuar fingindo entender porque... Bem, porque sim.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Mesmas conclusões

A confusão toda começou quando ele me ligou e a primeira coisa que disse ao ouvir minha voz foi: “Estou amando”. Franzi as sobrancelhas e pensei: “Mas... E?” Só depois eu parei para refletir sobre o assunto. Ele estava amando. Não apaixonado ou encantado. Amando.

Isso sim era algo sobre o qual teríamos que pensar e discutir no único lugar onde conversa filosófica não parece filosofia barata de bar: juntamos todos os amigos de sempre e fomos para o bar.

Entre goles de cerveja e torpes flertes (de apenas um de nós) com a mesa ao lado, eis que sai o seguinte comentário:

- Então você finalmente conseguiu se enforcar, Oswaldo.

Os outros riram, mas eu me peguei pensando: Não seria o amor uma forma de suicídio? Não seria esse maldito belo sentimento um jeito insano de buscar em outra pessoa a sua própria ruína?

- Talvez... - Oswaldo respondeu a pergunta de Murilo. - Mas agora eu sei como é. Entendo o que tantos poetas, psicanalistas e filósofos anseiam por explicar.

- E consegue explicar? - Luiz, o mais velho e único casado dentre nós, perguntou.

- Não... - Os olhos de Oswaldo pareciam perdidos, deslocados, assustados. Acredito que eles refletiam, naquele momento, seu coração meio distante do mundo real e de qualquer pensamento racional.

Luiz sorriu do jeito como sempre sorria quando estava mais seguro de si do que nunca, o que acontecia com muita frequência, por sinal. Eram claros seus pensamentos naquele momento. Então era mesmo verdade... Oswaldo estava amando. Não apaixonado ou encantado. Amando.

Mas o que, perguntei em certo momento de embriaguez, seria o amor?

Todos os cinco me olharam com cara de completos panacas. A resposta era cristalina: ninguém sabia.

- Algo bom. - Luiz, o mais romântico, disse. - Que faz bem à alma. Algo que nos completa.

- Apenas desejo de nos sentirmos completos. - Otávio era o mais incrédulo de todos. Nunca acreditava totalmente em nada.

- Perigoso. O amor é perigoso. - Murilo parou de flertar com a mulher da outra mesa e voltou sua atenção ao copo de cerveja e aos próprios pensamentos embriagados. - Ele te deixa...

- Perdido. - Oswaldo conseguiu a atenção dos cinco. - Amedrontado e sem saber que rumo tomar.

- Eu acredito... - Comecei, mas já havia visto a expressão deles. - É sério...

- Sério... - Murilo disse. - Lá vem ele...

Eu não poderia discordar quando era verdade que sempre me empolgava quando se tratava de uma discussão que ia para o lado filosófico... Culpa da faculdade de filosofia, oras. E da cerveja, claro.

- Tanto faz. - Eu disse, já me irritando. - Eu acredito que o amor seja algo bom e ruim. Depende do ponto de vista.

- Faz sentido... - Luiz disse. - Se for correspondido é bom.

- Também. Mas o que eu quis dizer foi: - Continuei. - O amor é ruim no sentido de dependência. Depender de outra pessoa para sobreviver... Da felicidade do outro para ser feliz... - Eles ficaram pensativos e então, aos poucos, foram concordando do jeito que os bêbados concordam com outros bêbados. - E é bom quando é correspondido, é claro, mas, mais do que isso, ser amado é bom. O amor te deixa mais feliz... Encontrar o amor em outra pessoa é como se pudéssemos, finalmente, nos sentir completos e não só uma metade. Se encontrar no outro é algo que muda completamente a nossa concepção de realidade. O amor faz com que nossos próprios defeitos sejam superados e os defeitos dos outros, aliados aos nossos, se transformem em qualidade.

Alguns fizeram mais comentários e, por fim, chegamos à mesma conclusão de sempre: Tudo depende do ponto de vista. Oswaldo, ao ver o lado bom disso, pareceu mais otimista, mas ainda meio perdidamente apaixonado.

A questão que ficou no final é que nada do que discutimos explicou o que é o amor. Cada um foi para sua casa. Do mesmo modo de sempre, como sempre vem acontecido nos últimos quatro anos. Mas, naquele dia, todos tinham algo para brincar em sua mente a noite toda. Tirar a próprias conclusões ou ficarem com mais dúvidas ainda.

E o amor, acredito eu, é isso. Algo em que, quanto mais pensamos, mais inexplicável se torna. E quanto mais tentamos, menos conseguimos fugir dele.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Brasileiro

Acho que vou dormir por mais dois meses. Sabem como é, descansar um pouco depois das festas de fim de ano. Dezembro em clima de comemoração me cansou. Preciso de tempo pra colocar meu relógio biológico em dia.

Sem falar no carnaval. Janeiro é muito pouco para eu conseguir repor as energias para aproveitar o feriado. Vou pegar o início do segundo mês também. Depois, é só deitar no sofá e ver as gostosas peladas na TV que eu consigo descansar legal pelo resto do mês.
De qualquer forma, eu sou brasileiro. E o ano só começa quando acaba fevereiro.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Água

Ao invés de ficar em casa, se preocupando com o que as pessoas fazem e falando mal da vida alheia, faça um favor a si mesma: se joga, gata. Cuide do próprio rabo, encha-o de cachaça. Vem comigo beber da água que passarinho não bebe e onde peixe não nada. Vem logo pro bar que é mais útil que fofocar.
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