sábado, 31 de janeiro de 2015

O outono que nunca vivemos

Guardaríamos alguns enfeites de lembrança. Uma réplica do meu buquê e a flor da sua lapela dentro de um livro, como marcador de página. Ficaríamos embaixo das cobertas nas tardes de domingo e ouviríamos antigas canções nas noites de sábado. No grande dia, nossas lágrimas se misturariam com as folhas secas que cairiam das árvores no nosso mais doce outono.
Teríamos quatro filhos e dois cachorros que correriam pelo quintal da nossa casa. Nos finais de semana, visitaríamos nossos familiares e tiraríamos as noites de sexta para um encontro romântico. Seria assim que reacenderíamos nossa paixão.
Sonhei com a vida perfeita que teríamos. Perdi a conta de quantas vezes desenhei e redesenhei a planta da nossa casa, meu vestido de noiva, o rosto dos nossos filhos. Seriam lindos, teriam meus olhos e seus cabelos cacheados. Seriam nossos tesouros humanos, o fruto do nosso amor, por mais meloso que isso possa parecer.
E envelheceríamos juntos. Veríamos os pés de galinha um do outro surgirem aos poucos, os fios brancos da sua barba e a minha necessidade de cortar e pintar o cabelo. Viveríamos tudo isso e mais um pouco. Se você não fosse um ator de hollywood que nem me conhece.
Bianca Pontes

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Sem olhar para trás

Perdoe o que der e esqueça o que não tem como perdoar, não se cubra de arrependimentos, não fique parado no tempo examinando os erros que poderia ter evitado caso estivesse mais atento ou menos apressado. E não olhe para trás, não faça do passado um manual para indicar qual será o seu próximo passo.
Bianca Pontes

26 de janeiro do 2015

domingo, 25 de janeiro de 2015

As várias faces de uma mesma arte

Sonhador, andarilho, floricultor, escultor, curandeiro, bruxo, músico, compositor, ator, diretor, cineasta, costureiro de frases sentimentais e perversas. Artista de circo, mágico, mago e domador de leões impressos.
Advogado, muitas vezes do diabo. Julgador das causas impossíveis, aliado dos motivos perversos, oftalmologista da alma, cirurgião do que guarda o coração. Ladrão de sonhos, fornecedor de divagações e mediador de paixões.
Rei, ditador, humanitário, soldado. Defensor dos fortes e opressores, opressor dos fracos e oprimidos, protetor dos mais pobres. Fazendeiro, criador de palavras, agricultor de olhos.
Cronista, cartunista, romancista, poeta.
No fim, no início e, sobretudo, no âmago do seu ser: escritor.


Bianca Pontes

sábado, 24 de janeiro de 2015

Obsessão

A sala por trás do espelho estava lotada de pessoas. Entre elas, o promotor de justiça Lucius Abdala e sua filha, Anne Marie Abdala, que era repórter em ascensão de um dos principais jornais do estado. Além do detetive Jones e diversos outros agentes da lei com cargos superiores.

- Há quanto tempo ele está lá? – Lucius perguntou, quando terminou de falar com o advogado da sua família pelo celular.

- Umas duas, três horas... E não para de murmurar coisas sem sentido. - Jones estava em seu primeiro caso que teve impacto nas mídias sociais e ainda estava meio perdido por ter descoberto o autor do assassinato de cerca de vinte pessoas. O irônico daquilo tudo é que o garoto de dezessete anos foi pego tentando roubar um banco com uma máscara de palhaço medonha. A lógica daquilo tudo, ele não conhecia. Na verdade, não sabia nem se aquelas coisas todas faziam algum sentido.

- Eu não consigo acreditar numa coisa dessas... - O outro homem começou a andar de um lado ao outro enquanto o detetive o observava atentamente.

"Não... O irônico não é o garoto ser pego assaltando um banco...", Jones pensou, enquanto observava o promotor Lucius despentear, loucamente, os cabelos claros. Anne Marie, ao seu lado, estava tensa e atenta a qualquer movimento de qualquer pessoa na sala. Ao contrário do pai, a moça estava em perfeito alinhamento, sem um fio de cabelo sequer fora do lugar.

“Cada um sofre da maneira que lhe faz bem...”, o detetive continuou suas divagações a respeito da excêntrica família Abdala por mais algum tempo, enquanto todos ao seu redor trocavam diferentes impressões sobre o caso.

Seus pensamentos foram interrompidos pela entrada de dois policiais fardados que acompanhavam um homem perfeitamente alinhado. O advogado do diabo encarnado, que cumprimentou apenas pai e filha, ignorando completamente as outras pessoas.

- Então podemos começar? - Jones ignorou o estremecimento de Lucius. Em seu lugar, estaria tão nervoso quanto o promotor. Ou mais, talvez.

- Ainda não. – Josh Patterson, o advogado, olhou o homem loiro com expressão perdida enquanto falava. - Eu preciso conversar com o meu cliente.
Anne Marie soltou uma risada curta e áspera enquanto o pai afrouxava, novamente, o nó da gravata já amassada.

- Não acho que vá adiantar alguma coisa. – O promotor respondeu e sentiu mais um estremecimento tomar conta do seu corpo. Não sabia quanto tempo mais aguentaria aquela loucura.

- Mas é um direito dele. Fique à vontade. - Henri Jones indicou a sala de interrogatório com um gesto de cabeça e o advogado entrou. – Anne Marie...

- Eu sei. É o convencional “nada de repórteres no interrogatório”. – Ela balançou a cabeça e disse, antes de ir embora da delegacia: - Te vejo mais tarde, detetive.

– Era mais do que uma promessa, era um fato.

--

Dentro da sala cinzenta de interrogatório, Lucius estava prestes a desmaiar enquanto ouvia Jones recitar todos os direitos do acusado: seu filho.

- Senhor Eric Abdala... - Os olhos azuis do garoto foram do advogado ao detetive. Em momento algum olhou para Lucius. Um golpe de sorte, Jones esperava. - Es...

- Antes de começar com a palhaçada, eu quero que o advogado saia da sala.

- O que?! - Lucius se sentou de frente para o filho quando escutou tamanho disparate. Suas pernas não aguentariam mais sustentar seu próprio corpo. Não sabia nem se sua cabeça continuaria sã depois de tantas coisas acontecendo por causa do seu filho, mas ele não poderia simplesmente ignorar o mundo que explodia ao seu redor.

- Eu renuncio ao meu direito de ter um advogado.

- Podemos alegar insanidade mental, promotor. – O advogado disse, mas foi ignorado.

- Ficou maluco, garoto?! - Lucius Abdala socou a mesa, perdendo seu férreo controle.

- É um direito dele, promotor. - Jones lembrou-o de que, naquele momento, não era o pai. Era o promotor e seu dever era interrogar o suspeito. Mesmo que tal suspeito fosse seu próprio filho.

Uma batida na porta da sala de interrogatório foi ouvida e mais um homem entrou.

- O que foi agora? - Jones já estava impaciente. Quanto tempo mais demorariam para começar o interrogatório? Ele só queria que aquele monstro fosse morto ou, no mínimo, preso pelo resto da vida.

- Vim acompanhar o caso, detetive. Posso? - O tom irônico de Jamie Dewes costumava agradá-lo, mas, naquele momento, Jones sentiu vontade de arrancar o pescoço do outro promotor. - Lucius não é o promotor ideal para o caso.
Disso ninguém poderia discordar.

Com alguns protestos movidos aos honorários que perderia, o advogado saiu da sala silenciosamente e restaram os três agentes da lei e Eric Abdala.

Finalmente, para a alegria de Jones e tortura de Lucius, eles poderiam começar.

--

- Alice Altmayer. - Henri Jones colocou a foto de uma garota loira sorridente em cima da mesa. - Lembra-se dela?

- Não. - O garoto havia concordado em falar sobre os assassinatos. Admitira que o roubo fora frustrado, mas sorriu quando lhe foi falado das mortes. Um sorriso que lançou farpas de gelo pela coluna do pai. Era como se ele se orgulhasse de ter matado dezenas de pessoas inocentes, como se esperasse por um prêmio.
Dewes e Abdala estavam de pé, cada um de um lado da mesa, enquanto o detetive e o garoto estavam sentados frente a frente, dissertando sobre pessoas assassinadas por um lunático como se isso fosse a coisa mais normal do mundo.

- E agora? - Lucius pegou a foto que foi tirada na mesa de autópsia. A garota estava completamente queimada. Nada que pudesse ser semelhante à primeira foto. - Só a identificamos pela arcada dentária, Eric. - O olhar cruel não desviava em nenhum momento do filho. Filho? O que ele havia criado? Será que Lucius poderia chamar aquele ser asqueroso de filho?

- Ah sim... - O sorriso nos lábios de Eric aumentou e seu pai teve que usar seu mais férreo controle para não socá-lo ali mesmo. - Alice Altmayer... Lembrei-me.

- Por que a matou? - Jamie rodeou a mesa para ficar ao lado do outro promotor. Uma lembrança de quem ele era e de que não podia perder o controle.

- Porque eu quis.

- Ah claro! - A onda negra de sarcasmo quase podia ser vista na sala. - Eu vejo uma pessoa na rua e quero matá-la. Isso é o suficiente para que eu exploda seu dormitório da faculdade!

- Sou um cara de gostos simples. - Os olhos azuis, tão iguais aos do pai, não deixaram de fitar Dewes em momento algum. - Gosto de dinamite, pólvora, gasolina. Sabe o que essas três coisas têm em comum? - Ele se levantou e apoiou as mãos na mesa. - São baratas.

- Isso não responde a minha pergunta.

- Sinto muito, então, mas acho que não posso respondê-la com o que deseja.

Aquele garoto era louco. Era a única explicação que fazia sentido para o detetive Jones.

- Pois bem... Elaine Bartzen. - O detetive colocou a foto de outra garota na mesa. Nenhuma reação de Eric. Pegou mais uma e a mostrou. Não se surpreendeu quando um feixe de reconhecimento iluminou os olhos azuis.

- Ela não sorria... - O tom de voz era quase pesaroso. O balançar de um lado ao outro da cabeça quase poderia ser confundido com arrependimento. - E o garoto... Ele queria que a namoradinha sorrisse...

Os três pares de olhos se arregalaram.

- Eric... - Lucius engoliu em seco. - Você...

- Anda vendo filmes demais. - Jamie disse, ainda boquiaberto.

Henri apenas encarou-o sem conseguir acreditar.

Seria cômico se não fosse tragicamente doentio.

Jones poderia cair na gargalhada se o sorriso que o encarava na fotografia da autópsia não fosse uma mistura de carne, sangue e morte.

- O que você é? - Jamie perguntou. Mas ele não esperava nenhuma resposta. Não nenhuma que fizesse sentido.

Eu sou o agente do caos. E sabe qual é a chave do caos? - Jones conhecia aquela frase. Conhecia a metodologia insana para matar. Dewes tinha razão ao dizer que ele via filmes demais. - O medo.

Lucius se lembrou do que o médico legista lhe disse sobre aquela ser uma das coisas mais brutais que ele já havia visto. Se lembrou da expressão de medo que havia nos olhos dele. E sentiu nojo. Nojo do filho. Nojo de si mesmo por ter criado uma aberração.

- Sabe... - Eric inclinou sua cadeira para trás e fez um movimento com a boca ao melhor estilo "Heath Ledger". - Eu vou falar um pouco sobre essa... A... Como é mesmo o nome dela?

- Elaine. - Dewes não fazia a mínima ideia de como, mas conseguira falar.

- Elaine. - Um aceno de cabeça em concordância e mais um olhar, na tentativa de ser furtivo, aos três homens. - Ela era mesmo uma gracinha... - Os três esperaram. Não por realmente querer esperar, mas por que algum tipo de curiosidade macabra havia paralisado seus corpos. Como se aquilo fosse um filme de terror barato, mas que eles não conseguiam desviar a atenção por qualquer motivo além da compreensão humana. - Ela merecia mais do que um tiro na cabeça. E eu lhe proporcionei isso.

A lembrança do relatório da autopsia invadiu as três mentes chocadas. Os vários cortes nos lugares certos... Cada nervo, a profundidade perfeita para que a vítima chegasse ao limite da dor antes de morrer. Um trabalho torturante, frio e muito, muito paciente.

Sabe por que uso facas? Armas são rápidas demais. - Mais uma frase decorada, Jones pensou. Nunca sequer imaginou que sua paixão pelo coringa o levaria à algo assim. Mais uma morte planejada. Algo lhe dizia que ele previra aquele momento e o modo exato como ele se desenrolaria. - E... Se você é bom numa coisa, nunca faça de graça.

- Você cobrou pra fazer algo assim?! - Lucius Abdala nem sabia dizer o que o chocava mais. O modo brutal como a garota foi morta, o olhar calmo na face do próprio filho... Nada daquilo era normal. Ele não queria acreditar em nada do que ouvia.

- Aquela outra garota... A ruiva. A amiga dessa aí... Como é o nome?

- Catharina Falk. - Jones disse sem hesitar. Não precisaria pegar a foto para se lembrar.

- É. Deve ser isso. Ela pediu para que amiga recebesse o troco por roubar seu namorado.

- Eu... Eu preciso vomitar. - Lucius saiu, apressado e trôpego, da sala.

- Bom... - Eric continuou atraindo a atenção dos outros novamente para si. - Os pais diziam que ela era uma boa garota... Mas ela queria a amiga morta. Então... As pessoas são tão boas quanto o mundo as deixa ser, certo? Com essa não foi diferente.

- Você é louco. - O detetive disse.

- Eu sei! - Uma risada psicótica e estridente preencheu toda a sala surpreendendo os dois homens. - Mas a loucura é como a gravidade, só precisa de um empurrãozinho. - O grito deveria ser previsível. Ele estava imitando seu ídolo, não? Deveria ser previsível o grito, o jeito psicótico, a risada medonha...
Mas não foi. Eles nunca imaginariam aquele tipo de coisa na vida real. - E... O namorado... O namoradinho dessa aí...

- Ele está numa clínica para doentes mentais agora. - Jones disse.

- Wow... Por essa eu não esperava. Então o filho da mãe sobreviveu...

- Não creio que tenha sido uma coisa boa.

O que não nos mata nos torna mais estranhos.

Aquela foi a gota d'água. Henri pegou o garoto pela gola da camisa por cima da mesa e levou-o consigo até apertá-lo contra a parede. O ódio que nublava sua mente não o permitia lembrar de que era um detetive e que interrogava um criminoso. Nenhum cargo ou nenhuma lei poderia pará-lo naquele momento.

- Seu desgraçado!

Mais uma risada histérica passou pelos lábios do garoto loiro despenteado. Era a oportunidade perfeita para mais uma demonstração da sua boa memória.

Você não vai me matar por algum senso de moralismo inadequado. E eu não vou te matar porque você é muito divertido! - O sorriso era carente de qualquer tipo de controle. O olhar tinha um inegável brilho de loucura. - Eu acho que nós dois vamos fazer isto para sempre! Olha que divertido!

- Não se eu te matar antes. - A voz de Lucius fez o corpo do filho estremecer. Nenhum dos três havia visto quando ele voltou à sala. Pelo menos parecia que o pivete tinha medo do pai. Era pelo que Dewes e Jones esperavam ansiosamente.

Você pode se vingar do mal, sem se tornar parte dele, papai?

- Vai se foder!

Antes que o pai sequer tivesse terminado a frase, Eric já estava jogado no chão com o lábio superior cortado por causa do soco.

- Foi você quem me criou. Você me deu os meios, me levou ao cinema... Foi você o culpado pela morte daquelas pessoas.

As palavras travaram seus pés. Lucius olhou para a figura distorcida que antes chamava de filho e tudo o que sentiu foi nojo de si mesmo. Não poderia odiá-lo. Não poderia matá-lo. Mas poderia odiar a si mesmo por ser, em parte, culpado.

- Vai matar seu pai também, Eric? - Perguntou com uma frieza que ele mesmo desconhecia. Talvez o filho tivesse herdado isso dele.

Eu não quero te matar. Você me completa. - O garoto deu de ombro e ele quase acreditou na inocência do olhar. Quase. - É verdade que essa cidade merece uma nova classe de criminosos, mas eu não quero te matar. Você é parte de mim.

--

Trecho da reportagem “Obsessão”, por Anne Marie Abdala
Publicado num jornal de grande circulação nacional

Eric Abdala foi diagnosticado com esquizofrenia, psicose e considerado altamente perigoso para a sociedade. Sua obsessão pelo personagem o impediu de ver seu próprio fracasso.

No quarto da clínica para doentes mentais onde foi internado, foram encontradas diversas facas guardadas e uma ao lado do seu corpo. A mais cega dentre todas. Junto ao sorriso da morte feito por ele próprio, estavam suas últimas palavras e mais uma prova do descontrole de sua obsessão.

Um trecho da carta de cinco páginas foi cedido à imprensa e pode ser lido a seguir:

"Aí o tempo para e eu me acalmo, abro os olhos e encaro o mundo. E, pela primeira vez, vejo através dele e entendo a piada: Nada é real.

Às vezes a vida é dura. Você recebe choques e mais choques. Parece que querem derrubar o mundo sobre sua cabeça. Por isso, sempre sorria! Se tiver que morrer, morra sorrindo! Se tiver que matar, mate sorrindo! E sempre coloque um sorriso no rosto das outras pessoas. Nem que, para isso, precise rasgar-lhes a face de orelha a orelha."

Segundo constatações feitas pela própria autora que lhes escreve, Lucius Abdala nunca mais conseguiu falar sobre o filho sem se lembrar da face rasgada que encontrou no quarto e começar a chorar de, segundo o próprio ex-promotor, ódio de si mesmo.

--

Henri Jones fez uma careta ao terminar de ler a reportagem. Anne Marie havia se consagrado no ramo investigativo pela matéria que havia feito sobre o irmão mais novo. A maior parte das pessoas não teria coragem de contar a história macabra do próprio irmão. Mas os Abdala estavam longe de ser uma família comum. Lucius havia se aposentado e tentava conviver com a morte do filho, sua esposa entrou em depressão e a filha foi ao topo usando o próprio irmão de escada. No fim, ele estava mesmo certo e cada um sofre do jeito que lhe faz bem.


sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Aceitável

Fomos jogados ao mar pelos piratas que decidimos nos transformar. O sal entra em nossa garganta fazendo tudo aqui dentro arder. É como se houvesse areia em nossos pulmões. É impossível respirar. Estamos nos afogando, amor, mas, ao menos, estamos juntos. E eu sei que assim fica mais aceitável morrer.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Cais

Será minha chegada,
e minha partida;
quem irá catar meus pedaços.
Feita de pedra
e aço;
e flores;
para que eu possa cultivar.

Será meu retorno sem mágoas.
Meu anseio por novas águas.
Ou por novos barcos.
Outro porto, quem sabe?

Será minha monótona mudança.
Minha busca pela rotina,
por algo igual com gostinho de diferente.
e cheiro de quem precisa da gente.

Será meu sol em dia de chuva
e a brisa em dias de sol;
quem me esquenta no frio
e incendeia meu coração febril.

Será meu cais,
meu lar,
quem faz minh’alma sentir paz.
Bianca Pontes
22 de janeiro de 2015

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

E não esqueça as flores no caminho

Ela não é o tipo de garota que vai aceitar ser tratada como resto. Ela quer ser o centro do mundo, do seu universo inteiro. Ela não vai tolerar meio termo, meio amor, meio carinho. É tudo ou nada. Ou você traz o bombom mais caro, ou não traz nenhum. Nem mesmo venha, se não trouxer nada. Ela exige tudo, não se contenta com menos do que isso. E se achar que o que ela pede é muito, vá embora. E não se esqueça de pegar as flores no caminho para a porta.
Bianca Pontes

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Alívio imediato

Se textos servem para expor as dores dos escritores, que toda essa agonia se transmita para as palavras que insistem em escorrer pelos meus dedos.

Se as dores se transformam em palavras, que cada pedaço do meu coração quebrado vire tinta sobre o papel amassado.

Que minha agonia possa habitar as linhas mal escritas de um poema qualquer e que minha dor se derrame sobre as estrofes ritmadas que saem do meu peito. Que não more mais em meu coração.

Se isso pode trazer algum alívio, que seja imediato, que seja tranquilizador. Não precisa ser eterno, mas que seja verdadeiro.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Crônicas da faculdade - Mestres... Excêntricos (?)

Todo e qualquer aluno já teve um professor estranho. É claro que as “excentricidades” pioram à medida que você cresce e tem uma percepção mais - ou menos - objetiva. Verdade é que uma criança de cinco anos não perceberia a exibição porca que um professor faz do seu Iphone de última geração. Ou perceberia e acharia a coisa mais legal do mundo... Não sei.

"Vamos falar de paradigma!" Mais especificamente, o paradigma do iphone. Paradigma esse que habita as aulas chatas por algumas semanas. Até que a matéria muda e ele levanta o objeto preto brilhante para que toda a sala veja com clareza. "Vamos falar de Organização estatal". Sim, meus caros, o iphone é o Estado soberano da coisa. Quem são os entes a ele subordinados? Galaxy's? "Hoje o assunto é o Estado social de direito"... Dá-lhe iphone reluzente na cara. Ele deve achar que aquele brilho todo ofusca os pobres olhares dos pobres estudantes. Paciência...

Possível encontrar também um professor que nunca compra as calças no tamanho certo. Seja jeans, preta, azul ou roxa, ela sempre cai. Mesmo com o cinto. Então lá se vai o baixinho loiro andar pela sala segurando a maldita da calça. Dois passos, uma puxada. Quando os passos excedem e sua memória ignora o fato de que a calça simplesmente cai, um puxão mais profundo faz-se necessário e o ser sem senso de tamanho fica comicamente atrapalhado entre careta, risadas e sinto desajustado. Talvez, se vendesse o iphone, teria dinheiro para comprar calças novas... Vai saber...

"Você deveria ter aprendido isso no ensino médio! Você não entende matéria do ensino médio?!" Os gritos fizeram meus olhos se arregalarem e minha língua, geralmente rápida para respostas secas e irônicas, congelar. Como assim aquela mulher que mais parecia um sapo enrrugado - ou o mestre dos magos - estava berrando coisas sobre ensino médio e eu não ter competência para aprender?! A merda começou quando colocaram a maldita da economia na carga horária. E eu sabia disso. Minha vontade foi dizer:

- Minha filha, tem um motivo por eu estar nesse curso. Se eu proseasse com a matemática, seria engenheira e não advogada. E desculpe se eu sou tão burra que não fui capaz de passar na federal exatamente pela matemática. Aliás, por que é que você, ser de inteligência tão superior, não trabalha lá mesmo?

Mas eu, congelada como estava por causa da gosma e dos sons profanos que saíam da boca daquele ser, não disse nada e me contentei em falar mal da maldita professora de economia geral na rádio corredor mesmo. Havia um motivo para eu nunca ter gostado de sapos. Só fui entender isso aos dezessete anos de idade, mas ok.

"Sua blusa combina com os seus olhos", que, por sinal, estão assustados. As mãos bem feitas ainda seguram as minhas enquanto o que eu mais quero na vida é sair daquela sala e berrar “FÉRIAS!” por uma semana seguida. O que não é possível agora, já que o professor/maior-protagonista-da-rádio-corredor não me deixa sair. Nunca confie em homens que fazem as unhas. "São verdes, não?" Por acaso ele é daltônico? Azuis que não são. E burro também. Não sou do tipo que quer o corpo dele nu. E nem vestido, por sinal. Com algum sorriso sem graça e um “tenho que ir”, finalmente, consigo me livrar do esquisito e saio da sala. Deus... É tão difícil assim ter professores normais? Então olho para baixo e prometo parar de usar blusas decotadas. Ou verdes. Que seja...

Ela era descabelada e um amor de pessoa. Atenciosa, cordial, sorridente. E casada, provavelmente. No mínimo, comprometida. No semestre seguinte, o cabelo se ajeitou, o casamento provavelmente acabou - ou o marido broxou - e um demônio a mulher virou. Implicou até com uma mosca que passeava pela sala e com a aluna quando esta, por sinal, havia parado de falar. O que aconteceu nos dois meses de férias entre um semestre e outro? Acho que ninguém teve coragem de perguntar...

Eu olho para o lado e o garoto está se sentido mais desconfortável que peixe fora d'água. Oh God, é exatamente o que eu imaginei. A sala em círculo, o calor de fevereiro ainda em horário de verão e piadas do tipo "Esse calor me dá um fogo!" aliadas a olhares pouco sutis direcionados ao garoto em questão. Minhas sobrancelhas se erguem e uma risada sufocada consegue escapar por entre meus lábios. O garoto me olha e, eu sei, sente vontade de me jogar pela janela e se jogar logo em seguida.

Ah, meu caro, isso é só o início.


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Nada demais

Ei, amiga, não precisa me xingar. Não vou reclamar – de novo – da sua chatice aguda e nem vou expor a minha falta de paciência com a sua vagina mal comida. Relaxa, respira, segura essa TPM antecipada e a dor de corna que vive tomando conta do seu cérebro de minhoca. Você não precisa ficar de mau humor o tempo inteiro e eu vou te mostrar que é possível sim sorrir depois de levar um pé na bunda. Venha comigo, vista uma roupa decente e passe maquiagem. Não necessariamente nessa ordem, claro. Ele cobra só quinze reais por hora. Nada demais.
Bianca Pontes
4 de janeiro de 2015

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Ainda que todo o resto me falte

Se eu olhar para frente e só ver o vazio, não me traga de volta. Se eu me perder no centro de mim mesma, não me acorde. Se o mundo cair em cima da minha cabeça e se eu não conseguir ficar firme nos momentos de crise, não tente me sustentar. Não me acorde, não me sufoque, não me pressione para que eu me levante. E nem tente me alcançar no fundo do poço. Não grite, a resposta será apenas o eco da minha alma vazia. Se todo o resto me faltar, eu terei minhas próprias cinzas para me deitar.
Bianca Pontes
05 de janeiro de 2015

sábado, 3 de janeiro de 2015

Resfriado

Era só um resfriado. Fazia o meu peito arder, o meu pulmão ficar mais lento e pesado, fazia meus olhos lacrimejarem. Também fazia meu riso mais frequente e as músicas ficarem mais bonitas. Fazia eu querer ficar grudada ao telefone e ler livros de romance. Mas era só um resfriado e, como tal, se foi.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Descalço no asfalto

O trabalho caleja nossas mãos
As lágrimas riscam nossas faces
O tempo perdido faz nosso passado
E as vitórias são as atitudes póstumas

De tanto ser obrigado a andar descalço
Nesse quente e sufocante asfalto
Acabei ficando bem mais velho
Do que meu velho e tão sofrido pai

Meu coração, este já não sinto mais
Ficou imune à dor da perda
E se contenta em só guardar lembranças.

Minha alma, esta jaz em paz
Numa aura de eterna tranquilidade
Com o fim da vida, finalmente se conformou.
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